fotos de Miguel A. Lopes e José Sena Goulão
Hoje o 05 de Outubro de 1910, data da Implantação da República em Portugal, foi celebrado pela última vez como feriado nacional. Fica para a história não apenas por essa contestada decisão do Governo, mas também pela série de episódios e insólitos de que foi palco: a bandeira portuguesa foi hasteada ao contrário; o discurso de Cavaco foi interrompido pela entrada súbita de uma mulher desesperada que gritava «Alguém tem de começar a gritar»; antes dos convidados saírem, uma outra irrompeu a cantar Fernando Lopes Graça «pela alma de Portugal»; o primeiro-ministro faltou às cerimónias e o número dois da coligação no Governo, o ministro dos Negócios Estrangeiros também; os jardins do Palácio de Belém, que desde 2006 o presidente da República abria às pessoas, desta vez manteve os portões fechados; as comemorações oficiais, que desde 1910 (data da implantação da República) se celebrava na Praça do Município (onde o regime foi proclamado) foi transferida para o interior do Pátio da Galé, num edifício ao lado, e o acesso restringido apenas a convidados; o ex-presidente, Mário Soares, recusou estar presente, pela primeira vez, em sinal de protesto; todos os acessos no entorno dos Paços do Concelho foram vedados à circulação, mantidos desertos e fortemente policiados; uma manifestação de última hora, convocada nas redes sociais para a frente do Parlamento, acabou em confrontos e detenções.
O filme do dia, para ler na íntegra, clicando no link em baixo.
[REPORTAGEM]
Bandeira hasteada de 'pernas para o ar'
A cerimónia do hastear da bandeira que deu início às comemorações oficiais do 5 de Outubro começou por ficar marcada pelo hastear da bandeira nacional com o escudo ao contrário. Assim que o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, hasteou a bandeira, algumas vozes fizeram-se ouvir alertando que a bandeira estava ao contrário.
"É o estado do país", ouviu-se entre os populares que assistiam à cerimónia, enquanto outros diziam que era uma "gaffe" imperdoável a bandeira ter sido hasteada de forma errada [Congresso das Alternativas: Críticas à bandeira hasteada ao contrário]. Na Praça do Município, apenas cerca de 40 pessoas assistiram à cerimónia do hastear da bandeira, contrastando com as cerimónias do centenário da República há dois anos, quando a praça ficou repleta de convidados e populares.
Minutos depois de Cavaco Silva e restantes representantes políticos se terem dirigido ao Pátio da Galé, onde decorrem as restantes cerimónias, a bandeira voltou à sua posição correcta.
As duas mulheres que marcaram a efeméride: uma a chorar, a outra a cantar
As cerimónias ficaram ainda marcadas pela entrada no Pátio da Galé, em Lisboa, de uma mulher a gritar contra a actual situação do país, tendo sido retirada por vários elementos da segurança. As cerimónias ainda estavam a decorrer - discursava o Presidente da República, Cavaco Silva - quando se começou a ouvir um burburinho no fundo da sala junto à entrada do Pátio da Galé. Na altura, uma mulher gritava dizendo ser incapacitada, não ter trabalho e não ter futuro.
"Tenho uma pensão de cerca de 200 euros, estou farta de procurar trabalho, já tentei fazer limpezas, mas não consigo arranjar nada", disse aos jornalistas Luísa Trindade, 57 anos. A mulher tentou caminhar pela passadeira vermelha dirigindo-se até aos representantes políticos, mas foi imediatamente bloqueada por vários elementos da segurança que estavam no local e que, de seguida, a agarraram e a colocaram fora do local onde estavam a decorrer as cerimónias.
Luísa Trindade manteve-se à porta do pátio da Galé e à medida que os vários convidados iam saindo foi-lhes gritando e perguntando: "Não se envergonham de olhar para a minha miséria?". Chegou mesmo a interpelar o deputado do CDS-PP Nuno Magalhães, mas este seguiu sem dar resposta.
Os incidentes não se ficaram por aqui. Já depois de Cavaco Silva ter acabado de discursar, a plateia foi surpreendida por uma mulher que, ao fundo do corredor central do Pátio da Galé, começou a cantar o "Firmeza", de Fernando Lopes Graça. Ana Maria, cantora lírica, disse à Agência Lusa que já tinha estado na manifestação em Belém, no dia do último Conselho de Estado, a
cantar o "Acordai", do mesmo autor. "As pessoas estão a sofrer, eu sou uma delas. Eu ainda vou tendo emprego. Penso que era a altura de cantar o Firmeza", justificou.
Ao contrário da primeira mulher que entrou no Pátio da Galé, que foi levada por elementos de segurança, Ana Maria saiu pacificamente do recinto onde decorreu a sessão solene do 5 de Outubro, no final da sessão.
Polícia e barreiras para manter o povo fora das comemorações
Entretanto, no exterior, na Praça do Comércio, o número de populares foi aumentando, apesar de ser difícil distinguir entre os que estão pelas cerimónias e os turistas. Ainda assim, não houve registo de manifestações ou distúrbios. Algumas pessoas com quem a Lusa falou disseram estar desiludidas pelo facto de as cerimónias deste ano terem decorrido no pátio da galé e não na Praça do Município como habitualmente. "Isto é uma vergonha porque não é uma cerimónia privada. Parece que vivemos outra vez numa ditadura quando hoje é o dia da República" disse Justino Serrão, de 59 anos, ex-militar de Abril. Entre os populares na praça do comércio algumas pessoas queixavam-se de os políticos se esqueceram deles.
No final da cerimónia, a deputada socialista Maria de Belém resolveu vir interpelar os populares, pedindo desculpa aos presentes por não ter vindo dar os bons dias, mas que estava com pressa para um compromisso. A atitude da deputada socialista fez, no entanto, com que algumas pessoas gritassem: "A culpa também é sua".
Passos falha comemorações do 5 de Outubro
O primeiro-ministro, bem como o ministro dos Negócios Estrangeiros estiveram ausentes das comemorações oficiais do dia da Implantação da República. Passos Coelho viajou para Bratislava, capital da Eslováquia, rumo ao encontro do grupo Amigos da Coesão, alegando que a sua presença em Bratislava era “indispensável”. Daí partiu para Malta, onde já se encontrava Paulo Portas, para participar na Cimeira 5+5, um evento que reúne cinco países do sul da Europa - Portugal, França, Itália, Espanha e Malta - e outros cinco da União do Magrebe árabe - Tunísia, Marrocos, Argélia, Líbia e Mauritânia. Passos Coelho fez-se representa pelo ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco.
O último feriado nacional para assinalar a República foi, aliás, pautado por várias novidades no que se refere às tradicionais comemorações oficiais e tradicionais, como a mudança de local dos discursos e a não abertura dos jardins do Palácio de Belém por questões de poupança.
Cavaco já não abre os portões ao povo
Desde que Cavaco Silva chegou à Presidência, em 2006, os jardins do Palácio de Belém sempre se abriram ao público neste dia, com o próprio chefe de Estado a marcar presença e dizer fazer questão de contactar directamente com as pessoas, que recebia com diversas actividades, como concertos e exposições.
Este ano, porém, os portões dos jardins de Belém ficarão fechados, de acordo com fonte da Presidência da República, por "razões de contenção de custos", tendo o Museu da Presidência decidido transferir as comemorações para o interior das muralhas da Cidadela de Cascais, que também é residência oficial do chefe de Estado e foi recuperada recentemente.
Da praça para um pátio fechado, sujeito a convite
As novidades deste 5 de Outubro não ficaram por aqui. Pela primeira vez desde a implantação da República, em 1910, o feriado de 5 de Outubro não foi assinalado no largo da Praça do Município, em frente à Câmara de Lisboa, onde o regime foi proclamado. As entidades oficiais só aí permaneceram o tempo necessário para o hastear da bandeira na varanda dos Paços do Concelho. Os discursos da cerimónia, a cargo do presidente da Câmara, António Costa, e do Presidente da República, Cavaco Silva, foram proferidos no interior do Pátio da Galé, a poucos metros dali, um espaço confinado, praticamente reservado a convidados e a que muito poucos tiveram acesso. A inovação teve um forte impacto negativo, especialmente num momento de generalizado descontentamento popular e quando crescem as críticas à legitimidade e representatividade dos políticos, acusados de se terem alienado do país.
O ex-presidente da República, Mário Soares, foi uma das vozes que mais criticou a mudança e Cavaco Silva, recusando estar presente, em sinal de protesto. “Não vou ao 5 de Outubro porque acho indecente a recusa de um Presidente da República de ir a um sítio histórico. Não faz sentido deslocar as comemorações para um sítio escondido por medo de se ser apupado”, disse ao Expresso, acrescentando: “Parece que se vive numa espécie de clandestinidade.” “A tradição é comemorar o 5 de Outubro na Praça do Município. Metem-se num pátio para fugir.”, rematou.
Fonte oficial da Presidência, questionada pela Lusa sobre se esta mudança se deveu a um pedido de Cavaco Silva, como ontem foi noticiado por alguns meios de comunicação social, negou essa informação e remeteu qualquer esclarecimento para António Costa, por caber à autarquia organizar a cerimónia. O presidente da Câmara de Lisboa justificou a alteração, na quarta-feira, com razões de custos, dizendo que "sai mais caro" organizar as comemorações em espaço aberto, devido à "infraestrutura que se tem de montar", e negando que o receio de manifestações e novos protestos sociais estivesse na origem da mudança.
[ACTUALIZAÇÃO]
Incidentes em frente ao Parlamento
Leio no Expresso:
Algumas centenas de pessoas estão concentradas desde as 17h de hoje frente à Assembleia da República, na iniciativa "Invasão da Assembleia da República" convocada através do Facebook, para protestar contras medidas de austeridade governamentais.
Pelas 19h50, os manifestantes derrubaram as grades que impedem o acesso à escadaria frente ao Parlamento, levando à chegada de um reforço policial do Corpo de Intervenção da PSP. Já foram lançados alguns petardos por manifestantes, ouvindo-se palavras de ordem como "o povo unido jamais será vencido" ou incitamentos aos polícias para se juntarem ao protesto. Os manifestantes são predominantemente jovens e alguns apresentam-se mascarados. A concentração iniciou-se no Rossio donde umas poucas dezenas de pessoas partiram para o Parlamento por volta das 16h.
# Galeria de Fotos | 05 de Outubro: AQUI.

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