Em entrevista ao jornal espanhol Expansión, o Presidente da República reconhece a contestação popular crescente nas ruas portuguesas e afirma que "os políticos não podem ignorar a voz do povo". Embora se escuse a comentá-las, Cavaco Silva considera que as medidas de austeridade aprovadas em Portugal têm "obviamente" um "efeito recessivo" e as que as expectativas dos empresários "não são muito positivas".
E comenta o Henrique Monteiro:
No discurso do 5 de Outubro, escondido da populaça, o Presidente da República optou por falar de um tema importante, mas que nada tinha a ver com a delicada situação em que vivemos. (...) Eis senão quando, numa entrevista ao jornal económico 'Expansión', o mesmo Cavaco Silva revela o seu pensamento sobre a atual crise: entre outras coisas acertadas, disse que se tem de ouvir o povo; que a política fiscal vai ter um efeito recessivo e que os empresários não têm expectativas positivas.
Ou seja, o que podia ter dito numa cerimónia oficial do Estado português, reservou para o dizer numa entrevista a um jornal estrangeiro. É curioso. Mais do que curioso, é feio.
Vale conferir: o discurso do presidente na cerimónia do 5 de Outubro [vídeo e texto: AQUI] e a sinopse da entrevista ao Expansión, via agência Lusa, para ler clicando no link em baixo.
Cavaco Silva adverte para "efeito recessivo" da austeridade e fracas expectativas dos empresários
Na entrevista publicada na edição de hoje do jornal económico mais lido em Espanha, Cavaco Silva é questionado sobre a situação económica em Portugal, reconhece a contestação nas ruas e afirma que "os políticos não podem ignorar a voz do povo". O chefe de Estado português considera ainda que a União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE) "tendem a reagir tarde", defende um papel mais interventivo do banco central na compra de dívida soberana e considera que a chanceler alemã Angela Merkel deveria ser "mais consistente" na defesa da moeda única.
Cavaco Silva escusa-se a avaliar as últimas medidas anunciadas pelo Governo português, remetendo mais explicações para o ministro das Finanças, mas recorda que a última avaliação da troika confirmou que "Portugal teria dificuldade em cumprir os objectivos de redução de défice orçamental como resultado da alteração da conjuntura internacional".
Questionado sobre se as medidas de austeridade agravam a recessão, o Presidente da República é lacónico: "obviamente, já que são medidas com efeito recessivo que afectam o rendimento dos cidadãos e, como tal, o consumo".
"E as expectativas dos empresários não são muito positivas", acrescenta.
Apesar disso, Cavaco Silva destaca, entre os dados positivos, as melhorias verificadas no saldo da balança comercial e a "consolidação orçamental", apontando como um dos factores negativos "um forte aumento do desemprego, sobretudo entre os jovens, onde atinge os 35%".
"Dentro de todo este processo tão duro, devo reconhecer o grande sentido de responsabilidade do povo português", afirma.
Questionado sobre o que diria aos portugueses que têm manifestado a sua voz crítica das políticas do Governo, Cavaco Silva afirma que "Portugal é uma democracia e as manifestações podem fazer-se se cumprem a lei. Os políticos não podem ignorar a voz do povo".
"Efectivamente, em Portugal, tem havido fortes manifestações nas ruas, mas sem nenhuma violência. O povo português está a demonstrar um grande sentido cívico. E neste contexto eu sempre recordo uma ideia chave: a justiça e a equidade na partilha dos sacrifícios. Muitos cidadãos acreditam que não é assim e, de facto, o Governo reverteu algumas das medidas inicialmente apresentadas pela troika", sublinha.
O chefe de Estado cita como exemplo o recuo na TSU, medida "muito mal recebida", algo que "o Governo teve a humildade de o reconhecer".
Sobre a política europeia, Cavaco Silva considerou que "as instituições europeias, incluindo o BCE, têm uma tendência a chegar tarde", considerando que o BCE "deveria ter disponibilidade para comprar de forma ilimitada dívida soberana no mercado secundário".
"Isso, claro, a troco de que os países apoiados conduzam políticas que levem à estabilidade das finanças públicas", afirmou.
"Mas, sobretudo, a missão do BCE deve ser de garantir a irreversibilidade do euro. Dito isto, é um absurdo que alguns países se financiem a taxas negativas e outros paguem acima de 6 por cento", considerou, sublinhando que o atraso na actuação alimentou a especulação.
Questionado sobre a "atitude" de Angela Merkel, Cavaco Silva afirma que há que reconhecer "que os egoísmos nacionais cresceram muito nos últimos anos e a solidariedade desceu".
Ainda que acredite que Merkel "tem uma vontade firme de combater a crise do euro", Cavaco Silva admite que "gostaria que Merkel fosse mais consistente na sua defesa".
"Talvez tenhamos que compreender os seus problemas políticos internos", disse.
Sobre a situação em Espanha e especialmente sobre o movimento independentista na Catalunha, Cavaco Silva considera que "Portugal é um Estado-nação quase perfeito, com a mesma língua, sem diferenças culturais significativas" pelo que seria difícil "compreender qualquer desmembramento de um Estado europeu".
No entanto deixa algumas referências ao modelo de Estado espanhol, nomeadamente ás diferenças entre as comunidades autónomas no que toca a negócios.
"Alguns empresários portugueses informaram-me que as normas que têm que cumprir numa comunidade autónoma são diferentes das demais. Se é assim não existe um verdadeiro mercado interno", disse.
Sobre a situação económica, Cavaco Silva considerou que o Governo espanhol "foi muito valente" na aplicação das reformas económicas e recordou que Espanha é um "parceiro comercial insubstituível".
via Agência Lusa
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