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Será mesmo Merkel a única amiga que ainda resta?

Posted: 20 de out. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , ,

imagem via We Have Kaos In The Garden
Passos Coelho pensa que lucra com o servilismo a Merkel. Ontem somou mais uma prova de que está equivocado. Enquanto dava uma conferência de imprensa e proclamava, ufano, o quanto Portugal beneficiaria com as novas regras para a recapitalização dos seus bancos, na sala ao lado, Merkel anunciava o contrário: não só «não haverá qualquer recapitalização», como esta não será «retroactiva». A ideia estava apalavrada desde a cimeira de Junho e, em especial as economias em dificuldades, contavam que esta reunião do Conselho Europeu servisse para decretar a sua entrada em vigor. Nada feito. Merkel venceu novamente o braço de ferro e conseguiu adiá-la para as calendas gregas. Esteve-se nas tintas para o que convinha a Portugal, tanto como a Espanha e outros.

Merkel não é, nunca foi e jamais será amiga de Passos Coelho. Portugal serve-a e Passos Coelho dá-lhe jeito. Mesmo que, por cá, os números derrapem e os resultados sejam desastrosos, o programa que defende é executado sem contestação. É isso que lhe importa, sobretudo em véspera de eleições na Alemanha. Interessa-lhe uma demonstração de poder, um exemplo vivo de que a sua voz fala forte e domina o tabuleiro da Europa. Para Merkel, nesta altura do campeonato, mais do que pouco relevante, o sucesso do programa é relativo. Depende acima de tudo da perspectiva a partir da qual se avaliam os seus ganhos. Está a esfacelar a economia portuguesa? Está, é um facto. Mas isso é encará-lo do ponto de vista dos interesses próprios. Visto, como certamente tencionará exibi-lo durante a campanha, pelo prisma do que à Alemanha diz respeito, o facto que sobressai é outro bem diferente. A começar, por exemplo, pela vantagem de já ter permitido resgatar a maior parte do capital em risco que trazia os bancos alemães expostos à dívida soberana portuguesa.

Pelo meio sucede ainda que Portugal "acordou". Passos esbarrou nesse despertar quando tentou impor mudanças na aplicação da TSU. O povo rejeitou e ele não conseguiu impô-la. Com a contestação tornada uma constante, incompatibilizado com tudo e todos (presidente da República, partidos de base da coligação, oposição, sindicatos, cidadãos), outras medidas se seguirão que não conseguirá fazer passar. Terá nessa altura a derradeira prova do seu equívoco em relação à força da amizade de Merkel. O laço há-de diluir-se na exacta proporção em que a autoridade da sua acção governativa se esfumar. Quando Passos deixar de servir, será indiferente a Merkel que um dia lhe tenha dado jeito.

Nessa altura, bem pode bater-lhe à porta e tentar reclamar os dividendos por ter sido «um bom aluno». O mais provável é que Merkel lhe responda nos moldes de Durão Barroso, 'sacudindo a água do capote', dizendo que não tem nada a ver com o assunto, lembrando-lhe que a responsabilidade pelas políticas dos países é sempre dos respectivos governos. Em suma, que deu as ordens, mas foi Passos quem escolheu cumpri-las.

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