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Passos Coelho vai à Europa dizer que «estamos muito confortáveis» com o plano de austeridade

Posted: 19 de out. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , ,


Passos Coelho foi à reunião do Conselho Europeu. Mais valia que se tivesse feito representar e nem lá tivesse posto os pés. A sua presença não serviu para aproximar Portugal de quem interessava. Não fortaleceu a aliança com países que se debatem com os mesmos dramas, como a Grécia, a Espanha e a Itália. Pelo contrário, serviu para Portugal vincar a sua demarcação das demandas e estratégias que estes tentam consolidar para fazerem frente às posições dominantes, responsáveis pela aniquilação dos seus povos, das suas democracias e das suas economias.
Além de legitimar o programa de austeridade em curso e de aceitar a inevitabilidade do País ter «menos liberdade do que os outros», o primeiro-ministro tornou a defender que não pretende aliviar a carga de esforço, que não tenciona pedir «nem mais tempo, nem mais dinheiro» e desvalorizou em absoluto as recentes conclusões do FMI sobre o efeito nocivo dos excessos da fórmula.

No momento em que François Hollande dá um passo em frente, faz o que tantos esperavam e sai em defesa dos países em apuro financeiro (aqui e aqui), Passos Coelho desaproveita a mão solidária que se estende e critica-lhe a iniciativa. Imagine-se!... Foi à Europa sublinhar a submissão ao carrasco e insurgir-se contra o defensor.
Enquanto Samaras e Rajoy aproveitaram a ocasião para relatar os dramas sociais que a receita da Europa está a espalhar na Grécia e em Espanha, Passos Coelho foi e veio sem uma única palavra sobre o desespero dos portugueses que se levantou nas ruas e ainda há dois dias lhe apedrejou os portões, em São Bento. «Eu não trouxe à colação a execução do programa português», confirmou aos jornalistas, orgulhoso por prescindir de o discutir. Mais: enquanto Samaras e Rajoy, secundados por Hollande e Monti, questionaram a austeridade, Passos Coelho foi defendê-la, chegando ao ponto de afirmar: «Estamos muito confortáveis com as decisões tomadas a nível europeu sobre o programa português».

Fica tudo dito, no que respeita à esperança que Portugal possa ter numa solução europeia dos problemas, quando os seus interesses se fazem representar por um primeiro-ministro que pensa e age deste modo. A passagem de Passos Coelho por esta reunião do Conselho Europeu expõe a sua clara incapacidade para interpretar a mensagem (ainda mais clara!) que o povo lhe grita insistentemente nas ruas desde dia 15 de Setembro. Cá dentro, - em protestos de milhares, vindos de todos os quadrantes (incluindo do seu próprio partido) - os portugueses berram «Basta!». Passos Coelho vai lá fora e o eco que deixa do sentimento nacional é: «estamos muito confortáveis».


As entropias de compreensão do primeiro-ministro português não se limitam, porém, à realidade interna. Chega a ser aflitivo que não entenda que a regra do "quem não está comigo, está contra mim" não se aplica apenas às aspirações alemãs. Cada elogio que faz às políticas de austeridade, são um ataque declarado às que se lhe opõem. Sustentando a receita de Merkel, especialmente sendo Portugal uma das cobaias no tubo de ensaio, retira argumentos aos que lutam para a reverter.

Mais valia, sim, que o primeiro-ministro nem tivesse posto os pés nesta reunião e continuasse a comportar-se como tem feito: à margem do palco europeu. Em vez disso, abriu uma excepção para ir repetir lá fora a mesma lógica desastrosa que tem encetado cá dentro. Foi à Europa abrir fossos, recusar parcerias, voltar costas ao diálogo, declinar outras soluções e alternativas. Ou seja, cavar ainda mais o isolamento do país.
Passos Coelho foi ao Conselho Europeu. Saldo da sua participação? Carta branca à Alemanha para continuar a ditar a austera destruição de Portugal e cartão vermelho para todos os que a contrariem. Mais grave e, seguramente, com consequências nefastas num futuro próximo: os que tentam outros caminhos para a Europa tiveram, mais uma vez, oportunidade para confirmar duas evidências. Primeiro: que Portugal não está interessado. Segundo, que não vale a pena contar com ele.
Não será de estranhar que se preocupem cada vez menos com a situação do país de Passos Coelho (que, afinal de contas, está como se quer) e se concentrem na dos restantes países.
No tabuleiro europeu, qualquer dia destes e não faltará muito, Portugal será para a França, Itália, Espanha, Grécia, Irlanda, Bélgica, Chipre, um adversário idêntico à Alemanha, apenas mais fraco, mais pobre e mais patético.

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