| Durão Barroso, hoje em Bruxelas. foto: Vincent Kessler |
Vale a pena ver este vídeo e o que se segue, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma, pelo o tom e os modos de Durão.
Incapaz de domar a Alemanha e segurar, como lhe competiria, as rédeas da Europa, Barroso antecipa as dores de cabeça que se avizinham, caso Portugal inverta a obediência e exija renegociar o pagamento da dívida. É certo que fez as malas, se instalou na Comissão Europeia e voltou costas a Portugal, onde tem pugnado por passar pelos intervalos da chuva, apostado em fingir que não é português e nada tem a ver com a ruína nacional. De Bruxelas, tem-se desdobrado em moralismos e críticas à governação portuguesa, omitindo o facto de ter - ele próprio - sido primeiro-ministro, com amplas responsabilidades no descalabro.
Acontece que, mesmo fazendo ouvidos moucos ao que se passa cá dentro, nunca faltaram bons informadores ao presidente da CE. Neste momento, Barroso sabe bem que o descontentamento deixou de vir apenas da esquerda. Alastrou ao centro e à direita. Tomou, aliás, conta das vozes dominantes do seu partido. Barroso não ignora que os ataques mais duros à política de austeridade que tem defendido na Europa provêm (pasme-se!) de sociais-democratas históricos e considerados. Mais do que não gostar, tem medo do que está a suceder. Vê crescer a frente de contestação nacional, num uníssono que todos une, e está às portas do pânico. Se todas essas vozes concordantes ganharem espessura, na opção pela renegociação dos termos de pagamento da dívida, está metido numa camisa de sete varas. Como vai ele dobrar a Srª Merkel sem por a nu que, apesar de ocupar o cargo, é ela quem de facto dita as regras? Antecipando os apertos de uma bota que não sabe como haverá de descalçar, Barroso arma-se em 'durão' e parte para as ameaças, na esperança de assustar e, com isso, estraçalhar o acordo nacional que se começou a formar em torno da necessidade imperiosa de rever o acordo com a troika.
A mensagem de Durão Barroso é básica e resume-se numa linha: já fui amiguinho, dei-vos mais um ano, portanto retribuam o favor não me criando problemas que dispenso. O interessante aqui não é tanto o teor das suas palavras (infelizmente, previsível e em linha com a cobardia da semana passada), mas os modos em que são proferidas.
É a imagem descontrolada de um Barroso subitamente descomposto dentro dos colarinhos, avermelhado pela irritação, empinado no timbre e a hiper-ventilar no púlpito. Barroso pensa que ruge ameaças e impõe respeito, mas apenas transparece um vergado apelo à clemência dos povos perante a sua própria incompetência. Crente que reprime a insurreição, mais não faz que confessar impotência.
Aquilo que verdadeiramente dá que pensar é o carácter que assim fica exposto. É o perfil e a vértebra de quem preside a esta Europa. Quem opta pela chantagem é incapaz de negociar o que quer que seja de boa fé. Quem parte para a ameaça desconhece o valor da conciliação. Quem divide para reinar nunca terá condições para suster o que se está a esboroar. Nunca a união da Europa correu tanto perigo como agora, entregue às mãos de uma liderança com semelhante verve.




















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