O Público começa hoje a publicar uma série de reportagens e apontamentos que marcam o regresso do jornal ao Kuwait e ao Iraque, por razões que aqui se explicam. O 'Diário da Viagem' lê-se num micro-site criado especialmente para reunir as «notas e imagens de um percurso por 20 anos de conflitos que o tempo não tem ajudado a sarar». As fotos são do Nuno Ferreira Santos e os textos da Sofia Lorena, repórter que esteve no Iraque em 2003, depois da invasão do país liderada pelas forças militares dos EUA e da Grã-Bretanha que, entre 20 de Março e 1 de Maio, derrubou o regime de Saddam Hussein.
por Nuno Pacheco
foto: U.S. Air Force
Para um jovem jornal foi o teste decisivo. Lançado a 5 de Março de 1990, o PÚBLICO nascera por entre uma sucessão de acontecimentos mundiais extraordinários, a queda do Muro de Berlim e a libertação de Mandela, a derrocada dos comunismos a Leste e o fim da guerra-fria. “Uma época de incertezas onde se esboça o perfil do próximo milénio”, como se escreveu no primeiro editorial. Mas a 2 de Agosto o Iraque invadiu o Kuwait e no dia seguinte a manchete do PÚBLICO era esta: “Iraque desafia superpotências”.
E o mundo entrou em alerta até que, no prazo dado a Saddam Hussein para abandonar o Kuwait, na noite de 16 de Fevereiro de 1991, a guerra começou com bombardeamentos da aviação norte-americana; tomou novo rumo com a operação militar terrestre, às primeiras horas de 24 de Fevereiro; e terminou três dias depois, a 27, com a retirada das tropas iraquianas seguida de um cessar-fogo.
A estrada que servira para a invasão serviu também para a retirada, para os últimos confrontos e até para rendições. Chamaram-lhe a estrada da morte, pelos duros despojos: carros e armas destruídos, corpos calcinados.
Entre 1990 e 1991, a invasão e a guerra no Golfo deram origem a centenas de artigos, reportagens, entrevistas, editoriais, crónicas. Foi, para o jornal, um dos momentos mais altos da sua história, porque soube responder ao desafio de olhar o conflito sob todas as perspectivas, dando o melhor dos seus esforços.
Por isso o PÚBLICO, que à data enviou alguns dos seus melhores repórteres para o terreno, de Bagdad a Jerusalém, da Cidade do Kuwait a Washington, decidiu voltar vinte anos depois aos cenários da invasão e da guerra. Para ver como lidam, hoje, kuwaitianos e iraquianos com as memórias do conflito, para conferir as heranças da guerra em toda a sua extensão e para levar aos leitores, hoje como ontem, a perspectiva mais ampla possível sobre tal reencontro.
A invasão do Kuwait em 1990 foi para o mundo “o primeiro teste da nova era, que sucede à guerra-fria”, como escrevemos então. Quando os combates chegaram ao fim, o então presidente dos Estados Unidos, George Bush pai, disse: “A guerra pertence ao passado. Resta-nos um longo trabalho para assegurar a paz”. Ora os Estados Unidos já conheceram mais três presidentes e o “longo trabalho” ainda não acabou. E esta é mais uma razão para este regresso jornalístico ao Kuwait e ao Iraque, vinte anos depois.





















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