Espumas . Notas . Pasquim . Focus . Sons . Web TV . FB

A música de Pierre Aderne ao serviço da lusofonia

Posted: 28 de set. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , ,


Um brasileiro nascido em França fez um documentário e um disco para que o Brasil nos entenda melhor. "Bem me Quer, Mar me Quer" mostra que há águas que unem sem afogar

Há quase uma década, quando cantou em Portugal pela primeira vez, tinha apenas um disco em seu nome. Nascido em França (Toulouse) de mãe brasileira e pai português (de Ourém), mas com a infância passada entre Brasília e o Rio de Janeiro, Pierre Aderne não tardou a ir ficando por cá uns tempos, até arranjar mesmo uma casa. Nestes anos lançou uma trilogia dedicada às águas: Casa de Praia (2005), Alto Mar (2007) e Água Doce (2010), participando pelo meio em vários projectos entre os quais o do grupo brasileiro Doces Cariocas, que lançou (também em Portugal) um CD homónimo em 2008.
Agora, em 2012, mesmo finda a trilogia, a inspiração marítima serviu-lhe para um novo projecto: o disco Bem me Quer, Mar me Quer. Que por sua vez nasceu de um documentário, feito entre Portugal e Brasil: Música Portuguesa Brasileira, uma forma de dar a volta à velha sigla MPB (Música Popular Brasileira) mas procurando pontos de ligação entre culturas e géneros musicais. O filme estreou-se no Canal Brasil no dia 15, passou ontem à noite no Douro Film Harvest, em Favaios, e terá estreia lisboeta em Novembro, no São Jorge.


Pierre Aderne folheia o livrinho do CD como quem mostra um álbum de fotografias. Uma foto tirada num festival na Galiza, uma casa na Zambujeira do Mar, músicos, flores, azulejos, texturas. E, fotografados no chão, os despojos arroxeados de uma árvore que todos os anos embeleza Lisboa. "Jacarandás, que a gente já não tem lá no Brasil". O disco, diz ele, acabou por ser "um subproduto do documentário", mas contraria o que essa ideia possa trazer de pejorativo.
Com o documentário, Pierre quis "mostrar onde é que a música brasileira se encontrava com a portuguesa, sem que o Brasil soubesse disso." E diz que "alguns portugueses também não sabiam até onde é que essa mistura se deu." O fio condutor da história foi "a tertúlia musical, os saraus que eu já fazia na minha casa em Ipanema há oito anos. No decorrer das filmagens, vi que estávamos falando mais num novo sotaque da música portuguesa do que qualquer outra coisa. Quando eu vim para cá fazer o primeiro show no B.Leza, em 2003 ou 2004, vi que havia uma africanidade que já era lisboeta, alfacinha. Depois, conversando com o Tito [Paris], a Sara [Tavares] e o Luís Caracol, que é filho de retornados angolanos e que nasceu no sub-guetto africano, pensei: engraçado, a música do Tito já não é mais só de Cabo Verde, a da Sara tão-pouco, e senti que, mesmo na nova cena do fado sente-se a influência que a música brasileira e a africana têm: a malemolência no jeito de cantar, um swing que há muitos anos não havia".


Evitar o cliché

A história é contada dentro de casas: "Eu contive o ímpeto de mostrar o calçadão de Copacabana e a Rua da Bica, evitei o cliché. Se pensarmos que uma hora e quarenta minutos consegue-se segurar dentro de dois apartamentos, com algumas imagens no salão nobre do Conservatório de Música de Lisboa, é porque há assunto para contar. A história antes das canções. Por exemplo: ninguém sabe no Brasil que Vinicius veio para aquele encontro com a Amália [em 1968], ninguém sabe que ele compôs Saudades do Brasil em Portugal... No documentário estão todas essas histórias contadas à volta de uma mesa."
Impossível, aqui, ignorar o fado. "Ele está presente em tudo. A primeira imagem que a gente fez foi da Sónia, dos Gift, lá no apartamento a dizer quer odiava fado. E eu a olhar para ela e a pensar que nunca tinha visto uma mulher tão fadista na minha vida..." A quem se dirige, em primeiro lugar, um filme como este? Pierre Aderne não tem dúvidas: "Percebi que o grande endereço desse documentário era o Brasil. Como é que a gente não conhece Zeca Afonso, Ary dos Santos, Godinho, Palma, essa turma toda? Na mesma época em que Chico Buarque cantava ‘Tanto Mar' estava Zeca Afonso desfilando aquele reportório todo, belíssimo. Percebi que a gente estava falando mesmo era da música portuguesa. E as participações brasileiras vêm para enaltecer isso: quando a Fernanda Abreu compara o fado ao choro, com a morna literalmente no meio do caminho, dá para perceber isso."

Multidão no estúdio 

O disco, a que Pierre pôs o nome de Bem me Quer, Mar me Quer, surgiu depois. Quando, como sempre acontece ao dar-se com outros músicos (e Pierre já selou parcerias com nome como Madeleine Peyroux, Melody Gardot, Wagner Tiso, Paulinho Moska, Rodrigo Maranhão, Edu Krieger, Seu Jorge, António Zambujo, Cuca Roseta, Alexia Bomtempo), quis trabalhar com eles. "Por exemplo, a primeira coisa que me aconteceu depois de conhecer a música do Palma, o humor que ele tinha, foi querer compor com ele. Foi um processo natural, conhecer essas pessoas e compor." Mas ele não se limitou a compor. Escreveu já a pensar nas parcerias. "É como se tivesse escrito p'ra cinema. O JP Simões, na faixa que eu compus com ele, escrevi a letra já imaginando o que ele escreveria sobre aquele mesmo tema. Coloquei, por exemplo, palavras como ‘pachorra'."
As gravações demoraram quatro a cinco dias nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço d'Arcos, o que, diz Pierre, o que quase endoideceu os técnicos de gravação. Não foi difícil levar toda a gente para estúdio. Foi só: "Alinhas? Vamos nessa." Difícil foi depois aproveitar ao máximo, em tão pouco tempo, o melhor daquela "multidão". É que o disco junta , para lá de Pierre Aderne, entre portugueses e brasileiros, Jorge Palma, Mário Laginha, José Peixoto, JP Simões, Pedro Jóia, Daniel Jobim (neto de Tom), Sara Tavares, Luiz Caracol, Couple Coffee (Luanda Cozetti e Norton Daiello), Susana Félix, Alexandre Frazão, Júlio Resende, Ruca Rebordão, Dadi, João Frade, Mú Carvalho, Eduardo Jordão, Zé Paulo Becker, Gisela João, Mário Barreiros (em cujo estúdio foram feitas as misturas), além do cabo-verdiano Stephan Almeida (filho de Bau, no cavaquinho), dos japoneses Satoshi Takeishi e Saeko e do cantor e compositor norte-americano Jesse Harris (com quem Pierre compôs a canção que fecha o disco, Pra quando o Sol chegar), na guitarra.
Gisela João, jovem fadista de origem minhota, entrou no disco (na faixa Um lugar pra ficar) devido a uma sucessão de desencontros. "Essa faixa foi incrível. Foi a Luísa Sobral que a cantou no filme mas, na hora de gravar, ela estava viajando. Aí eu chamei a Teresa Salgueiro, que não podia; a Manuela Azevedo dos Clã também não; A Márcia gravou, mas o tom não dava para ela; e Mariza Liz, do Amor Electro, também gravou mas não gostou do resultado... Eu tinha visto a Gisela João cantar, convidei-a. E era p'ra ela, mesmo!"
Pierre Aderne sempre "teve muito medo" de encontros musicais onde o dueto entre artistas "não cola". Diz que já ouviu muito "samba p'a gringo". Mas com este disco ele quis mostrar que é possível fazer o contrário: deixar a música conviver, sem encontros forçados. "Eu acho que o disco pode ser ouvido no Brasil imaginando que a gente é o mesmo povo. A música contemporânea portuguesa já está muito mais palatável para os ouvidos brasileiros."

publicado no Público

Crítica do disco


Depois da aventura colectiva de "Doces Cariocas" (2008), Pierre Aderne tem finalmente os seus “doces” lisboetas, não no sentido alfacinha mas no que lhe foi dado por Sérgio Tréfaut no filme homónimo ou no que lhe dá agora o Quinteto Lisboa: o da Lisboa mestiça, lugar de cruzamentos naturais de vivências e culturas. "Bem me Quer, Mar me Quer" é acima de tudo um disco de Pierre Aderne, mas se ele é brasileiro na receita, é português e africano nos temperos. Ideias e tons absorvidos ao longo de anos, que fazem das canções híbridos naturais e não resultado, como tantas vezes sucede, de encontros forçados por interesses passageiros. "Nha morninha", por exemplo, que ele canta com Sara Tavares, foi escrita por ele mesmo, não por um cabo-verdiano, e as letras escritas para Jorge Palma ou JP Simões tiveram em conta os estilos e vozes de cada um. O resultado geral é cativante, absorvente por vezes, mas nunca suscita indiferença. Raramente assistimos a uma tertúlia musical assim, tão fluída e fluente, assistida por músicos de luxo (há Mário Laginha e José Peixoto, Daniel Jobim e Pedro Jóia, Júlio Resende e Alexandre Frazão, Júlio Resende e Stephan Almeida, Satoshi Takeishi e Norton Daiello, entre tantos) com surpresas a cada esquina. O som sedimentado nas 14 canções do disco mostra que se há um oceano a separar Brasil e Portugal, há por outro lado um mar sereno a uni-los, e a África, um mar a que prestamos pouca atenção mas onde é possível nadar sem nos afogarmos. Ouçam-no e entenderão.

por Nuno Pacheco


# PARA OUVIR na íntegra: AQUI.

Faixas:
1. jardim de inverno
2. pra tingir o seu vestido
3. neblina ( miúda de folgosa )
4. nha morninha
5. coração manteiga
6. um lugar pra ficar
7. eu preciso mentir que te amo
8. choro de cortar cebola
9. vou fotografar você
10. só pra ficar do lado dela
11. coração a meio
12. pra ela
13. pra quando o sol chegar
14. minha praia é daniela

0 comentários:

Postar um comentário