Jornal Gazeta - 24.10.2012
Bob Fernandes volta a insistir na denúncia do drama dos índios Guarani Kaiowá.
Transcrição integral, clicando no link em baixo.
Na segunda-feira falamos aqui sobre a tragédia dos indios Kaiowá e Guarani no Mato Grosso do Sul. No período entre 1986 e 1999, ano em que estive na região de Dourados, 308 índios se suicidaram. Mais de 90% deles, com idades variando entre 12 e 28 anos, se enforcaram.
Relatório da SESAI, Secretaria do Ministério da Saúde, traz dados oficiais: do ano 2000 até 2011, outros 555 Kaiowá/Guarany se suicidaram. No total, 863. Neste 2012, pelos menos outros 30 suicídios já ocorreram. Os motivos para essa tragédia são muitos. Pesquisadores concordam em alguns pontos.
Uma das ações que define o modo de vida Kaiowá/Guarani é o "Tekoha". "Teko" significa "jeito de ser". "ha" quer dizer "lugar". Eles têm sido abrutalhados, forçados a se misturar com outras etnias e raças. Tem sido cercados e mortos por pistoleiros a serviço de fazendeiros.
Expulsos de suas terras, os índios lutam pelo "Tekoha". Ou seja, o que os Kaiowá e Guarani querem é o "lugar onde viveram desde sempre". Estas são algumas das razões para as centenas de suicídios ao longo das três últimas décadas.
Há duas semanas, em Carta-Testamento, os Kaiowá Guarani rogaram: "Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é nosso pedido aos juízes federais".
No Mato Grosso do Sul o que se tem, há décadas, são os atos, os fatos, e a impunidade. Com a repercussão, reações do governo federal. A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, disse em seu twitter: "Estamos buscando um diálogo que preserve vida e dignidade dos kaiowá. As decisões judiciais sobre as terras têm dificultado ainda mais". Disse ainda a ministra: "Nossas equipes de Direitos Humanos e a Força Nacional estão junto aos Guarani-kaiowá. Estamos atentos, preocupados sim, mas com encaminhamentos". A conferir.
O Conselho Indigenista Missionário lançou uma nota hoje. Aos mal informados, ou mal intencionados, o CIMI esclarece: "Os índios não cometem nem falam em suicídio coletivo. Falam em morte coletiva no contexto da luta pela terra. Ou seja (diz o CIMI em sua nota) se a Justiça e pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, eles estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-la. Vivos eles não sairão do chão dos antepassados".
Nos últimos anos, 12 líderes indígenas foram assassinados por pistoleiros no Mato Grosso do Sul. Esse é o cenário da tragédia vivida pelos 43 mil sobreviventes dos povos Kaiowá e Guarani. Estes são alguns dos mais graves motivos para os suicídios chamados de "sansônicos". O que, traduzindo, quer dizer "suicídios de protesto".




















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