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O amazonense ‘A floresta de Jonathas’ encerrou a mostra competitiva do Festival do Rio

Posted: 9 de out. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , ,


O manauara Sérgio Andrade tem-se dedicado a difundir a história da Amazônia em produções nacionais e internacionais para o cinema, seja em documentários, seja em curtas ou longas. No seu primeiro filme, "A floresta de Jonathas", o realizador inspirou-se numa história real, misturou as culturas indígena e ucraniana e tentou fugir dos esteriótipos e clichês, geralmente associados à região. A estreia da produção, que encerra a mostra competitiva de longas de ficção da Première Brasil, aconteceu esta segunda-feira, às 21h30m, no cinema Odeon. Antes, porém, Sérgio Andrade falou sobre as dificuldades e facilidades que um filme amazonense enfrenta para penetrar o circuito em que Rio e São Paulo predominam.

[ENTREVISTA A SÉRGIO ANDRADE]

Qual a importância de ter seu filme em uma mostra do Festival do Rio? E qual a importância de tê-lo na competição?
O filme representa um grande passo na descentralização cultural de nosso cinema, pois foi o primeiro projeto do norte do Brasil a ganhar o edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura, mas principalmente porque ele traz uma abordagem diferente da Amazônia, sem os estereótipos costumeiros. Se não estão falhas as minhas pesquisas é o primeiro filme genuinamente amazonense a competir no Rio, um festival decisivo para a carreira de um longa no Brasil e no exterior.

Tem alguma curiosidade de gravação que você gostaria de dividir com os leitores?
Impressionante como tudo correu da forma planejada, sem sobressaltos e nem problemas, todos os recursos foram disponibilizados e aproveitados a contento; filmar na floresta foi um prazer, a fauna e a flora só cooperaram. Cito apenas um episódio engraçado, mas bastante amedrontador, quando um ataque de um enxame de cabas (tipo de vespa feroz da Amazônia) atacou somente a mim e ao diretor de fotografia, Yure Cesar, nos deixando meio moles e febris por uns dois dias.

O filme se passa no Amazonas, mas tem uma personagem ucraniana e um indígena. Como foi unir todos esses perfis na tela?
O filme tem vários indígenas, e desde o meu curta "Cachoeira" tenho muitas alegrias em trabalhar com eles, são disciplinados e criativos. Mas ali o indígena entra sem nenhum estereótipo e nem exotismo. O público brasileiro não está acostumado com nosso sotaque e expressões, mas conseguimos fazer disso um ponto de interesse. Os atores Begê Muniz (Jonathas), Francisco Mendes (Pai) e Ítalo Castro (Juliano) Socorro Papoula (Mãe) estão centrados nessa particularidade de serem naturalmente locais. O roteiro do filme exigia uma personagem estrangeira, Milly, não quiz uma atriz brasileira fazendo o papel, fui atrás de uma solução apostando em alguém desconhecido mas que tivesse feito pelo menos um curta, encontrei a ucraniana Viktoria Vinya rska em curta que esteve no Festival de Sundance. Eu fiz o contato e tudo deu certo. Ela nunca estivera no Brasil e foi direto para a floresta, uma situação igual ao a do personagem. O elenco ainda conta com a participação especial de Chico Diaz no papel de um vizinho da família de Jonathas. experiência única, que conferiu uma verdade boa ao personagem.

A história de Jonathas é inspirada em quem?
"A floresta de Jonathas" se interessa pelo cotidiano, o linguajar e o semblante do "homem do norte", tão pouco visto e abordado no cinema brasileiro. A princípio quisemos nos basear na história real de Jonathan, um jovem de 18 anos que viveu em área rural do Amazonas e, de repente, de forma quase inexplicável, sumiu completamente na floresta, mas a ficção acabou fazendo com que o longa se tornasse muito diferente da história real e tão somente uma homenagem a Jonathan, que passa a se chamar Jonathas. A terrível história real de Jonathan me impressionou muito como leitor, mas ‘A Floresta de Jonathas’, no entanto, não é um filme sobre um rapaz perdido, e sim um longa sobre o 'não pertencer', sobre 'estar isolado'.

Foi difícil inserir um filme feito no Amazonas para o eixo Rio-São Paulo? Você acha que é mais difícil produzir cinema fora dessas duas regiões?
Não vi dificuldade por ser de outra região. Acho que isso - se o filme é bom e bem produzido - inclusive abre portas. A produção de "A floresta de Jonathas" não teve grandes dificuldades filmamos próximo a cidade e com uma equipe 95% local, trouxemos pessoal de outros estados apenas nas funções em que não temos muitos profissionais em Manaus: assistência de direção, som, preparação de elenco. O filme tem a fotografia magistral do Yure Cesar, um paulista-amazonense que vive em Manaus há bastante tempo; e foi montado por Fábio Baldo, um paulista querendo ser amazonense, que soube tão bem traduzir uma Amazônia inusitada.

O realizador Sérgio Andrade entre os actores Begê Muniz e Viktotia Vinyarska

Première Brasil: Sopro de realismo à moda amazônica

Ainda atordoada sob os efeitos estroboscópicos de "Uma história de amor e fúria", a Première Brasil 2012 recebeu de presente da Amazônia seu último concorrente ao troféu Redentor de melhor longa-metragem de ficção: "A floresta de Jonathas". É incomum a participação da Região Norte em grandes festivais do Sudeste fora da seara dos curtas ou de DocTVs, sobretudo com projetos que descartam o exotismo como moeda de troca para arrebatar olhares rasos. Mas Sérgio Andrade, realizador conhecido por curtas como "Cachoeira", agiu com a verve do inconformismo e preferiu trazer ao Rio um drama que mais parece cinema iraniano, com seus silêncios e suas andanças.
Foi um fecho digno para uma competição que recebeu obras da virulência de "Éden", de Bruno Safadi, ou "Meu pé de laranja lima", de Marcos Bernstein, capazes de subverter os perfis de seus realizadores, sem esquecer exercícios de gênero como "O gorila", de José Eduardo Belmonte, com sua estranheza lynchiana. Mas Andrade trouxe uma fruta de paladar adstringente, deixando na boca a cica do realismo no retrato para um mundo verde, sempre retratado com folclore ou com misticismo. Este último ingrediente até se esboça, num banho de purê de abacate regado a sincretismo da selva. Mas é uma parcela ínfima do filme, que se impõe à força da fotografia de Yure César e da montagem de Fábio Baldo - esta talvez seja a mais engenhosa da Première em seus intentos de estimular a reflexão e evitar sensos mastigados e ruminados.


Rodado com o Prêmio de Baixo Orçamento do MinC, de cerca de R$ 1 milhão, "A floresta de Jonathas" constrói uma metáfora para o isolamento cultural e existencial de um estado. Num determinado momento, um dos personagens diz: "As pessoas só lembram que a gente faz parte do Brasil quando é época de eleição". Até esse diálogo chegar, somos aclimatados a um mundo caboclo de jovens que ensaiam passinhos de um break pós-moderno, meio funk meio hip-hop, enquanto ensacam frutas tropicais. É nesse contexto que o jovem Jonathas (Begê Muniz) estabelece uma convivência com uma gringa, Milly, interpretada pela ucraniana radicada nos EUA Viktotia Vinyarska. O que poderia ser uma love story no meio da jungle opta por uma margem fluvial oposta: Jonathas é misteriosamente impelido a se embrenhar na mata para largar os vínculos sociais que tolhem sua individualidade. Mas, uma vez entre as árvores, a solidão do mundo ao redor - simbologia para a condição da cultura do estado em relação à pangeia brasilis - leva o jovem a uma jornada sufocante para longe de sua sanidade e de seu equilíbrio físico. E essa experiência sensorializa o relato de realidade esturricada trazida por Andrade lá de Manaus.
Os vencedores da Première Brasil serão conhecidos na quinta à noite, no Odeon.

publicado em O Globo


Sinopse
Jonathas vive com os pais e o irmão, Juliano, em um sítio na área rural do Amazonas. A família colhe e vende frutas regionais. Uma barraca de frutas na beira da estrada é o lugar de contato com novos amigos e as novidades do mundo. Juliano é farrista e relaxado enquanto Jonathas é mais centrado e sensível. Os irmãos conhecem Milly, uma visitante da Ucrânia, e o indígena Kedassere. O grupo decide então passar o fim de semana em um camping. Seduzido por Milly e pela Floresta, ele empreende uma jornada de descobertas e fatalidades, onde a emoção será seu único guia. 75 min. Não recomendado para menores de 12 anos.

Sessões
SEG (8/10) 19:45 Odeon Petrobras
TER (9/10) 13:30 Pavilhão do Festival
QUA (10/10) 14:00 Roxy 3
QUA (10/10) 19:00 Roxy 3
QUI (11/10) 14:00 Cinemark Botafogo 3
QUI (11/10) 19:00 Cinemark Botafogo 3

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