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A propósito das eleições nos EUA: algumas notas sobre Obama e a Europa

Posted: 6 de nov. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: ,


O contraste é gritante. Enquanto a comunicação social europeia analisa ansiosamente a mínima variação nas sondagens sobre a eleição presidencial norte-americana e seguiu minuto a minuto a meteorologia em Nova Iorque, no último debate entre Barack Obama e Mitt Romney a palavra Europa foi pronunciada uma única vez. Os observadores europeus concluíram que a Europa já não tem peso no mundo. É também um sinal de que os Estados Unidos abandonaram uma visão global para se concentrarem naquilo que consideram ser os seus interesses: a economia e o emprego, as relações com a China ou o seu sistema de proteção social.
É sabido que Barack Obama simboliza uma viragem, a de uma América que já não sente afinidades com o Velho Continente. (...) Barack Obama, que geriu as relações transatlânticas por videoconferência, soube estar ao lado dos britânicos e dos franceses durante a intervenção na Líbia, fornecendo o equipamento militar que lhes fazia falta e evitando-lhes, assim, um isolamento humilhante. Mas deixou os europeus quase sozinhos nas negociações sobre as alterações climáticas e contribuiu para fazer perder ao planeta alguns anos preciosos.
Para a Europa, o “Yes, we can” do candidato que, em 2008, juntou milhões de pessoas cheias de esperança, em Berlim, traduziu-se num período de transição sem brilho. Mas os europeus continuam a “votar” Obama. Para um continente pós-histórico, são preferíveis as relações tranquilas do que a ruidosa desordem “bushiana” ou o conservadorismo tão pouco compreensível de Mitt Romney.

via Presseurop (02.11.2012)
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Uma sondagem da Pew [grupo independente de estudos de opinião] publicada em julho de 2008, antes das eleições, revelava que Obama era mais popular na Europa do que em qualquer outro continente, incluindo a América do Norte.
Porque será que os europeus gostam tanto de Obama, se ele lhes deu tão pouco? Muitas das razões iniciais do apoio que lhe prestam ainda se mantêm. Obama continua a não ser George Bush, embora seja discutível por quanto tempo mais esse critério pela negativa se manterá válido. Os europeus não gostam só mais de Obama do que os americanos. Gostam mais dele do que daqueles que eles próprios elegeram. Uma das razões pelas quais Obama é tão popular na Europa reside, em parte, no facto de ele ter surgido num momento em que vários dirigentes políticos europeus se encontravam numa situação especialmente crítica.
(...) Obama é um homem perspicaz, carismático, com boa imagem televisiva e ainda não maculado por escândalos, que representa a perspetiva de triunfo uma forma popular de política eleitoral, liderada por cidadãos inteligentes e preocupados com o bem-estar das pessoas, por oposição a oportunistas, narcisistas e corruptos. É como se a sua capacidade comprovada de enunciar a origem e a dimensão dos problemas tivesse feito com que algumas pessoas não reparassem na sua incapacidade de encontrar uma solução para esses mesmos problemas.
Mas, num certo sentido, a atração anormal da Europa por Obama sempre refletiu tanto os pontos fortes dessa mesma Europa como os seus pontos fracos.(...) As atitudes dos europeus perante Obama dizem-nos mais sobre a Europa do que sobre o Presidente dos EUA. E aquilo que estas dizem sobre uma e o outro não é especialmente notável.

via The Guardian (24.05.2011)
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No início da campanha presidencial, eram os Republicanos que utilizavam a Europa para assustar os eleitores e atingir Obama […]. Agora, os papéis inverteram-se e os Democratas acusam os adversários de “ser como os europeus”, porque os Republicanos propõem a mesma austeridade teutónica que condena a zona euro à recessão e ao desemprego.

via La Stampa (06.06.2012)
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Obama é a favor ou contra a Europa? Não foi ele que se autoproclamou o "primeiro Presidente originário do Pacífico", marcando assim uma viragem no diálogo transatlântico? Que fará no seu segundo mandato? Voltará a reservar à Ásia a sua primeira visita ao estrangeiro, relegando a Europa para segundo plano?
É verdade que Obama começou por colocar o Pacífico à frente da Europa. Mas percebeu quase de imediato que os grandes problemas geopolíticos, da estabilidade da bacia do Mediterrâneo às dificuldades económicas, se jogam na outra margem do Atlântico, a margem onde se situam as raízes étnicas, ideológicas e culturais da América. E o Presidente mudou rapidamente de tom.
(...) Os investimentos diretos dos Estados Unidos na Europa e vice-versa são muito superiores aos da China e do Japão reunidos; as trocas comerciais aumentaram 14%, atingindo os 636 mil milhões de dólares [cerca de €500 mil milhões] em 2011, a economia dos dois blocos transatlânticos gera um volume de negócios de cinco biliões de dólares e dá emprego a 15 milhões de pessoas; a investigação e desenvolvimento dos dois blocos representa 65% do setor, a nível mundial. A economia transatlântica é também 54% da produção mundial e 40% do poder de compra; se metade das barreiras comerciais fossem suprimidas, as trocas poderiam aumentar 200 mil milhões de dólares. Sem falar na solidariedade do Tratado do Atlântico Norte [NATO], uma das maiores alianças da História.

via Il Sole 24 Ore (05.11.2012)
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Barack Obama tomou a iniciativa, em final de 2009, de criar um mini-grupo de contacto que envolve os dirigentes europeus que considera susceptíveis de contribuírem para a resolução dos problemas que enfrenta. Os diplomatas chamam-lhe "Quadrilateral de Chefes de Estado" porque integra quatro países:  Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha. Por meio de um ecrã, esta "quadrilateral" reúne, em princípio, uma vez por mês para tratar de um largo espectro de processos difíceis, como o Irão, o Afeganistão, o Médio Oriente, o G-20 ou a regulação financeira. 
Obama cresceu no Havai e na Indonésia. O pai, queniano, pertencia à elite africana dos anos 1960 que pretendia emancipar o Sul dos restos decrépitos dos velhos impérios. O avô trabalhava como "boy" em casa de colonos britânicos. Em Harvard, o estudante Obama interessava-se pelo Terceiro Mundo. Na visão global do Presidente norte-americano, há pouca Europa afectiva.
(...) Obama considera que, num mundo em flutuação, a plataforma de valores partilhados com a Europa não necessita de ser permanentemente reforçada. A sua relação com o Velho Continente passa por uma falta de afinidades pessoais, decepção em relação ao empenho europeu no Afeganistão e exercício constante de consolidação, quando a sua Administração se vê a braços com críticas. Prefere delegá-la em Joe Biden, o vice-presidente, ou Hillary Clinton, a secretária de Estado para os Negócios Estrangeiros. Obama gosta de tratar sobretudo com a Rússia, passando por cima da cabeça dos europeus.
A Europa sente-se desconsiderada, mas constitui um ponto de apoio para os Estados Unidos em relação aos grandes desafios. É com ela que Obama conta para reunir países voluntários para efectuarem sanções autónomas contra o Irão. A Europa e os Estados Unidos representam 54% do PIB mundial, contra 16% do grupo dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), heterogéneo e dividido.
Após os resultados pouco impressionantes saídos do Tratado de Lisboa, Obama concluiu manifestamente que apenas os grandes Estados europeus estavam em condições de pesar nas questões que lhe importam. A discrição da "quadrilateral" entende-se: não faz grande caso das novas instituições europeias e pode ser vista como a encarnação daquele Ocidente de que Barack Obama gosta de se demarcar para ter mais audiência no resto do mundo. 

via Le Monde (Maio de 2010)
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No El País:

La influencia de EE UU en el mundo por razones políticas, económicas o militares convierte la elección presidencial en un foco de atención al que pocos países pueden escapar. Si la población mundial mira con curiosidad y atención la decisión de los estadounidenses, con mayor motivo los Estados esperan conocer el nombre del vencedor de próximo martes. Sus decisiones políticas, económicas y estratégicas dependerán de si Obama continúa en la Casa Blanca o, por el contrario, es Romney quien sucede al demócrata en el cargo.
En la última semana anterior a los comicios, los corresponsales de El País explicará a los lectores la visión - deseos, expectativas y previsiones - de los Gobiernos y ciudadanos de los países en los que desarrollan su labor profesional frente a unas elecciones que determinarán las relaciones internacionales en los próximos cuatro años.



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