
Mato Grosso do Sul, Brasil, 2008. O suicídio de duas meninas Guarani-Kaiowá desperta a comunidade para a necessidade de resgatar suas próprias origens, perdidas pela interferência do homem branco. Um dos motivos do desaparecimento gradual da cultura reside no conflito gerado pela disputa de terras entre a comunidade indígena e os fazendeiros da região. Para os Kaiowás, essas terras representam um verdadeiro patrimônio espiritual e a separação que sofreram desse espaço é a causa dos males que os rodeia. Uma disputa metafórica é criada. A compreensão e o diálogo buscam espaço nesse antigo conflito. Enquanto isso, o jovem Osvaldo, que vive um terrível embate contra o desejo de morrer, vai furtivamente buscar água no rio que corta a fazenda e conhece a filha do fazendeiro. Um encontro em que a força do desejo transpassa e ao mesmo tempo acentua o desentendimento entre as civilizações.
Co-produção entre Brasil e Itália, dirigida pelo chileno Marco Bechis, “Terra Vermelha” concentra sua força em um aparente paradoxo: o filme é uma eficiente denúncia sobre os índios guarani-kaiowá justamente por não ser um filme-denúncia.
“Terra Vemelha” começa com o suicídio de duas meninas guarani-kaiowá em uma reserva do Mato Grosso do Sul. Por conta desse episódio, um grupo deles decide sair da reserva e montar acampamento junto à terra onde estão sepultados seus antepassados – acreditando que foi a separação desse espaço sagrado que causou seus males. O problema é que a antiga floresta hoje é uma fazenda de agropecuária, cujo proprietário não quer os índios por perto.
Estabelecido o conflito, “Terra Vermelha” torna-se interessante por não se basear em uma simplista oposição entre bons selvagens e maus dominadores, por afirmar que o índio é uma vitima, mas não uma vítima indefesa. Talvez o grande mérito do filme seja oferecer a possibilidade do humor ao índio, figura sempre representada com traços tristes. Os guarani-kaiowá fazem piada sobre masturbação e medidas genitais; odeiam, mas também desejam os brancos; sofrem com paixões e ciúmes juvenis.
Como em “Serras da Desordem”, o brilhante filme de Andrea Tonacci, os índios de “Terra Vermelha” são demasiadamente humanos, não objetos de estudos. São, ao mesmo tempo, o Outro e Eu. Só com a identificação, sem o distanciamento, podemos entender a dimensão de sua tragédia.
TERRA VERMELHA – SINOPSE
Mato Grosso do Sul - Brasil. 2008.
O suicídio de duas meninas Guarani-Kaiowá desperta sua comunidade para a necessidade de
resgate de suas origens indígenas. Os índios crêem que o espírito causador do impulso suicida
poderá ser controlado com a reconquista de seus espaços naturais e espirituais.
Um dos motivos do desaparecimento gradual da cultura reside no conflito gerado pela disputa de
terras entre a comunidade indígena e os fazendeiros da região. Para os Kaiowás, essas terras
representam um verdadeiro patrimônio espiritual. As tradições religiosas têm grande ênfase na terra
- origem e fonte da vida. Assim, eles não se consideram proprietários da terra, mas parte integrante
dela e acreditam que a separação que sofreram desse espaço é a causa dos males que os rodeiam.
Dois mundos opostos que se enfrentam. Uma disputa metafórica, bem como uma real, é criada. A
compreensão e o diálogo buscam espaço nesse antigo conflito mas sem possibilidade de reais
entendimentos. Mas o encantamento pelo "outro" permanece latente em ambos os lados.
Osvaldo, jovem protagonista do filme, enquanto vive um terrível embate contra o desejo de morte
que vive rondando-o, conhece e se aproxima da filha de um fazendeiro. Um encontro em que a
força do desejo transpassa e, ao mesmo tempo acentua, o desentendimento entre as civilizações.
O diretor e roteirista italiano Marco Bechis é reconhecido e respeitado em todo o mundo pelo seu
cinema engajado. Em 1991, fez sua estréia como diretor de longa-metragem com o filme
"Alambrado"
In association with Birdwatchers, Survival International has opened a fund to support the Guarani. Every cent donated will go towards helping the Indians to defend their rights, lands and futures.
The cast features Guarani actors playing out the very tragedy that they and their communities have had to live through.
O DVD pode ser adquirido aqui , desde o dia 25 de Janeiro, com a vantagem da verba reverter para a causa do povo Guarani.
460,000 indigenous people
225 tribes
40-60 uncontacted groups
12% of Brazil designated as Indian land 0% of land Indian-owned
http://www.guarani-survival.org
Cf.
Guarani land strife story reaches DVDGuarani people
Birdwatchers
a fund to raise money
film is on sale online
Questão indígena ganha destaque no filme "Terra Vermelha" - Abril.com
Rubens Ewald Filho comenta o filme "TERRA VERMELHA"
XXXX
Ficha técnica:
director: Marco Bechis
roteiro: Marco Bechis, Luiz Bolognesi
fotografia: Hélcio “Alemão” Nagamine
montagem: Jacopo Quadri
música: Andrea Guerra
elenco: Claudio Santamaría, Alicelia Batista Cabreira, Chiara Caselli, Abrisio Da Silva Pedro, Ademilson Concianza Verga, Ambrosio Vilhalva, Mateus Nachtergaele, Fabiane Pereira Da Silva, Nelson Concianza, Poli Fernandez Souza, Leonardo Medeiros, Inéia Arce Gonçalves, Eliane Juca Da Silva
produtor: Amedeo Pagani, Marco Bechis, Fabiano Gullane
produtora: Classic SRL, Gullane Filmes
world sales: Celluloid Dreams
características: 108 minutoscolor, 35mm
# Site oficial do filme
http://www.mostra.org/32/exib_filme.php?filme=142
O trailer que circulou:
e uma compilação em vídeo das notas à margem do filme:
Marco Bechis: "Os índios têm uma nova arma de caça: o cinema"
Num português quase perfeito, com sotaque brasileiro, o realizador parte chileno, parte italiano Marco Bechis falou ao i da sua maior aventura: filmar no Mato Grosso, Brasil, e fazer de índios sem experiência actores principais. "Birdwatchers - A Terra dos Homens Vermelhos" estreia hoje nos cinemas portugueses e foi um dos favoritos no Festival de Veneza de 2008. Só não ganhou porque, segundo Bechis de 54 anos, "os europeus sofrem de complexo americano." Venceu "The Wrestler".Porque escolheu o nome "Birdwatchers" para o filme?
Queria fazer um filme sobre os índios, porque questionava-me quem eram os sobreviventes do genocídio que começou há 500 anos. Tinha uma ideia romântica ligada à Amazónia. Foi lá que comecei a investigar e conheci uma família de índios bem vestidos, que arranjava outros índios para os turistas verem. Percebi que eram birdwachters - pessoas que observam os pássaros, sem os fotografar ou interagir. É o que os turistas fazem com os índios, analisam-nos, enriquecessem-se e vão-se embora. Sem dar nada em troca.
Mas acabou no Mato Grosso.
Assim que conheci os Guarini- -Kaiowá, do Mato Grosso, interessei-me pela sua força. São fiéis às tradições, inalteradas desde que os europeus chegaram, e ainda lutam pela terra que ficou para os fazendeiros. As reservas não são a solução. Parecem favelas. Há álcool, droga, prostituição. Muitas famílias querem voltar para a terra dos antepassados.
É por isso que há tantos suicídios como vemos no filme?
Nas duas últimas décadas houve mais de 500. Foi algo que me impressionou muito. Nunca esqueci uma foto de duas meninas penduradas numa árvore. A falta da terra para cultivar, a destruição da natureza e a discriminação leva-os a isso. Acreditam que a vida do espírito será melhor.
Os actores são índios guarinis que vivem os problemas que vemos no filme. Porque não fez um documentário?
Queria uma experiência nova: um filme sobre índios, tendo- -os como protagonistas, apesar de toda a gente me dizer que eles iam desistir a meio, como já tinha acontecido. Não acreditei, porque aqui era a história deles, não eram apenas o cenário de fundo de De Niro ou Jeremy Irons em "A Missão". Foi mais fácil trabalhar com eles do que com muitos actores profissionais.
Porquê?
Eles têm uma natural predisposição para a representação, porque têm uma cultural oral muito forte. Eles não liam o guião. Todas as manhãs, explicava-lhes qual era a cena do dia e filmávamos de forma cronológica, para perceberem bem a história. Ambrósio, um dos actores que faz de líder da tribo, quando descobriu que ia morrer no filme, não achou graça nenhuma. Foi difícil convencê-lo. A sua imagem de homem morto fazia-lhe impressão.
Ensinou-os a representar?
Mostrei-lhes filmes como o "Pássaros", de Hitchcock, ou "Era uma vez no Oeste", de Sergio Leone, para entenderem o cinema e, mais importante ainda, para perceberem o que eram os silêncios. Eles compreenderam rápido e aprenderam uma nova arma de caça: o cinema. E caçaram- -nos para a sua causa.
O filme foi nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza e levou-os lá.
Levei cinco índios a Veneza e eles adoraram. Os meninos metiam a mão na água do rio e apanhavam peixe. Ambrósio disse até que Veneza estava muito usada. Quanto ao filme, foi a película italiana mais falada, diziam que íamos ganhar. Mas os europeus têm o complexo dos americanos. Ganhar era melhor para o filme, mas não para mim. Para um realizador é melhor perder, para que os próximos filmes sejam ainda melhores.
O filme mudou alguma coisa?
Talvez. Deu-lhes esperança e sei que uma das famílias do filme ocupou uma terra e o governo federal reconheceu- -lhes esse direito.
via Jornal i
Diretor de 'Terra Vermelha' quer brasileiros na luta pelos caiowás
O Terra já havia conversado com Marco Bechis no último Festival de Veneza, onde Terra Vermelha concorreu na competição oficial sob o nome original de Birdwatchers.Na ocasião, a expectativa do cineasta nascido no Chile e criado na Itália era pela leitura dos europeus - entenda-se a imprensa de vários países e o público restrito que tem acesso à mostra - quanto à história atual dos índios guaranis-caiowás que tentam reaver suas terras no Mato Grosso do Sul.
A recepção da crítica, especialmente a européia, foi boa, mas mesmo assim a fita saiu de Veneza sem prêmios. Agora, sentado numa sala de entrevistas da 32ª Mostra Internacional de Cinema, cuja abertura oficial aconteceu na quinta-feira com o filme, Bechis espera sensibilizar a platéia brasileira para a questão.
Otimista, acredita que o problema enfrentado pela tribo é conhecido pelos espectadores daqui. A ponto de ter retirado das cópias brasileiras o texto que ao final explica a situação dos índios. "Acho que esse é um acerto de contas que tem de ser feito entre os brasileiros", diz. "Um europeu não pode ir chegando e mostrando o que precisaria ser feito; agora, se vocês não sabem o que se passa lá deveriam prestar mais atenção, estudar".
O cineasta concedeu entrevista rodeado por cinco representantes cayowás, todos presentes no elenco do filme, no qual interpretam a si mesmos. Na história, com roteiro de Bechis em parceria com o paulistano Luiz Bolognesi, um grupo da tribo decide se instalar em suas antigas terras quando alguns integrantes aparecem mortos.
Não são mortes naturais. Um dos aspectos verídicos da trama, de base ficcional, é o suicídio constante de jovens cayowás, dimensão explorada pelo filme quase em tom sobrenatural e sem procurar dar justificativas. "Uma das muitas possibilidades é a falta de perspectivas para os nossos garotos e garotas", diz o índio Ambrósio. "Mas já houve caso que também poderia ser pela negativa de uma jovem a um pedido de casamento; não há uma explicação única", emenda Bechis.
Mas o confronto fundamental na fita se dá na questão das terras dos índios que passaram às mãos de um fazendeiro (Leonardo Medeiros) e sua plantação de soja ou cana-de-açúcar. Sem um lugar para se estabelecer e reviver sua cultura um tanto desgastada, eles convivem nos limites entre a propriedade agora privada, os assentamentos que não lhes servem e a estrada, onde muitas vezes ficam à mercê de bicos, como os oferecidos por um comerciante oportunista (Matheus Nachtergaele).
Com elenco brasileiro e italiano, a fita ganha valor mesmo é com a presença dos índios, num entrosamento raro de ser visto na tela. Bechis trabalhou com eles no registro naturalista, mas pediu-lhes para atuar com poucas palavras e muito silêncio. Para tanto exibiu aos protagonistas Era uma Vez no Oeste, de Sérgio Leone, e Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, como exemplo da importância dos silêncios. De Bolognesi, Bechis ganhou uma cópia de Iracema ¿ Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky (pai de Laís Bodansky, mulher do roteirista) e se encantou. "É um dos melhores filmes brasileiros que já vi".
Quanto à provável injustiça de Veneza de não reconhecer Terra Vermelha, Bechis parece conformado. "Quando se tem um júri com cabeças tão diversas como aquele não é possível saber o que se passou", diz. "Mas fico feliz se o meu filme servir para um esclarecimento, um aviso, pois os descobridores europeus não costumavam dizer que não existia ninguém no continente sul-americano quando eles chegaram?".
via Terra
Questão indígena ganha destaque em "Terra Vermelha"
SÃO PAULO (Reuters) - Co-produção entre o Brasil e a Itália que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2008, "Terra Vermelha", de Marco Bechis, é um drama ficcional que tem muito de documental, ao retratar os dilemas dos índios guarani-kaiowás do Mato Grosso do Sul em sua luta por território.O filme entra em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Mato Grosso do Sul (Campo Grande e Dourados).
O lançamento de "Terra Vermelha" serviu de estímulo para que também o mais conhecido filme anterior do diretor, "Garage Olimpo" (1999), inédito comercialmente no Brasil até agora, fosse também colocado no cinema, só que apenas em São Paulo.
O roteiro de "Terra Vermelha", escrito em parceria pelo chileno Bechis e o brasileiro Luiz Bolognesi ("Chega de Saudade"), apoiou-se em pesquisas realizadas no Mato Grosso do Sul, que elegeram os guarani-kaiowás não só como seu tema, como também seus atores. Boa parte do elenco provém das comunidades dessa nação indígena nos arredores de Dourados (MS), onde se situaram a maior parte das locações.
A história começa com a crise provocada pelo suicídio de duas jovens índias, devido ao desespero de uma aldeia confinada a um território extremamente limitado, sem opções econômicas ou profissionais para os seus habitantes.
Atrás de uma saída, o cacique Nádio (Ambrósio Vilhalva) resolve guiar seu povo para a retomada de seu território tradicional, ao lado do rio, que há décadas foi ocupado por grandes latifundiários da região.
A ocupação dos índios, embora pacífica, causa reação num fazendeiro (Leonardo Medeiros, de "Feliz Natal"). A princípio, ele conversa com os índios, mas não está disposto a tolerar sua presença. Enquanto não se decide a uma medida mais violenta, coloca para vigiá-los um capataz (o ator italiano Claudio Santamaría).
O personagem que melhor simboliza o conflito interno dos indígenas é o jovem xamã Osvaldo (Abrísio da Silva Pedro). De um lado, ele se sente tentado pelo suicídio. De outro, é chamado a assumir seu papel de liderança dentro do grupo que, por se tratar de uma função sagrada, exige que ele evite o sexo.
Uma opção difícil, não só por sua idade, mas pela aproximação das duas filhas adolescentes do fazendeiro, anunciando outra ameaça de choque com o mundo branco.
No elenco, destaca-se também outro brasileiro, Matheus Nachtergaele ("O Auto da Compadecida", como o agenciador Dimas. Além deste filme, o ator atuou recentemente numa outra produção internacional, o filme venezuelano "La Virgen Negra", de Ignácio Costillo Cottin, exibido na 32a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
por Neusa Barbosa, do Cineweb
via Abril
| 12.11.08 - BRASIL |
Seguimos nosso destino silencioso. Ficamos no estreito caminho da aldeia Guiraroká. De longe, na planície, se vê alguns ranchos, e uma casa um pouco maior. Anastácio, Kaiowá que nos orientava, foi nos guiando até lá. Chegando ao pátio, algumas mulheres e jovens ali estavam entretidos com o terere. Um pequeno gerador estava ligado para carregar um celular. Anastácio foi perguntando pelo Ambrósio. Acabou de ir para Veneza, respondeu a mulher de meia idade. Inicialmente, pensei que se tratava de algum vilarejo próximo. Depois, caiu a ficha. Ele acabara de sair para a Itália, para o lançamento do filme em Veneza. Após breve conversa, em que a filha de Ambrósio falou do problema de crianças que ficaram doentes pelos venenos que os senhores do agronegócio passaram nas proximidades, nos despedimos, seguindo para Dourados.
Hoje vejo, feliz, as notícias sobre o lançamento do filme "A terra dos homens vermelhos". Os comentários dão conta de que o filme é um dos grandes favoritos a ganhar o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza. Que bom! Na verdade, a história é inspirada na volta a um tekoha, terra tradicional, hoje tomado pela soja. Na verdade, a história é inspirada na lua de Guiraroká. Ambrosio é um dos inspiradores do filme. Registraram que na coletiva de imprensa "para a apresentação do filme, todos caíram em lágrimas e a sala Perla, onde estava acontecendo o evento, ficou lotada durante toda a exibição".(capitalnews 1/09/08) Eliene Juca da Silva, Kaiowá Guarani, foi responsável pelo melhor momento, "falou de forma contundente e emocionada sobre a situação do índio brasileiro - e sensibilizou a tosos - ‘Eu me sinto muito triste porque nossas lideranças morrem, morrem muitas crianças desnutridas. A gente quer ter oportunidade para nossos jovens, que são iguais a vocês. A gente tem pensamento, cultura, raça, língua... A gente não tem mais espaço para rezar, a gente mora num lugar muito pequeno; os fazendeiros pensam que a gente é invasor, e a gente não é. A gente só quer um pedacinho para plantar" (capitalnews1/09/08).
Enquanto isso, cá no Mato Grosso do Sul, continua uma inflamada campanha do agronegócio, indústria, políticos buscando impedir a demarcação das terras Kaiowá Guarani. Nos últimos dias a Federação das Industrias do Mato Grosso do Sul, tem liderado a ofensiva antiindígena com o discurso de que estão ameaçados os investimentos de 12 bilhões de reais, por causa do processo de identificação das terras indígenas. Parece que gostaram do número doze. Pois foram 12 milhões de hectares alardeados que iriam requerer os indígenas. Desta vez a FIEMS entrou com ação na justiça para sustar o processo de identificação.
Quiçá o filme "A terra dos homens vermelhos" ganhe o festival em Veneza e venha a sensibilizar mais e mais gente pelo mundo afora, sobre a dramática luta dos Kaiowá Guarani pelas suas terras e vida. O Mato Grosso do Sul, em suas terras vermelhas, outrora cobertas de exuberante mata Atlântica e hoje com um dos menores índices de mata, chegando em regiões a menos de2%, precisa urgentemente rever a fúria de um progresso devastador, que apenas concentra a terra e o capital em mãos de cada vez menos gente, e ultimamente nas mãos de grandes grupos multinacionais. Só existe desenvolvimento se existir justiça. E só existe justiça se forem reconhecidos os direitos dos povos indígenas, dos quilombolas, dos sem terra, dos jogados à beira da estrada e da vida.
O filme, quando estava sendo gravado em Dourados, foi repentinamente interrompido pela passagem no local dos integrantes da Comissão da Câmara dos Deputados, que investigou a morte de crianças Kaiowá Guarani, por desnutrição. Na ocasião, o diretor do filme ficou aborrecido pelo incidente, dizendo que os custos de produção eram altíssimos. Que agora os benefícios do grito pelos direitos indígenas sejam ainda mais altos.
Que a terra vermelha regada com o sangue de dezenas lideranças e milhares de vidas Kaiowá Guarani possa renascer e florescer em nova primavera!
* Assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Mato Grosso do Sul
Terra Vermelha (Birdwatchers), de Marco Bechis (Itália/Brasil, 2008)
por Eduardo Valente
Cinema com causa
A câmera opta por não se ater apenas ao agrupamento indígena, e vai também penetrar na casa de um fazendeiro da região (na fronteira de cujas terras os índios acabam acampando) e no trailer de um capataz deste fazendeiro. Esta escolha revela-se um dos maiores equívocos do filme, pois estes núcleos claramente surgem em tela de maneira forçada, com os dramas entre o fazendeiro e sua mulher estrangeira e entre sua filha e um jovem índio parecem especialmente protocolares e desprovidos de vida ou interesse. Leonardo Medeiros cumpre seu papel de maneira um tanto automática, e a italiana Chiara Caselli soa absolutamente deslocada, algo entre uma necessidade de produção para incluir algum italiano no elenco e o desejo de tematizar um “olhar estrangeiro” naquele ambiente.
O filme é bastante mais poderoso quando se atém ao espaço dos indígenas pois, embora contando com um roteiro bastante preguiçoso e a serviço das situações mais esperadas para ilustrar todos os dilemas possíveis (confluindo, claro, para o mais que esperado conflito final), a presença cênica de alguns dos atores nativos é realmente notável. Todas as vezes em que estão em cena, Nadio (Ambrósio Vilhava), Lia (Alicélia Batista) e Tito (Poli Fernandez Souza) possuem um magnetismo tal, que só nos resta lamentar que o filme não se dê mais tempo para simplesmente observá-los, porque em cada um dos seus rostos parecemos intuir muito mais o drama indígena do que nas idas e vindas narrativas que o filme tenta urdir. Ao tentar tudo ilustrar, Terra Vermelha, mesmo que não sem seus momentos de interesse, cai num desejo expositório que não dá conta da realidade (pois nem esta deveria ser a função da ficção), e acaba se distraindo daquilo de mais potente que tem em sua frente: a simples dimensão de poderosas paisagens naturais e humanas.Crítica: Terra Vermelha
Marco Bechis e a condição do índio brasileiro
27 de Novembro de 2008
Os estudos renderam a idéia do filme Terra Vermelha (Birdwatchers), produção italo-brasileira que tem como cenário Dourados, no Mato Grosso do Sul. É lá que os índios guarani kaiowá, restritos às reservas, sofrem os estertores de sua cultura perante os latifúndios da região e a presença sufocante do homem branco.
A trama acompanha um grupo de índios que, descontente com sua situação, decide deixar a reserva em busca das suas terras, onde seus antepassados estão enterrados. O local, porém, pertence a um fazendeiro de soja (Leonardo Medeiros) e aos nativos despatriados só resta montar acampamento do lado de fora, como vigias silenciosos do que um dia tiveram.
Bechis é um cineasta visual que não se apoia no didatismo para contar o drama dos guarani kaiowá. Todos os dilemas reais - alcoolismo, pobreza, as diferenças culturais, a depressão - estão registrados ali de maneira quase documental, mas integram uma trama de ficção interessante, em quase todas as cenas têm significados visuais que revelam pequenas peças do quebra-cabeça problemático.
Um exemplo: Logo no início, uma jovem índia é encontrada morta. Ela havia se suicidado, como tantos de sua tribo, vítimas de depressão gerada pela falta de perspectiva, de identidade - espectro que o filme inteligentemente explora de maneira metafórica na forma de um espírito maligno. Resta-lhe uma cova rasa, onde é colocada de rosto para baixo. No corpo, sua calça de funkeira...
Como essa, há várias seqüências simbólicas que contam uma história nos pequenos detalhes. A narativa principal - a luta dos índios contra o fazendeiro - é quase paralela. Igualmente impactante é a seleção de elenco, formado por atores nativos. A como Nadio (Ambrósio Vilhava), Lia (Alicélia Batista), Osvaldo (Abrísio da Silva Pedro) e Tito (Poli Fernandez Souza) assombram pela sinceridade.
Obviamente incomodado com a questão indígena, Terra Vermelha poderia ser reduzido a um filme panfletário, mas a inteligência com que trata o espectador afugenta essa possibilidade e o transforma em um drama relevante.
Considerações sobre o filme "Terra Vermelha"
Jejuvy é ritual de morte, mas também de libertação da palavra e da "inexistência"- invisibilidade.
Terra Vermelha
( Birdwatchers - La Terra Degli Uomini Rossi, Itália/ Brasil, 2008)v![]() |
O diretor italiano Marco Bechis tem em seu currículo produções sempre engajadas com a temática social – como Garage Olimpo , sobre ditadura na Argentina – e Figli , sobre crianças argentinas, filhos de desaparecidos políticos, adotadas ilegalmente por famílias de ex-militares. Em Terra Vermelha , o cineasta volta suas câmeras para o povo indígena brasileiro, mais precisamente a tribo Guarani-Kaiowá, que vive no Mato Grosso do Sul. Foi lá que o diretor filmou e encontrou os protagonistas desta história. Os povos indígenas são pouco retratados no cinema, especialmente na intensidade que Terra Vermelha faz e este é um os méritos o filme. Ao conferir tamanha autenticidade na história que pretende contar – também pelo uso de indígenas não-profissionais como atores -, o longa parece ter seu discurso e posição melhor legitimados. Misturando alguns dos mais fortes elementos que compõem a cultura indígena dos dias atuais – a tradição cultural aos conflitos que encontram na sociedade e na economia dos dias de hoje, por exemplo -, Terra Vermelha também assume uma posição de defesa dos povos indígenas, que cada vez mais se encontram à margem da sociedade. A primeira cena de Terra Vermelha já denota como o filme pretende derrubar – ou pelo menos tentar – visões preconceituosas em relação aos índios: na beira de um rio, um grupo deles esta junto à floresta, enquanto um grupo de turistas passa por eles em um barco. Os índios estão nus, com arcos e flechas nas mãos, como uma daquelas imagens que vemos nos livros de história. Assim que os turistas seguem seu rumo, eles voltam ao meio da floresta, recebem uma grana, vestem suas camisetas de algodão e shorts de nylon e seguem com suas vidas normais. O filme também mostra claramente que não são somente os conflitos sociais que atingem os povos indígenas atuais, mas também a questão da auto-estima de um povo. A produção os retrata de uma maneira bem sincera: eles não passam o dia fazendo a dança da chuva ou caçando, como mostra uma visão mais clássica de sua cultura; eles podem ouvir música eletrônica e calçar tênis da moda, o que não faz com que sejam menos índios.
O filme no site da Academia Brasileira de Cinema
Sinopse Mato Grosso do Sul - Brasil. 2008.
O suicídio de duas meninas Guarani-Kaiowá desperta sua comunidade para a necessidade de resgate de suas origens indígenas. Os índios crêem que o espírito causador do impulso suicida poderá ser controlado com a reconquista de seus espaços naturais e espirituais.
Um dos motivos do desaparecimento gradual da cultura reside no conflito gerado pela disputa de terras entre a comunidade indígena e os fazendeiros da região. Para os Kaiowás, essas terras representam um verdadeiro patrimônio espiritual. As tradições religiosas têm grande ênfase na terra - origem e fonte da vida. Assim, eles não se consideram proprietários da terra, mas parte integrante dela e acreditam que a separação que sofreram desse espaço é a causa dos males que os rodeiam.
Uma disputa metafórica é criada. A compreensão e o diálogo buscam espaço nesse antigo conflito enquanto Osvaldo, jovem protagonista do filme, vive um terrível embate contra o desejo de morte que vive rondando-o.
Ao mesmo tempo, indo furtivamente buscar água no rio que corta a fazenda, ele conhece a filha do fazendeiro. Um encontro em que a força do desejo transpassa e, ao mesmo tempo acentua, o desentendimento entre as civilizações.
Marco Bechis nasceu em Santiago do Chile em 24 de Outubro de 1955, de mãe chilena e pai italiano. Ele cresceu entre São Paulo e Buenos Aires. Em 1977, Marco foi expulso da Argentina por questões políticas e foi parar em Milão. Mais tarde, passou longos períodos em Nova York, Los Angeles e Paris. Antes de cinema, estudou economia na Bocconi University of Milan, foi professor primário na Argentina, fotógrafo em Paris, vídeo-assist em Nova York, até que em 1981 freqüentou a escola de cinema Albedo, em Milão.
Nos anos seguintes, Marco trabalhou com o Studio Pontaccio dirigindo e produzindo curtas-metragens premiados para a RAI.
Em 1991, Marco Bechis fez sua estréia como diretor de longa-metragem com o filme "Alambrado", exibido no Festival de Locarmo no mesmo ano.
De 1994 à 1996, filmou na Índia o documentário "Luca's Film", dedicado ao seu amigo Luca Pizzorno - escultor, artista e fotógrafo que morreu no mesmo ano. O filme participou do Festival de Locarmo de 1996.
Em 1995, Marco escreveu "Il Carniere", um filme sobre a Bósnia que ganhou o Prêmio Amidei 97 de melhor roteiro italiano do ano.
Seu segundo filme foi "Garage Olimpo", de 1999, uma história de um campo de concentração durante a ditadura militar na Argentina. O filme participou do 52º Festival de Cannes
Em "Hijos/Figli", seu terceiro longa-metragem, Marco contou a história de crianças argentinas desaparecidas que eram adotadas ilegalmente por famílias de ex-militares. Com este filme, recebeu o prêmio Cinema pela Paz no Festival de Veneza.
Em 2004, Marco Bechis fundou a KARTA FILM e começou a preparação de "Birdwatchers", seu primeiro longa-metragem também como produtor que terá sua estréia no Festival de Veneza de 2008.
Palavra do Diretor
A chegada dos Guarani-Kaiowás nas telas de cinema: uma desbravada cinematográfica.
Este filme é dedicado à memória de Enrique Ahriman, meu amigo e mentor, que morreu em 2002, em Buenos Aires. Nós conversávamos muito sobre nossos projetos. Enrique era um artista de muitas faces, mas nós, seus amigos, éramos a obra em que ele mais gostava de trabalhar e pela qual ela mais se importava. Ele estava sempre pensando, mas pensava mais sobre o que nós tínhamos em mente, do que a respeito de seus próprios trabalhos. Na época em que ele estava doente, nós conversamos muito sobre o grande genocídio da história da humanidade, a Conquista da América. Eu estava interessado na "questão do outro", o qual Todorov havia analisado em um livro do mesmo nome. Ele sugeriu que eu lesse Yanoama, a história-entrevista com Helena Valero, que foi seqüestrada e aprisionada por trinta anos, um tipo de mulher Tarzan. No ano seguinte, eu fiz uma longa viagem pelas Cordilheiras do Andes, junto a comunidades indígenas do Peru e do Equador. E fui até a Amazônia Equatorial em um pequeno avião com um grupo de observadores de pássaros (birdwatchers), visitando a tribo Ashuar - que teve contato pela primeira vez com o homem branco apenas há 40 anos. Logo que eu voltei para Milão, eu escrevi um roteiro baseado na história de Helena Valero e eu preparei uma viagem para reconhecimento das locações.
Há anos eu vinha seguindo as campanhas da Survival em defesa das populações indígenas. Visitei as suas sedes em Londres e Milão. Juntei informações sobre as tribos sobreviventes na América Latina e descobri vídeos raros de índios que haviam sido descobertos há pouco tempo. Fiquei sabendo sobre os suicídios entre os jovens Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul e sobre as lutas para recuperação de suas terras, as chamadas "retomadas". Imediatamente, entendi que os Guarani-Kaiowás eram o povo que eu estava procurando durante todo esse tempo, embora eu nunca tivesse ouvido falar neles. Percebi também que não poderia usar o roteiro que havia escrito sobre Helena Valero. Mudei meus planos de viagem. Meu destino não era mais a Amazônia. Coloquei uma câmera 35mm, um caderno para anotações e um gravador em minha mala e parti para Dourados, uma das principais cidades da região do Mato Grosso do Sul. Uma cidade moderna e rica, centro da produção de soja transgênica. A cidade parecia o set perfeito para o "Twin Peaks", de David Lynch. Na estação de ônibus, Nereu Schneider, advogado responsável pela defesa do Guarani-Kaiowás há vinte anos, estava nos esperando. Nereu nos apresentou às comunidades indígenas da região e a primeira que visitamos foi a de Ambrósio, que mais tarde se tornou um dos protagonistas do filme (Nádio). A sua história de vida, de degradação na reserva Carapó, deixou marcas no roteiro que eu estava começando a escrever. Quinhentos anos após a conquista, os conflitos ainda eram os mesmos. A forma mudou, mas não o conteúdo. Eu sabia que o filme seria sobre esses lugares, mas a questão era "como" fazer esse filme, usando qual linguagem cinematográfica, quais instrumentos. Eu sabia que o maior problema era encontrar os atores que interpretariam esses papéis. Quais atores profissionais conseguiriam fazer esses personagens? Eu encontrei a resposta para essa pergunta uma tarde, depois de uma reunião com autoridades do governo: aqueles nativos, homens e mulheres, que eu assistia enquanto eles expunham as suas questões às autoridades de Brasília eram dotados de uma sofisticada arte retórica. Eles sabiam como argumentar com convicção, com um grande controle sobre suas palavras e seu corpo. Eles eram atores. Dali em diante, tive absoluta certeza que o filme só seria feito se eu conseguisse fazer daqueles índios os protagonistas. Sem eles, o filme perderia seu significado.
Com o objetivo de confirmar essa intuição, eu perguntei para um jovem nativo chamado Osvaldo, da comunidade de Ambrosio, se ele estava interessado em atuar em um filme. Ele me perguntou o que significava ser ator de um filme e eu respondi que ser um ator significava fazer um papel que ele deveria aprender a interpretar. Ele pensou por algum tempo e respondeu: "Mas eu faço um papel todo o dia". "Quando?", eu perguntei surpreso. "Todo dia eu rezo". Seus rituais são performances teatrais, eventos e conversas com Nhanderu, seu Deus. Atuar é parte de suas tradições.
Nós começamos de fato a preparação do filme somente no final de 2006, quando iniciamos a seleção dos atores. Nós precisávamos de 230, entre papéis principais, secundários e figurantes. Urbano Palácio, que tem um grande conhecimento da língua Guarani, percorreu as comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul entrevistando 800 nativos e nos concentramos em três grandes comunidades ao redor de Dourados. Tínhamos que nos ater a comunidades perto da cidade porque não queríamos deixar os atores longe de suas famílias. Durante as filmagens, os nativos eram pegos em suas comunidades todas as manhãs e levados para o set e à noite eram levados de volta às suas casas.
Examinamos todas as entrevistas, uma por uma, tomando decisões em diferentes níveis: além das potencialidades expressivas, nós nos deparávamos com problemas que simplesmente não existem com uma escolha de elenco convencional. Nós queríamos saber antes de começar a filmar se os índios que nós escolhêssemos chegariam ao fundo de seu compromisso. Nosso grande medo era que o trabalho com os índios fosse interrompido. Todos diziam que eu não conseguiria chegar ao final do filme, que eles me deixariam no meio do caminho, que eles iriam protestar e entrar em greve como fizeram com Herzog no filme "Aguirre - A Cólera do Deuses" e "Fitzcarraldo", ou com Roland Joffé em "A Missão". Mas essas eram preocupações sem fundamento: todos os índios escolhidos continuaram seu trabalho até o final das filmagens.
Em "A Missão", os Waunana, nativos da Colômbia que faziam o papel de índios Guaranis, eram apenas figuras secundárias na trama liderada por Robert de Niro e Jeremy Irons. Em meu filme, eu queria reverter esse clichê dando aos índios os papéis protagonistas, mantendo os atores profissionais brancos secundários na ação.
Uma vez finalizada a primeira seleção, nós tínhamos cem índios prontos para o filme. Eu queria vê-los trabalhando antes de decidir quem faria os principais papéis. Conheci Luiz Mario, um diretor de teatro que me ajudou no trabalho de preparação. Nós não tínhamos que impor exercícios típicos de atuação e técnicas que nós sabíamos que iriam quebrar a espontaneidade e originalidade deles. Nós tínhamos que partir de seu universo material e cultural. E nós tínhamos que ter em mente que eles já tinham habilidades em "atuação": dicção, porte, gestual, eram técnicas que os endureceriam. Então decidimos, junto com Luiz Mario, que prepararíamos seus corpos e vozes e que trabalharíamos com sua cultura gestual e suas escalas tonais. Nós começamos uma série de "oficinas teatrais" com os índios.
Depois dos primeiros meses de trabalho, eu assisti às primeiras improvisações no vídeo e percebi que alguma coisa ainda não estava funcionando: os índios sempre falavam muito, como se o silêncio fosse proibido, como se as palavras fossem a única forma de interpretar na cena que eles improvisavam. Eu logo pensei na tradição oral indígena, mas também na televisão que muitos deles assistem. Eu percebi que eles precisam entender melhor como o cinema funcionava. Em um sala de projeção improvisada, mostramos duas seqüências com quase nenhum diálogo ("Os Pássaros" de Hitchcock e "Era uma vez no Oeste" de Sérgio Leone).
Eu mostrei as cenas de três maneiras diferentes: a seqüência na sua forma original, a mesma seqüência interrompida por dois segundos de tela preta sem som, e a terceira versão da cena sem som nenhum. Eu então mostrei o que acontece em cada corte, como se cada cena fosse composta por vários pedaços, e os pedaços fossem os planos que nós iríamos filmar. A interrupção de dois segundos com a tela preta ajudou a deixar claro o conceito de cena e o conceito de plano e, mais do que isso, deu a dica para que eles começassem a entender como funciona o trabalho de edição. Entretanto, o que eu estava buscando principalmente eram os silêncios. Em uma cena sem falas de "Era uma vez no Oeste", eu expliquei a importância daqueles silêncios, fiz com que eles entendessem que, freqüentemente, aqueles silêncios valem mais do que cem palavras. Eu expliquei a eles que eram eles os protagonistas do filme, mas que os atores secundários (Claudio Santamaría, Matheus Nachtergaele, Chiara Caselli, Leonardo Medeiros) eram profissionais que sabiam usar esses silêncios muito bem na cena e sabiam esperar o tempo necessário antes de responder. Diante das imagens de Leone e Hitchcock eles, imediatamente, entenderam o significado do que eu estava dizendo. Durante as filmagens bastava eu dizer "Lembra do Era uma vez no Oeste..." e Ambrósio dizia "Eu sei o que você quer dizer, Marco", e ele fazia longas pausas olhando para o homem branco, antes de falar. A capacidade deles aprenderem era incrivelmente rápida. Eles tornaram-se atores em cinco meses.
Matheus Nachtergaele, que faz o papel de Dimas no filme, perguntou ao roteirista Luiz Bolognesi se ele achava uma boa idéia aqueles índios atuarem em um outro filme - já que Matheus é também diretor. Luiz respondeu sem hesitação "Atores normalmente não atuam em um único filme".
Ficha Técnica:
Direção: Marco Bechis
Roteiro: Marco Bechis e Luiz Bolognesi
Colaboração no Roteiro: Lara Fremder
Produção: Classic e Gullane Filmes
Co-Produção: Karta Film e Raí Cinema
Direção de Fotografia: Hélcio "Alemão" Nagamine
Direção de Arte: Clovis Bueno e Caterina Giargia
Figurino: Caterina Giargia e Valeria Stefani
Consultor Indígena: Nereu Sneider
Som Direto: Gaspar Scheuer
Montagem: Jacopo Quadri
Música: Domenico Zipoli (1688-1726) e Andrea Guerra
Produtores: Amedeo Pagani, Marco Bechis e Fabiano Gullane
Distribuição: Paris Filmes
Elenco:
Claudio Santamaría - Lo Spaventapasseri
Alicelia Batista Cabreira - Lia
Chiara Caselli - Fazendeira
Abrisio Da Silva Pedro - Osvaldo
Ademilson Concianza Verga (Kiki) - Ireneu
Ambrosio Vilhalva - Nadio
Mateus Nachtergaele - Dimas
Fabiane Pereira Da Silva - Maria
Nelson Concianza - Lo Sciamano
Poli Fernandez Souza - Tito
Leonardo Medeiros - Fazendeiro
Inéia Arce Gonçalves - La Cameriera
Eliane Juca Da Silva - Mami
Cf. também sobre o filme:
Paraguay, in lingua guaranì 16 febbraio 2010
http://www.abc.com.py/abc/nota/77671-El-drama-de-los-kaiowa-guaraní-en-una-película/
http://www.abc.com.py/abc/nota/77672-Garage-y-Birdwatchers/
Portogallo 29 ottobre 2009
Inghilterra 16 settembre 2009
The Guardian, 11 settembre 2009
Germania, 16 luglio 2009
TRAILER TEDESCO http://www.birdwatchers.pandorafilm.de/
-Norvegia il 19 giugno 2009
-Olanda, aprile 2009
-Svizzera il 22 maggio 2009
-Belgio, maggio 2009
-Francia il 17 dicembre 2008
-Brasile ottobre 2008
-Italia, 2 settembre 2008
FESTIVALS
CPH:PIX NEW COPENHAGEN INTERNATIONAL FILM FESTIVAL 2009: Latin Zone EDINBURGH INTERNATIONAL FILM FESTIVAL 2009: Rosebud FEBIOFEST 2009: Omaggio a Marco Bechis FESTIVAL DEL CINEMA ITALIANO DI TOKYO2009: Panorama FESTIVAL INTERNAZIONALE DEL CINEMA DI ISTANBUL 2009: Premio del Consiglio d’Europa - Face Award LOS ANGELES FILM FESTIVAL 2009: International Showcase ROTTERDAM INTERNATIONAL FILM FESTIVAL 2009: Spectrum SEATTLE INTERNATIONAL FILM FESTIVAL2009: Contemporary World Cinema SYDNEY FILM FESTIVAL 2009 AMAZONAS FILM FESTIVAL 2009 Gran Premio della Giuria presieduta da Alan Parker FESTIVAL INTERNAZIONALE DI CINEMA DI KERALA 2008: World Cinema FESTIVAL DO RIO 2008: Panorama FESTIVAL DU FILM ITALIEN DE VILLERUPT2008: In Concorso FESTIVAL INTERNAZIONALE DI MAR DEL PLATA 2008: Panorama LA BIENNALE DI VENEZIA 2008: Premio C.I.C.T. UNESCO Enrico Fulchignoni SÃO PAULO INTERNATIONAL FILM FESTIVAL2008: Perspective VIENNALE 2008: Spielfilme photosE’ possibile fare il download del press kit e delle fotografie ad alta risoluzione,registrandosi sul sito www.01 distribution.it. Studio e desaturazione dei colori. Studies on colors desaturation. 21 Photos Guarani Survival Fund |
Outros filmes para ver:
Uma lista dos filmes mais recentes que, que igualmente recomendo, e onde também se aborda a cultura e a luta dos indígenas pela sobrevivência no Brasil. Além dos costumes dos povos, todos colocam o enfoque nos desafios que enfrentam actualmente, 500 anos depois que começarem a sofrer as primeiras injustiças.Para que se tenha uma ideia, quando os portugueses pisaram pela primeira vez a terra tupiniquim, existiam no território mais de mil povos indígenas. Estão reduzidos a cerca de 250 diferentes etnias que ainda se espalham pelo Brasil.A ESTRATÉGIA XAVANTE
2007 . 86 min . Belisário Franca
Documentário que narra a estratégia visionária do cacique Ahopowê, da tribo Xavante que em 1973 propôs o envio de oito meninos para serem criados por famílias de brancos na cidade de Ribeirão Preto, em São Paulo. O objetivo era conhecer a cultura do inimigo para melhor combatê-lo e preservar a autonomia da tribo. O objetivo do cacique Ahopowê era que, depois de crescidos, estes meninos retornassem à aldeia e trouxessem consigo informações políticas, culturais e afetivas sobre a vida daqueles que foram os grandes inimigos dos Xavante.
HOTXUÁ, PALHAÇO SAGRADO
2008 . 70 min . Letícia Sabatella / Gringo Cardia
O registro poético do cotidiano dos Krahô tem origem nos rituais. Aquele povo considera a alegria um elemento básico da sua sociedade e designa entre os líderes um sacerdote do riso: o Hotxuá. Espécie de palhaço, sua função é brincar e animar o espírito da aldeia.
SERRAS DA DESORDEM
2008 . 135 min . Andrea Tonacci
Carapirú é um índio nômade, que escapa de um ataque surpresa de fazendeiros. Durante 10 anos ele perambula sozinho pelas serras do Brasil central, até ser capturado em novembro de 1988. Levado a Brasília pelo sertanista Sydney Possuelo, ele se torna manchete por todo país e centro de uma polêmica em relação à sua origem e identidade.
CORUMBIARA
2008 . 117 min . Vincent Carelli
Leiloada durante o governo militar, a gleba Corumbiara, no sul de Rondônia é o cenário, em 1985, de um massacre de índios isolados. Apesar dos visíveis sinais de apagar as evidências de sua existência, o caso é esquecido. Dez anos depois, o encontro de dois índios desconhecidos numa fazenda oferece a oportunidade de retomar o fio desta história, mas revela a continuidade dos crimes contra os povos indígenas.
BIRDWATCHERS - TERRA VERMELHA
2008 . 108 min . Marco Bechis
O suicídio de duas meninas Guarani-Kaiowá desperta sua comunidade para a necessidade de resgate de suas origens indígenas. Os índios crêem que o espírito causador do impulso suicida poderá ser controlado com a reconquista de seus espaços naturais e espirituais. Para os Kaiowá essas terras representam um verdadeiro patrimônio espiritual. Eles não se consideram proprietários da terra, mas parte integrante dela e acreditam que a separação que sofreram desse espaço é a causa dos males que os rodeiam. Dois mundos opostos que se enfrentam.
ARI HOKÃTA HAKA - AQUI É ASSIM
2005 . 19 min . Nicole Algranti
A relação dos Ashaninka com suas fronteiras e sua cultura é o tema alvo do documentário realizado na mesma época da gravação do CD Homãpani Ashaninka, que levou os Ashaninka a se apresentarem no Rock in Rio. O filme foi exibido em cerca de 25 mostras livres e festivais de cinema no Brasil, Portugal, Cuba, México e Estados Unidos. Foi realizado no Estado do Acre, região do Alto Juruá, uma das áreas de maior biodiversidade da Amazônia ocidental.
NOKE HAWETI - QUEM SOMOS E O QUE FAZEMOS
2006 . 54 min . Nicole Algranti / Sherê Katukina
As expressões artísticas, espirituais e culturais do Povo Katukina do Rio Campinas, no Acre. Pertencem às famílias lingüísticas pano. Acredita-se que na Amazônia, entre Brasil e Peru, cerca de 40 mil índios falam esse mesmo idioma. Na Terra Indígena Katukina do Igarapé Campinas vivem 350 índios. O filme conta com uma equipe indígena, além do diretor Sherê Katukina, responsáveis pelo som, produção e câmera, a partir de oficinas realizadas especialmente para o filme.
TARU ANDÉ - O ENCONTRO DO CÉU COM A TERRA
2007 . 13 X 26 min . Marco Altberg
Série documental de TV exibida no Canal Futura, apresentada por Aílton Krenak, que visita 12 diferentes etnias do Acre, Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais e Rondônia. Um mergulho profundo na História e cultura desses povos, através de seus personagens reais e mitológicos. A série mostra a situação atual de cada uma dessas etnias.
KATXA TIRIM - A DANÇA DO GAVIÃO
2004 . 5 min . Fabiano Txana Bane
Símbolo da união e da fartura, a dança do gavião - katxa tirim, uma importante tradição do povo Huni Kuin, há 30 anos não era realizada. O retorno dessa festividade que acontece ao longo de 2 dias e todo o preparo que dura um mês, foram registrados por Fabiano Txana Bane, com a ajuda de seu povo e do cacique Siâ Hunikuin. A mostra primeiros povos exibe um promo deste trabalho que ainda encontra-se em finalização.
DE VOLTA À TERRA BOA
2008 . 21 min . Vincent Carelli / Mari Corrêa
Homens e mulheres Panará narram a trajetória de desterro e reencontro de seu povo com seu território original, desde o primeiro contato com o homem branco, em 1973, passando pelo exílio no Parque do Xingu, até a luta e reconquista da posse de suas terras.
SABEDORIA VIVA DE UM POVO BRASILEIRO
2007 . 28 min . Fabiano Txana Bane
Huni Kuin significa povo gentil, povo verdadeiro. Fabiano Txana Bane, realizador indígena da etnia Huni Kuin do Rio Jordão do Acre, resgata as festividades e das pajelanças de seu povo através deste importante registro audiovisual, com rituais de cura, iniciação dos pajés e o conhecimento das plantas medicinais.
JURUNA, O ESPÍRITO DA FLORESTA
2008 . 86 min . Armando Lacerda
O Filme Juruna, o Espírito da Floresta conta a trajetória do Cacique político Xavante. É à luta de Mário Juruna que se deve hoje maior proteção à questão indígena no cenário nacional, que criou a Comissão Permanente do Índio no Congresso Nacional. "Juruna, o Espírito da Floresta", conta a vida do único indígena a ocupar uma cadeira no parlamento brasileiro, o cacique Xavante Mário Juruna, falecido em 2002.
PIRINOP - MEU PRIMEIRO CONTATO
2007 . 83 min . Mari Corrêa / Karané Ikpeng
Em 1964, os índios Ikpeng têm seu primeiro contato com o homem branco numa região próxima ao Rio Xingu, no Mato Grosso. Ameaçados em seu território por invasões de garimpeiros, eles são transferidos para o Parque Indígena do Xingu, onde ainda vivem. Unindo o passado ao presente, os Ikpeng evocam em um misto de tristeza e humor, o dia em que uma ave-espírito barulhenta cruzou o céu da aldeia pela primeira vez. De um lado, a memória - falha, intensa, reinventada, as imagens de arquivo, a narrativa oral. De outro, o presente, a aldeia, os gestos quotidianos, o desejo de retorno.



























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