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"Deu chabu: o impeachment na cidade mais pobre do país"

Posted: 5 de mai. de 2016 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , 7 comentários

por Paula Scarpin

Em outubro de 2014, às vésperas do segundo turno das últimas eleições presidenciais, o agricultor Antonio Donato de Andrade comprou duas caixas de rojões. Como queria assistir sozinho à apuração dos votos, despachou toda a família para a casa da filha, Piedade, logo ao lado, e colou a cadeira de balanço em frente à pequena televisão. Confuso com a enxurrada de números e de comentários políticos, teve a confirmação da reeleição de Dilma Rousseff não pela Globo, mas pela gritaria na rua. Nem por um segundo lhe ocorreu que a comemoração pudesse se referir à vitória do oponente Aécio Neves. “Aqui em Belágua dá quase para contar nos dedos quem não vota em Dilma”, disse no mês passado, balançando-se na mesma cadeira da qual pulou há um ano e meio. “O seu Manuel do comercinho, por exemplo, não vota. Eu falo que quem sustenta ele é a bolsa do pobre, mas ele gosta de dar uma de rico.” Naquela noite de 2014, o lavrador só não estourou todo o estoque de rojões porque Piedade, segurando seu caçula de 3 meses aos berros, implorou para o pai interromper a comemoração.

No dia 17 de abril, o domingo em que a Câmara dos Deputados decidiria se iria abrir o processo de impeachment contra Dilma, Andrade repetiu o ritual do segundo turno. Colocou-se diante da tevê já às onze da manhã. “Só levanto depois do último voto. Se ela ficar, termino de queimar os rojões que tenho aqui”, avisou, apontando para a caixa em que guardava os foguetes remanescentes de 2014. Na sala acanhada, com piso rústico de cimento, havia apenas quatro cadeiras voltadas para um imensorack, que acentuava a pequenez da televisão. O único adorno era um pôster do papa Francisco. “Não frequento muito a igreja, mas gosto dele porque é colado com Lula e Dilma”, explicou o agricultor.

Localizada no norte do Maranhão, a minúscula Belágua ganhou notoriedade nacional em 2010, quando o último censo a apontou como o município mais pobre do país, com renda mensal per capita de 146,70 reais. No mesmo levantamento, Niterói (RJ), o mais rico, exibia renda per capita de 2 031,18 reais. Quatro anos depois, Belágua voltou à mídia, dessa vez porque o Tribunal Superior Eleitoral a indicou como a cidade brasileira que mais votou em Dilma – 92,3% dos eleitores no primeiro turno; 93,9% no segundo. A fidelidade dos munícipes ao governo federal fez Andrade acreditar que a presidente viria prestigiar o lugarejo perdido entre as duas principais atrações turísticas maranhenses: a capital, São Luís, e o Parque Nacional dos Lençóis. Só que Dilma jamais apareceu. “Queria mesmo era gastar o resto dos foguetes na visita dela, mas eu entendo, ela é muito ocupada…”, conformou-se o lavrador.

"Dilma, Exu e os índios: o Tempo"

Posted: 30 de abr. de 2016 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , 0 comentários

por José Ribamar Bessa Freire 

            "Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje”.                                                     (Oriki citado por Pierre Verger em "Orixás") 
  
Dilma não é Exu, mas com uma pedra que atirou hoje matou um pássaro em 2011. É que ela decidiu acelerar as demarcações das terras indígenas, o que já devia ter feito no seu primeiro mandato, quando foram criadas apenas 11 terras, a marca mais baixa de todos os governos desde a ditadura militar. Antes tarde do que nunca. No anúncio feito na cerimônia de instalação do Conselho Nacional de Política Indigenista, nesta quarta (27), o ministro da Justiça, Eugênio Aragão, reconheceu que as falhas nesse campo se devem às alianças construídas com o Congresso Nacional - atualmente desfeitas - que amarravam as mãos da presidente.
Dois dias depois, o pássaro morto ressuscitou? Dilma havia prometido homologar algumas áreas indígenas em cerimônia programada com os índios no Palácio do Planalto nesta sexta-feira (29). Mas na última hora, ela bateu fofo e preferiu assistir a senadora Kátia Abreu na TV Senado, esvaziando o ato que foi transferido para o Palácio da Justiça, com dança dos índios no salão negro, mas sem Dilma e sem as medidas suspensas por "pendências técnicas", segundo o ministro Aragão que, no entanto, garantiu a publicação de algumas delas no Diário Oficial deste 2 de maio. Tomara.   
Quanto tempo Dilma ainda tem para presidir o país com as mãos desatadas, mas ainda com um nó de travagem da Kátia Abreu? Dez dias? Dois anos? No prazo tão curto que lhe resta, quantas pedradas pode dar para corrigir as omissões de ontem? Além das horas para se defender dos temerários abutres que bicam com voracidade sua carcaça, terá tempo hábil para matar outras aves do passado? Depende da noção de tempo com a qual ela vai trabalhar. Se for com o tempo do relógio e do calendário, não. Mas terá tempo de sobra, caso use o tempo dos orixás ou do mundo andino.
Na cordilheira dos Andes, todo mundo sabe que o passado está sempre na frente, é por isso que nós podemos vê-lo. O passado é de múltipla escolha. Já o futuro, que a Deus pertence, é misterioso, vem atrás da gente, na rabiola, por isso não somos capazes de avistá-lo. Nesse sentido, Michel Temer, o traíra, tem razão quando diz que marchamos para o futuro. Efetivamente, com a dupla Temer-Cunha estamos retrocedendo de volta para o futuro, andando para trás no tempo, com algumas conquistas sociais seriamente ameaçadas.

O velho Chico

O futuro está chegando. Os índios que preparem seus arcos, flechas e bordunas, porque vem chumbo grosso se Dilma cair. Ruim com ela, pior sem ela. Foi justamente a chapa Temer-Cunha e seus aliados que ataram as mãos da presidente. Embora a Constituição, tão impropriamente invocada pela encapirotada Janaína Paschoal, garanta aos índios o usufruto das terras imemoriais, o Estado nacional tem sido incapaz de fazer cumprir o preceito constitucional e ninguém é acusado por crime de responsabilidade. Além disso, uma Comissão do Congresso do Cunha acaba de aprovar e encaminhar ao plenário a PEC 215/2000 que inviabiliza a demarcação de terras indígenas.
Enquanto a democracia agoniza sepultada por um congresso desmoralizado que dá um golpe comandado por um réu no STF, quatro índios Guajajara da Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, que defendiam suas terras invadidas por madeireiros, foram assassinados no último mês, entre 26 de março e 22 de abril: Aponuyre, um menino de 16 anos, morto a tiros; Genésio, 30 anos, com pauladas e um tiro no tórax;  Isaías, 32 anos, morto a facadas e Assis, 43 anos, morto a pauladas. Um quinto índio, Joel Gavião Krenyê, morreu, ao que tudo indica vítima de uma emboscada.
O CIMI - Conselho Indigenista Missionário - denunciou que "há anos, os cerca de dez mil indígenas Guajajara e Awá que vivem na TI Arariboia, sofrem com a extração ilegal de madeira e com a violência dos madeireiros da região". Por isso, os Guajajara criaram, em 2008, o grupo dos Guardiões para proteger seu território invadido por serrarias e carvoarias. De lá para cá já foram assassinados 21 índios e incendiado criminosamente 45% do território da TI Arariboia.
Todos esses crimes permanecem tão impunes quanto os praticados por Eduardo Cunha. "As instituições não estão cumprindo seu papel. Até agora nenhuma investigação foi aberta e a sensação que fica é de impunidade" - afirmou Gilderlan Rodrigues, missionário do CIMI. Quem comanda o Brasil é o coronel Saruê, do Velho Chico. O JN virou novela e a novela virou telejornal.

O tempo mental

Suluene Guajajara se queixou:
- "Muitas mulheres idosas não conseguem mais dormir. Algumas passam noites inteiras rezando para não acontecer o pior. Queremos um retorno das autoridades. É nosso sangue que está sendo derramado".
Resta saber se Dilma pode, hoje, antes de deixar o governo, evitar os assassinatos de ontem e fazer cessar o choro das viúvas e das mães Guajajara. Ela tem ainda tempo para evitar esse derramamento de sangue?
Talvez possam nos ajudar a responder tal pergunta as aulas de literatura na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ministradas em 1980, por Júlio Cortázar. Lá, ele  discutiu, entre outros temas, a arquitetura do conto, sua dinâmica e uma série de conotações, de aberturas mentais e psíquicas, dedicando um bom espaço para refletir sobre o tempo.
Ninguém sabe o que é o tempo. Kant considera que o tempo em si mesmo não existe objetivamente, é uma categoria exclusiva da razão, somos nós os que construímos o tempo. O tempo só existe, porque nós o inventamos. "O tempo é um problema que vai muito além da literatura e que envolve a própria essência do homem" - diz o escritor argentino, que exemplifica com quatro contos que evidenciam a possibilidade de diferentes tempos. Dois deles são de sua autoria.
O primeiro - "O perseguidor" - narra a história de um músico de jazz, baseada numa experiência vivida no metrô de Paris. Nos dois minutos entre uma estação e outra, Cortázar rememorou em detalhe uma longa viagem feita, em 1942, pelo norte da Argentina. Como podem caber em apenas dois minutos fatos vividos ao longo de semanas, de meses? "Meu tempo interno, o tempo em que tudo isso havia acontecido em minha mente, de maneira alguma poderia caber em dois minutos" - concluiu. Mas coube.
O segundo conto - "A ilha ao meio-dia" - narra a história de um comissário de bordo de uma companhia de aviação que da janela do avião vê sempre, em sucessivos voos, uma ilha grega no mar Egeu, habitada por pescadores.  Decide mudar de vida, pede demissão e vai morar na ilha pela qual ficara fascinado. Um belo dia, vê da terra o "seu" avião passar desgovernado e cair no mar. Ele se atira na água e puxa um homem ferido gravemente que se debatia. Quando os pescadores chegam, encontram o cadáver do nosso comissário. Ele morreu no acidente, sem nunca ter pisado na ilha, a não ser no tempo utópico.
O outro conto - "O milagre secreto", de Borges - relata a história de um  escritor tcheco na Segunda Guerra que vai ser fuzilado pelos nazistas. Diante do pelotão, ele lamenta morrer sem ter tido tempo para escrever sua obra-prima, que lhe tomaria pelo menos um ano de trabalho. É aí que começa a criar personagens, a imaginar situação até concluí-la. Quando ele abre os olhos feliz pela conclusão do ato criativo, os tiros são disparados. O que havia durado para os soldados dois segundos, para ele durou um ano de tempo mental, no qual finalizou sua obra.
No último conto - "Aconteceu na ponte do Riacho da Coruja" - Ambrose Bierce narra um episódio da Guerra da Secessão. Soldados decidem enforcar um prisioneiro, passam-lhe uma corda no pescoço e o obrigam a pular da ponte para que ficasse suspenso no ar. Ele pula, a corda se rompe, ele cai no rio e nada para bem longe. Começa demorada viagem por terra até sua casa, onde chega a ver sua mulher. A última frase do conto é: "O corpo do executado balançava no extremo da corda". Em sua agonia, ele viveu a suposta ruptura da corda que lhe permitiu ir em busca de sua família. Uma vez mais o tempo se estica e se alonga - escreve Cortazar.
Qual o tempo de Dilma e o que ela fará diante do pelotão de fuzilamento ou da forca? A chapa Temer-Cunha anulará as demarcações porventura feitas, alegando que elas não existiram?

"O impeachment e o muro que separa não 'coxinhas e petralhas', mas povo e peemedebismo"

Posted: 22 de abr. de 2016 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 22 comentários


por Rodrigo Callazans

Uma foto circulou bem nas redes no último fim de semana. A imagem flagra um casal que se beija na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sobre o infame muro erguido para dividir "coxinhas" e "petralhas" nos protestos pró e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ele, de vermelho; ela, de amarelo.

Ainda no fim de semana, a emissora GloboNews exibiu, numa curta reportagem, uma série de frases coladas e pichadas no muro. Uma delas dizia: “Bora se amar". Também mostrou que alguém decidiu instalar um daqueles telefones de copo e barbante entre os dois lados. A brincadeira deu certo, e alguns manifestantes trocaram argumentos bem razoáveis, apesar (e além) do muro.
A foto, a reportagem e as seis horas em que travamos contato direto pela TV com os homens e as mulheres que nos representam no Legislativo, no último domingo, deixaram algo bem claro. Existe sim um muro no país, mas ele não separa quem apoia Dilma e quem quer vê-la longe do Palácio do Planalto.
Este muro, tão simbólico quanto (sur)real, está erguido há tempos entre a classe política e a população.
E o muro tem nome: peemedebismo. O conceito do filósofo Marcos Nobre, professor da Unicamp, define um sistema político fechado em si mesmo, que existe para filtrar e barrar as pressões populares e cuja principal função é simplesmente perpetuar-se no poder.
Daí as esdrúxulas justificativas de voto a favor do impeachment e a coleção de palavras-chave, reveladoras da atuação do Congresso, acompanhadas de pronomes possessivos que nada têm a ver com a prática republicana: "Minha mãe", "meu neto", "meu Estado", "minha cidade", "meus eleitores".
Os discursos descabidos foram ironizados até pela conservadora revista The Economist. Talvez por tratarem a coisa pública como propriedade privada.
A classe política custa a ouvir os recados das ruas, e, quando escuta, finge que não entende. Em junho de 2013, o país foi chacoalhado por um inesperado movimento civil, tão difuso quanto contagiante, iniciado após mais um aumento nas passagens de ônibus, e que atordoou inteiramente a Praça dos Três Poderes.
Bandeiras de partidos foram rejeitadas amplamente, numa mostra de insatisfação com o sistema político, enquanto crescia o chamado nas redes sociais: “Vem pra rua”.
Na época, os manifestantes tentaram explicar que não era “pelos 20 centavos” das passagens que eles decidiram encarar a truculência policial. Era uma questão de princípios. Uma crítica tanto ao governo do PT, já então abalado pelo escândalo do mensalão, como às bancadas legislativas que perpetuam o “toma lá, dá cá” sem pudores, governando mais para os patrocinadores de suas campanhas do que para seus eleitores.
Em 2013, os protestos foram capitalizados mais pela esquerda, assim como os que surgiram no país após a operação Lava Jato foram absorvidos em boa parte pela direita. Mas, para além dos discursos inflamados e retos dos mais radicais, as pautas dos protestos têm muito em comum. Exigir a redução do preço das passagens, no fim das contas, é não querer “pagar o pato”.
No centro de todas as discussões enfurecidas que varreram o país na crescente polarização dos últimos dois anos estão princípios que se mantêm firmes, imunes aos radicalismos despudorados: ética na política, equilíbrio na economia, transparência na relação com o público, representatividade efetiva dos temas de interesse comum nos governos que elegemos democraticamente.
Esses princípios não são de esquerda nem direita: são republicanos. E em cima deles deveria ter sido decidido o impeachment de Dilma no domingo.
Cinquenta e oito por cento dos deputados federais têm alguma ocorrência judicial. O relator do processo de impeachment, Jovair Arantes (PTB-GO), foi condenado na terça por crime eleitoral. O prefeito de Montes Claros (MG), citado por sua mulher, a deputada Raquel Muniz (PSD-MG) em seu voto pelo “sim” para "dizer que o Brasil tem jeito”, foi preso na segunda-feira pela Polícia Federal, acusado de sucatear a rede municipal de saúde para beneficiar um hospital privado.
Ver tanta gente comprometida dessa forma (há 76 condenados pela Justiça na Câmara) na TV, bradando de forma histriônica “pelo fim da corrupção”, capitaneados por um parlamentar que é réu no Supremo Tribunal Federal, fez muita gente rever as próprias convicções e, em muito tempo, reparar em quem está do outro lado.
Foi o que o Financial Times chamou de “reação incerta” dos brasileiros à sessão de domingo. Essa mudança foi sentida também pela consultoria Eurasia Group, que tenta explicar para seus clientes a crise brasileira. Se conseguirem, podem explicar pra gente.
Mas há algo que cabe a todos nós entender: é no diálogo, e não na ruptura, que está a verdadeira força de mudança. “Você me abre seus braços / E a gente faz um país” **.
**Verso da canção Fullgás (Marina Lima e Antônio Cícero, 1984)

A difícil escolha de um ministro da Cultura

Posted: 10 de abr. de 2016 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários

por Miguel Lobo Antunes

Olhando para os desempenhos das pessoas que nos governos portugueses, ao longo dos anos, tiveram a responsabilidade da “política cultural”, põe-se-me a questão: porque é tão difícil escolher pessoas competentes? Porque é que há tantos tão maus desempenhos?
Só posso tentar uma resposta provisória.
Algumas vezes se acha que o recrutamento deve ser feito de entre as pessoas do chamado “meio cultural”. O próprio “meio” reivindica essa espécie de prerrogativa. O problema é que constitui um campo muito restrito de recrutamento. Só excecionalmente poderá nalgum personagem coincidir o conhecimento dos problemas com a forma política de os resolver. Acresce que o “meio” é propício à vaidade. E a vaidade é incompatível com a gestão serena, refletida e aberta à opinião dos outros.
A “cultura” é coisa complexa, difícil de apreender na sua totalidade e em todas as suas implicações. É um campo muito amplo, de fronteiras indefinidas, com uma enorme variedade de implicações. A sua área de atuação é o imaterial, mas carece de materialidade.

Ao contrário de outras pastas, não basta aos seus responsáveis serem bons políticos. Têm que ter inteligência, sensibilidade, humildade, gosto pelas coisas do espírito. Tudo isso na mesma pessoa é raro.
Capacidade de aprender e de saber escolher os seus colaboradores é necessária em qualquer posto governativo. Mas na “cultura” é ainda mais necessário dada a variedade que já referi.
Em geral os primeiros-ministros, pela forma como são recrutados, não percebem a singularidade e a importância da “cultura”. Parecem pensar que tudo se resume a manter apaziguado um grupo de malfeitores que vive à custa do orçamento. Ou que é coisa de cereja em cima do bolo. Dá jeito, mas não é imprescindível.

A população não pensa de maneira muito diferente. Se uma instituição cultural é destruída, por exemplo, pouca gente se incomoda. Não lhe vão ao bolso. Esta forma de entender que a “cultura” é um luxo supérfluo ou uma rosa na lapela não ajuda a escolher os melhores.
Os instrumentos para a realização das políticas culturais foram com frequência construídos de forma amadora e sem se verificar a sua eficácia. Governa-se a olho. O que leva a achar que quem tem um olho é rei. Ou que é possível um relativo amadorismo na gestão da política cultural. Escolha feita com esse sentimento não pode dar bom resultado.

Poderia continuar. Falando destas dificuldades falo, indiretamente, do que acho deverem ser as características especiais de um ministro da Cultura. Além das que ficam insinuadas, há todas as outras, comuns a qualquer responsável político: ética, seriedade, gostar de servir os outros, paciência e resistência física para cumprir um sem número de rituais, capacidade de encaixar as críticas mesmo que injustas, capacidades tribunícias… Enfim, se é difícil ser ministro, mais difícil ainda é, como a vida me tem mostrado, ser ministro da Cultura.

"Amazônia, pátria das águas"

Posted: 2 de mai. de 2013 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , , 0 comentários


Quando o livro Amazônia (editora Práxis), com fotos de Claudia
Andujar e George Love, foi lançado em 1978, ficou sem uma parte
fundamental: o texto de Thiago de Mello feito especialmente para a
publicação, batizado de Amazônia - Pátria das águas. Ele foi
censurado pela ditadura militar, que já caminhava para o ocaso, mas
continuava restringindo os trabalhos de artistas, em especial os que
desafiavam frontalmente o regime, caso do poeta de Faz escuro mas eu canto.

Thiago diz que chegou a ver a edição com seu texto incluído, mas, se ela
circulou, foi pouco. Suas palavras em defesa da Amazônia saíram mais
tarde numa edição da Civilização Brasileira e, mais recentemente, pela Global-Gaia, ilustradas com desenhos e pinturas dos índios ticunas e fotografias de Claudio Marigo.

O texto que ganhou uma aura mítica por causa da censura é reproduzido aqui no Conexão em função da exposição Fotolivros latino-americanos, em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Uma das salas da mostra é dedicada apenas a Amazônia, um marco na história dos fotolivros e decisivo nas carreiras de Claudia Andujar e George Love.

De 7 a 10 de Maio o IMS-RJ promoverá também o seminário Fotolivros latino-americanos,
paralelo à exposição, com o objetivo de promover o debate sobre a
história dos livros de fotografia e o novo lugar dos livros de arte no
cenário da produção editorial contemporânea. As inscrições estão
abertas.

Eis o vídeo, que consta da exposição, com as páginas de Amazônia:


... e o texto censurado de Thiago de Mello, na íntegra.


"Amazônia, pátria das águas"

Da altura extrema da cordilheira, onde as neves são eternas, a água se
desprende, e traça trêmula um risco na pele antiga da pedra: o Amazonas
acaba de nascer. A cada instante ele nasce. Descende devagar, para
crescer no chão. Varando verdes, faz o seu caminho e se acrescenta.
Aguas subterrâneas afloram para abraçar-se com a água que desceu dos
Andes. De mais alto ainda, desce a água celeste. Reunidas elas avançam,
multiplicadas em infinitos caminhos, banhando a imensa planície cortada
pela linha do Equador.

Planície que ocupa a vigésima parte da superfície terrestre. O verde
universo equatorial que abrange nove países da América Latina e ocupa
quase a metade do território brasileiro. Aqui está a maior reserva
mundial de água doce, ramificada em milhares de caminhos de água, que
atravessam milhões de quilômetros quadrados de chão verde. É a Amazônia,
a pátria da água.

É a Grande Amazônia, toda ela no trópico úmido, com a sua floresta
compacta e atordoante, onde ainda palpita, intocada pelo homem, a vida
que se foi urdindo em verdes desde o amanhecer do Ter­ciário. Intocada e
desconhecida em muito de sua extensão e de sua verdade, a Amazônia
ainda está sendo descoberta. Iniciado há quatro séculos, o seu
descobrimento ainda não terminou. E, no entanto, pelo que já se conhece
da vida na Amazônia, desde que o homem a habita, ergue-se das funduras
das suas águas e dos altos centros de sua selva um terrível temor: a de
que essa vida esteja, devagarinho, tomando o rumo do fim.

A este universo de água e de terra, de rio e de selva, chegou o homem. É
recente a sua chegada. Só há dez mil anos, já sabem os cientistas,
chegaram os índios à Amazônia e dela fizeram a sua morada. É portanto o
tempo de sua fundação, do seu verdadeiro começo: o homem chegando para
permanecer e para amar.

Da história desse homem primitivo, quer dizer, o que chegou primeiro,
mais adiante um pouco eu vou contar. Muito pouco, porque é quase nada o
que dele ainda resta, escondido nos longes espessos da selva, agarrado
ao sol de sua inocência.

Depois os outros chegaram. Os chamados brancos, com a cruz e o arcabuz; e
o sangue que ia ajudar a compor uma nova etnia, ao longo de quatro
séculos de aventura humana. Aventura que se prolonga, ainda hoje,
marcada pelo signo do desamor. Extração, saque, destruição, extermínio.

É tempo de dizer que é dolorido, para mim, caboclo do Amazonas,
dizer da verdade da vida que reúne, e desune mais que une, as águas, as
florestas, os animais e os homens do Amazonas. Acabo de subir o rio
Solimões, desde o seu encontro com o Negro, onde as águas barrentas de
um não se misturam com as negríssimas do outro, até o triângulo
amazônico que forma o Brasil com o Peru e a Colômbia. Dias e dias de
viagem, contra a correnteza, numa pequena embarcação a motor. Tempo de
enchente, o rio crescido alagando a várzea, derrubando casebres e
árvores. Horas e horas de viagem, sem encontrar uma criatura humana. Só,
de repente, um bando de garças, crivando, alvíssimas, a transparência
da tarde.
E subitamente, numa curva do rio, uma
pequenina canoa beirava o barranco, o homem na proa acenando com o remo,
oferecendo peixe fresco. O olhar bom, o gesto generoso. Mas sofrido: um
filho menino lhe vinha de morrer, sem nenhuma assistência, devorado de
febres. Aprendi com aquele irmão de águas que em tempos doloridos é
preciso trabalhar com esperança na construção da alegria.


Como no Gênesis flutuava a cara de Deus, hoje é a esperança que paira
sobre a face das águas do meu rio. Que ainda paira. Apesar de tudo.
Apesar da destruição, do saque de suas riquezas, do desflores­tamento
impiedoso, da fauna ameaçada, do desamparo do homem ribeirinho - a
esperança amzônica resiste. O coração do homem não se cansa. Se, de tão
malferida, a floresta se cansa, este o nosso grande temor.

Este é o rio que Vicente Pinzón olhou em 1500, sem saber que já havia
abandonado o Atlântico e ingressava na foz de um oceano de águas doces.
Santa Maria de la Mar Dulce. Era o Amazonas varado pela quilha das
caravelas primeiras. O Paraná-açu dos índios que habitavam as suas
mar­gens. Foram muitos os seus nomes: Rio Amazonas, que percorre mais de seis mil quilômetros, desde o fio de
água que desce do lago Lauri, Lauricocha, na cabeça dos Andes, desce
também de Vilcanota, e logo se engrossa no Urubam­ba, transforma-se no
Ucayali, depois já é o caudal do Solimões na selva peruana, encontra a
sua calha principal entrando no Brasil levando o mesmo nome até
encontrar-se com o Negro e então fazer-se Amazonas propriamente dito,
impetuoso, varando profundo o Estreito de Breves, e encontrar-se com o
Atlântico e empurrar para trás as águas do mar até enormes distâncias.

É verdade que o mar se vinga. Reúne as suas forças salgadas e retorna
com fúria, em ondas de muitos metros de altura, que rolam grossas e com
grande estrondo sobre as águas do rio, derrubando margens, afundando
batelões e até navios.

A lei do rio não cessa nunca de impor-se sobre a vida dos homens. É o
império da água. Água que corre, água que leva e lava, água que se
despenca em cachoeira, água que roda no rebojo, água que vai e volta em
repiquete, água parada no silêncio do igapó. Água funda, água rasa onde
os barcos encalham. Água negra do Andirá e do Negro. Água barrenta do
Solimões, do Madeira, do Purus. As águas claras e verdes do Tapajós, do
Xingu

É o Amazonas e o seu ciclo das águas. Tempo das "primeiras águas",
quando o rio dá sinal de que tem vontade de crescer. Tempo de enchente,
de vazante, tempo de seca. E o regime das águas condicio­nando e
transformando a vida do homem amazônico ao longo das etapas do ano. Em
qualquer lugar do Amazonas. Não só no interior das florestas, na beira
dos rios. Também nas cidades e nos princi­pais centros urbanos da região
- o homem sofre os efeitos da subida ou da descida das águas. Na sua
casa, na sua comida, no seu trabalho de cada dia. O regime das águas é
um elemento constante no cál­culo da vida do homem. Porque são também
ciclos econômicos. Grandes vazantes significam grandes colheitas: a
terra da várzea inundada é fertilizada pelo rio, que lhe deposita sais
minerais e matérias orgânicas. É tempo de grandes pescarias, tempo de
bom plantar. Grandes cheias correspondem a duras calamidades e amargas
misérias: o peixe se esconde nos lagos de remanso, as plantações são
destruídas, o gado tem de ser levado para as alturas da terra firme ou
então é reunido na "maromba", exíguo curral erguido sobre esteios acima
das águas. O soalho das casas fica submerso, as sucurijus se aproximam
no faro dos animais domésticos. O homem fica à mercê do rio. Mas não
desanima: espera pela vazante, e alteia o soalho, e aproveita a terra
enriquecida pela enchente. O rio diz para o homem o que ele deve fazer. E
o homem segue a ordem do rio. Se não, sucumbe.

O rio diz para o homem. Sucede que a floresta não pode dizer. A floresta
não anda. A selva fica onde está. Fica à mercê do homem. Por isso é que
há quatro séculos o homem vem fazendo da floresta o que bem quer. Com
ela, e com tudo que vive nela, dentro dela. A floresta entrega o que
tem. São séculos de doação que a floresta amazônica tem de bom para a
vida do homem da região e das mais afastadas partes da terra. Sobretudo
para os homens da Europa e da outra América, que são, ao longo da
história da exploração dos recursos naturais da Amazônia, os que melhor
fruíram e mais se enriqueceram com as riquezas da nossa floresta.

A floresta dá tanta coisa para o homem há tanto tempo. Desde o começo,
quando os europeus chegaram, na busca das especiarias. Era o cravo, era a
pimenta, a canela, a baunilha, a salsa, a alfavaca.

O saque começou pelas drogas do sertão. E continua, até os dias de hoje,
cada vez mais impiedoso. De suas essências, a principal delas a do
pau-rosa, o privilegiado fixador de perfumes. Os seus produtos
medicinais, extraídos de folhas, raíles e cascas de árvores. A andiroba,
a copaíba, o sumo da casca de mungubeira, o curare milagroso e maligno,
e a extraordinária quina, nativa do nosso chão. Os alucinógenos: ipadu,
iagé, paricá, o caapi dos sonhos telepáticos. O guaraná estimulante que
os índios descobriram e até hoje cultivam. O alimento generoso de suas
frutas inumeráveis. O mundo inteiro consome a chamada
"castanha-do-Pará", tão rica de proteína e gordura e sais minerais. O
cacau é originário da Amazônia. Não cabe aqui a louvação nem resumida
das virtudes da nossa floresta. Mas como não gravar aqui, mesmo de
relance, a marca funda, conquanto suja, que deixou na vida da Amazônia
as qualidades das seivas e gomas elásticas da selva. A borracha - a
famosa Hevea brasiliensis - é o fundamento de
todo um período histórico da vida social e econômica da região, durante
o qual a Amazônia conheceu extremos de opulência e de miséria. Milhares
de homens se adentram pela mata para extrair o leite das seringueiras. A
Amazônia entre 1895 e 1909 exporta mais de 400 mil toneladas de
borracha, pagas pelos europeus a preço de ouro. Em Manaus, Belém e
Iquitos vivia-se a grande vida, erguiam-se palácios. Sucede que em 1881,
as sementes da Hevea brasiliensis, levadas pelos ingleses em sacas escondidas, e plantadas na Malásia, frutificaram em Singapura.
Depois em Java, e na Sumatra. Em 1911 o Amazonas produz 45 mil
toneladas, enquanto as seringueiras da Malásia apenas 8 mil. Mas em
1920, a asiática alcançava 360 mil toneladas e a do Amazonas descia a 8
mil, vendidas a preços aviltados. Era o fim do ciclo da borracha. E um
saldo de milhões de seringueiras murchas.

A extração de madeiras da floresta, iniciada desde o instante em que o
primeiro índio derrubou a pri­meira árvore para fazer a sua canoa e
construir a sua maloca, nunca mais cessou. E cada dia cresce mais o
deflorestamento. A floresta amazônica, fragmentada em toros de madeira
de lei, espremida na superfície dos compensados, hoje é levada para
quase todos os lugares do mundo.

Vamos, vem ver o reino vegetal. Entra comigo na espessura úmida. A
floresta já sabe que chegaste, todos os verdes se movem, querendo saber
quem és. O silêncio se anuncia, gota a gota, despencado das asas de
mariposas e pássaros. A selva te recobre, com a sua abóbada de palmas e
te encerra na umidade da escuridão diurna. As frondes colossais acumulam
o tempo, nas nervuras geométricas das folhas. Os caminhos se fecham nos
emaranhados verdes. O silêncio é penetrado pelo punhal agudíssimo do
zum­bido dos insetos, que proclamam, em ondas de sombra, a chegada do
anoitecer na selva. Ouve o lamento ancestral dos guaribas, o silvo
mágico das serpentes, o esturro das feras felinas que percorre vibrando
as distâncias da planície ferida. Subitamente, a selva inteira estremece
e vibram as raízes mais antigas das sumaumeiras altíssimas. É a
floresta amazônica submetida pelo relâmpago, devas­sada na sua tenra
intimidade pelo fulgor vertiginoso do raio.

A chuva é um elemento constante na selva amazônica. Chove todos os dias,
mesmo no verão, que é o tempo da seca. As grandes nuvens bojudas e
brancas do céu equatorial, de repente se movem pesadas, escurecem e se
dissolvem: desce a pancada d'água, o temporal do Amazonas, a ventania
cantando. É de manhãzinha, é no meio do dia, é quando tu vais de noite
atravessando o rio, a escuridão rasgada de relâmpagos, de uma margem à
outra, iluminando a face enfurecida das águas.

Vale registrar o índice de pluviosidade na Amazônia: 3000 mm por ano. É
um dos lugares onde mais chove neste mundo dos homens. E a chuva lava e
vai levando tudo da terra para o rio. O solo desmatado fica sem o pouco
húmus que lhe sobrou, levado pela chuva. E os homens respeitam,
temerosos, as forças do temporal, que verga e derruba árvores imensas,
muitas levadas pela correnteza, troncos que se chocam contra os barcos,
estraçalhando quilhas e calados. Morreu afogado no temporal - é frase
frequente nos barrancos da minha terra.

De um temporal desses, uma vez no Solimões peruano, nós escapamos vivos: o índio Morón e seu filhinho de cinco anos, eu e o caboclo Rios. Eu passara o dia numa pequena aldeia dos índios yaguas, aprendendo a vida com o jovem tuxaua, que muitos sabia do floripendio e de ervas mágicas. Ao entardecer, saímos de canoa, com motor de popa, rumo a Choriaco, pequena povoação ribeirinha. Coisa de duas horas de viagem. Tempo de cheia. Subíamos o rio, rente
à margem da floresta, já na metade do percurso, quando de repente, o
temporal desabou. "Este vai ser dos medo­nhos", disse tranquilo, lá da
popa, onde controlava o motor, o meu amigo índio. Junto a ele, no chão
da canoa, o seu
filho pequenino, todo encolhido de frio. Lembro-me de que, antes de escurecer totalmente, do banco da frente onde eu ia, virei-me e vi o brilho intenso de seus dois olhos enormes. Era o pavor. No banco da proa, sem camisa, o caboclo Luis. Enfrentamos o temporal em silêncio: juntos, caladamente solidários. A correnteza crescia, a canoa balançava na crista das ondas, a chuva vergastava por todos os lados. Houve um momento em que não vimos absolutamente mais nada. Escuridão total. Repetidas veres a proa topava num tronco. O baque surdo, a canoa parecia que ia virar. Ramón inclinava o motor para a frente, para que as hélices ficassem fora
da água, evitando o choque. Só os relâmpa­gos nos ajudavam, cortando o
céu de um lado a outro: a luz fugaz iluminava um tronco enorme, uma
árvore
inteira derrubada, que já vinha quase em cima de nós. Morón, ágil e calado, desviava a canoa num golpe de leme. A escuridão era tanta que eu sequer enxergava a minha mão aberta a centímetros de meu rosto. Mesmo assim, em vários momentos tive a certeza de que o índio Morón conseguia enxergar alguma coisa das águas e da margem. Os seus olhos conseguiam ver. Ou os seus ouvidos, os seus sentidos todos, agudíssimos sabiam o que da canoa se aproximava. Porque de repente ele dava uma guinada para a esquerda, logo aprumava o rumo, ou diminuía a marcha do motor. E emitia um som rouco e grosso e breve com a boca entrecerrada, que incrivelmente se ouvia no meio de todos os fragores do temporal. Era como se ele fosse um parente das águas. A tempestade cessou antes que chegássemos a Choriaco. Pouco antes. E duas coisas que aconteceram agora eu sinto precisão de contar. A primeira é que mal dobramos a boca do Paraná de Choriaco, demos com várias canoas que vinham em nossa direção. Eram homens e mulheres daquele pedaço do mundo que nunca esquecerei: certos de que deveríamos chegar no começo da noite, nos sabiam surpreendidos pelo temporal, e iam ao nosso encontro, para nos salvar. Quando nos viram, foi um imenso e prolongado grito de alegria. A segunda coisa
é que depois do temporal o céu acendeu as suas estrelas, perdão, todas
as suas estrelas, que pairavam enormes, sol­tas no campo da noite.


Agredida, violentada, a floresta se defende. Defende-se antes de tudo
com os seus elementos mais variados. Com o seu calor úmido, abafado. Com
os cipós emaranhados, as touceiras de espinhos, as folhas que provocam
queimaduras de brasa, as hastes que cortam como lâminas. Defende-se com
poderes de encantamento. E como se de repente as árvores e arbustos
mudassem de lugar, fechando o caminho por onde o homem avançou. São as
palmas dos buritizeiros que silenciosa e bruscamente se entrelaçam
inaugurando a noite em pleno dia da mata.

Mas a floresta sobretudo se defende com a sua fauna, que dela faz morada
e cidadela. A fauna defende a flora e se defende. São as nuvens de
mosquitos, os que atacam de dia e os que chegam com a noite. Os
carapanãs, as mutucas sugadoras, os terríveis piuns diurnos. As aranhas
venenosas, caranguejeiras cabeludas, o ferrão venenoso. Defende-se a
floresta invadida com os insetos transmissores de malárias, de febres
negras fatais. Com as formigas de fogo, as tocandiras, que sobem do chão
e descem das árvores de cujas horas o homem corre em desespero. De
repente, ao parar debaixo de um tachizeiro, o homem em poucos segundos
se vê coberto de formigas dos pés à cabeça, sem nada poder fazer contra
as ferroadas insuportáveis.

Defende-se com as suas feras: a onça suçuarana, a onça pintada, a
maracajá. E principalmente com as suas serpentes, a mais temível de
todas a surucucu, porque terrivelmente venenosa. Mas na beira dos rios,
nas águas caladas da selva, nos centros da mata, lá está a fabulária
sucuriju, a constritora.

Sucede que o homem, para vencer a floresta, derrota também a fauna. E
tem na fauna mesma um grande objeto de sua cobiça. O animal tem carne
para ser comida, e couro para ser vendido. Há milênios que os bichos do
Amazonas vêm sendo abatidos, os da terra e os da água. Algumas espécies
estão perto da extinção. O peixe-boi está beirando o seu fim. Nos
últimos anos foi proibida a captura de tar­tarugas e a caça ao jacaré.
Como cumprir a lei na vastidão da selva? Mais de 20 mil onças mortas
anualmente. Os números são assustadores. Na década de 1960 saíram da
Amazônia mais de um milhão de couros de jacarés. Venho de passar mais de
um mês varando rios, paranás e furos do Baixo Amazonas. Ao contrário do
que sucedia há pouco mais de dez anos, não vi nenhum jacaré.
Trans­formados em bolsas, sapatos, cintos, eles caminham hoje pelas
avenidas das principais cidades do mun­do. Na luta contra a natureza, na
última e porventura definitiva luta do homem contra a natureza, que se
trava na Amazônia, o homem parece ganhar. Sem se dar conta de que, ao
fim da cega peleja, ele poderá ser o grande derrotado.

Olha bem, leitor companheiro, olha devagarinho estas fotos, que captam,
para perdurar no tempo, um momento da vida de uma tribo de índios da
Amazônia. Não te chamo a atenção para a beleza, de fina qualidade
poética. Não. Olha bem detidamente, porque estás, seguramente, diante de
um dos últimos testemunhos do que ainda resta, na Amazônia, quase
intacta em sua pureza, da vida dos seres humanos que primeiro habitaram
esta selva e cuja raça está caminhando já muito perto do fim. A verdade é
que no céu dos índios, apodrecido pelo furor branco, já se apagam as
últimas estrelas.

Eles eram mais de um milhão quando chegou o colonizador europeu. De
extermínio em extermínio, depois de quatrocentos anos, hoje eles não
chegam a cinquenta mil. E desses, quase todos já perderam, feridos
fundamente na essência dos valores de sua etnia, a sua própria condição
de índios. Uns poucos ainda resistem, escondidos nos grandes centros da
selva, fugindo ou evitando o máximo que podem o contato com os chamados
agentes da civilização. O que desejam esses pequenos resíduos tribais
ainda espalhados pelo chão da Amazônia, como de outros raros lugares do
Brasil, é simplesmente poder ser e seguir sendo simplesmente índios.
Querem o direito de ser o que são.

É esse direito que lhes foi impiedosamente usurpado pelo branco invasor,
que apodrece os seus corpos com as suas doenças, e mata neles o que
para o índio é o seu próprio centro de gravidade: o gosto e a alegria de
viver. Degradação, palavra que, como estigma, queima a alma da raça que
fundamentalmente nos formou.

Índio aculturado é índio degradado, disse o santo Noel Nutels, pouco
antes de morrer, depois de toda uma vida dedicada à redenção do índio da
Amazônia. A maioria abrumadora dos nossos índios enfrenta hoje essa
degradação imposta pelo branco e que começa já no simples contato com o
civilizado e que se prolonga sem nunca terminar, porque só acaba com a
morte, durante o que a terminologia da proteção oficial chama de período
de transição. É durante esse período que a tribo se vai perdendo de si
mesma, que o índio vai deixando de ser índio, afastando-se dos seus
ritos, dos seus mitos, dos seus valores tribais - enfim, de toda uma
cultura construída durante séculos e que de repente é esvaziada de
significado pela imposição inevitável dos padrões culturais do homem
branco.

A perda de sua cultura conduz o índio à dependência e à submissão aos
trunfos de uma cultura que nunca será a sua, mas da qual ele precisa
para sobreviver. Aqui está o cerne do drama indígena: sub­missão que tem
gosto de traição do próprio ser. De qualquer maneira e seja qual for o
desenvolvimento do contato, o índio sai sempre perdendo. Não perde só a
terra, que lhe é usurpada pelas frentes invaso­ras da sociedade
nacional. Não perde só o vigor físico e a sua própria integridade. Perde
o que era bom, o que era límpido, e é obrigado a incorporar o que é
sujo, o que é ruim. Para poder sobrexistir, ele é obrigado a não confiar
mais. A utilizar-se da mentira e do roubo, finas virtudes brancas. Dos
brancos que da não aprenderam a conjugar o verbo amar. Sabe que está
mentindo, que está degradado. Transforma a dignidade perdida em duro e
silencioso rancor. Que vai degenerando, dor que punge calada até
transformasse no que Darcy Ribeiro, valente irmão dos índios, chama de
desengano. Desengano da vida, desgosto de ser gente.

O problema do índio é portanto um problema do branco. Na medida em que
só começa a existir a partir do instante em que se dá o encontro com o
civilizado. Antes ele era um ser livre, feliz, e glorioso. Dono de seu
poder e de sua forca de viver e de conviver. Na sua tribo, ele é um
integrante dela, como todos os outros, de qualquer sexo ou idade. Com os
mesmos direitos à utilização coletiva dos rios, das matas, das fontes
de subsistência. Com a simples mas poderosa alegria do trabalho coletivo
que faz de um homem irmão de outro homem. Por isso precisamente é que o
índio se degrada e caminha para o extermínio, ao participar de uma
sociedade que se fundamenta na exploração do homem.

Que os yanomami, isolados dos brancos no alto da Amazônia, observem ainda por largos anos a sua límpida glória de viver.

Índios isolados, índios degradados e desculturados, integram o
agrupamento humano da Amazônia, juntamente com o homem típico da região,
o caboclo ribeirinho, o caboclo das cidades, o brasileiro de outros
estados que aqui vivem e os homens de tantos países do mundo que, cada
dia mais numerosos, habitam a Amazônia. Fazem parte do grande complexo
humano, físico e geográfico da planície, que abrange os rios, árvores,
animais terrestres e aquáticos, o solo, as várzeas, as plantas aquáticas
e, por fim mas não por último, o subsolo amazônico, com todas as suas
riquezas.

É o ecossistema da grande Amazônia.

Já não se esconde mais a tensa inquietação a propósito do futuro da
Amazônia, cujo equilíbrio ecológico está fundamente ferido. Por isso
quero contribuir, com este trabalho (elaborado no interior do Amazonas,
nas margens do Paraná do Ramos que banha a pequena Barreirinha, onde
nasci, ao lado do rio Andirá, morada dos últimos resíduos dos índios
maués), para a causa da Amazônia. Quero que ele sirva de testemunho e
sobretudo de advertência.

A Amazônia, que só tem feito servir ao homem, vem sendo explorada e
ocupada de maneira insensata, desordenada e assustadoramente predatória.
A denúncia é feita por cientistas que sabem o que dizem. É claro que a
Amazônia precisa ser ocupada e desenvolvida. Mas sempre levando em conta
os fatores ecológicos e a sua necessária harmonia. A floresta tem que
ser utilizada, mas humanamente. Utilizada, e não degradada.

É momento de lembrar que cinquenta por cento do oxigênio que a
humanidade respira é produzido pela floresta amazônica. Ela não para de
trabalhar, dia e noite, para servir à necessidade fundamen­tal do homem:
o ar que ele respira. Mas é esse mesmo homem que não se cansa de
destruir a floresta generosa. Guardemos este número: mais de 10 milhões
de metros cúbicos de madeira estão sendo extraídos anualmente da nossa
floresta. Isto quer dizer mais de 3 milhões de árvores. Sem contar os
outros tantos milhões que foram necessariamente abatidos para a
construção das grandes estradas tran­samazônicas nos anos recentes. É
assustador o desmatamento da floresta amazônica, que constitui, faço
questão de repetir, a última grande reserva vegetal do planeta. O
desflorestamento é cada vez mais intensivo e indiscriminado. Já houve,
inclusive, a (tentativa de) utilização do herbicida Dioxim, usado na
guerra do Vietnã, que mata a clorofila. Empresas multinacionais,
empenhadas na criação de gado bovino na Amazônia, estão destruindo pelo
fogo grandes extensões de floresta para transformá-los em campos de
pastagem. Alguns incêndios - os jornais divulgaram - foram tão vastos
que chegaram a ser detectados pelos satélites artificiais. Sabe-se
estranhamente pouco sobre o que se passa nos limites do maior latifúndio
do mundo, abrangendo dois milhões e duzentos mil hectares, ao longo das
margens do rio Jari. Onde o desflorestamento tem sido também intenso.
Houve inclusive substitui­ção da floresta.

A Amazônia já não é mais a região misteriosa de antigamente. Muito dela
ainda está por ser conhe­cido. Mas de muito já se sabe. Não é a Manoa
del Dorado, o rio do Ouro, o País das Amazonas. Também já não se trata
apenas do paraíso nem do inferno verde. É a selva com a sua exuberância
de riquezas naturais e os seus recursos minerais que despontam cada dia
maiores, em descobertas que se sucedem. O ferro da Serra dos Carajás, a
bauxita do Trombetas. São reservas calculadas em bilhões de toneladas. O
subsolo se mostra cada dia mais rico. Mas o solo se confirma pobre. E
mais empobrecido se torna com a floresta derrubada. É preciso trabalhar
ainda muito para se chegar ao conhecimento e domínio de técnicas que
favoreçam o uso correto do solo. E preciso ocupar a Amazônia para
ajudá-la a viver, a fim de que ela possa ajudar melhor o homem, quero
dizer, a humanidade.

Fim de tarde de junho deste ano.

Acabo de entrar no barco atracado no lugar chamado Simão, na margem
do belíssimo rio Andirá, onde se abriga uma pequena aldeia dos índios
caterê, denominação recente da primitiva nação maué. Guardo ainda o
gosto forte do guaraná que, em cuia coletiva, foi servida à despedida
por uma índia que o preparou, ralado em língua de pirarucu.

O barco se afasta devagar. Do alto da proa, descubro de repente, o olhar forte
da índia menina sentada no barranco. Aceno-lhe com a mão, ela demora a
responder. Nos seus olhos apertados, cresce um brilho que me perturba,
onde pal­pitam misturados a força e o desamparo. De repente, me lembro
do olhar gravado na última foto deste livro, foto que demoradamente
contemplei tantas vezes. É o mesmo olhar da indiazinha do barranco.
Poder e desamparo, uma espé­cie de esperança amedrontada. É o olhar,
como o da própria Amazônia, de alguém que sente precisão de amor.


Thiago de Mello
Barreirinha, 1978

* originalmente publicado para Instituto Moreira Salles

O caso Franquelim Alves

Posted: 4 de fev. de 2013 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , 0 comentários

A propósito disto, leio no Público:

O primeiro-ministro desvaloriza a polémica criada em torno da escolha de Franquelim Alves para secretário de Estado e diz que o convite foi feito por si e pelo ministro da Economia.
"Quem escolheu (Franquelim Alves) não foi o CDS nem o PSD. Fui eu e o ministro da Economia. Espero que esse assunto morra depressa porque não tem nenhuma razão de ser", respondeu Passos Coelho aos jornalistas. (...) Além disso, defendeu o primeiro-ministro, o antigo administrador do BPN "reagiu sempre de forma correcta nos lugares por onde passou. Se há alguma dúvida processual, ela deve ser esclarecida na sede própria."

Vale ler também:

"Uma vergonha"

Posted: 6 de jan. de 2013 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , 0 comentários

por Constança Cunha e Sá

Que dizer de um governo que comete a proeza de apresentar pelo segundo ano consecutivo um Orçamento que não leva em linha de conta as normas da Constituição? No mínimo, que temos um governo que convive mal com o Estado de direito e que, em nome de um programa inexequível, se acha no direito de ignorar miudezas jurídicas como o princípio da equidade. Se, em 2012, a questão da constitucionalidade foi levantada por um grupo de deputados do PS e pelo Bloco de Esquerda, este ano, o primeiro-ministro e o inefável ministro das Finanças ficaram completamente isolados na defesa de um documento que ninguém, no seu perfeito juízo, consegue levar a sério. Até o Presidente da República se sentiu na obrigação de criticar a política económica que está a ser seguida e de enviar para o Tribunal Constitucional três normas do Orçamento. Este simples facto que, por si só, devia ter levado o prof. Cavaco Silva a pedir a fiscalização preventiva do documento, transtornou boa parte dos acólitos deste governo que, de um dia para o outro, passaram a ver no Presidente um aliado objectivo da oposição – e, já agora, do CDS, dos parceiros sociais, de inúmeros dirigentes do PSD e da população em geral. Este nicho de indefectíveis recusa-se a ver o óbvio: ao longo de um ano e meio, o dr. Passos Coelho alienou todo o capital de confiança que tinha, encontrando-se, neste momento, sozinho num país que não descortina (e bem) o sucesso nas suas medidas.

Perante isto, não deixa de ser curioso registar a rapidez com que todos se apressaram a contabilizar as dúvidas do Presidente, como se todos não soubessem que, com dúvidas ou sem dúvidas presidenciais, a execução orçamental, entre a recessão, a dívida e o desemprego, está condenada à partida. Aliás, convém dizer que é exactamente no descalabro das contas públicas e na inevitável derrapagem orçamental que os adeptos do “ajustamento” defendem que o Tribunal Constitucional mande a Constituição às urtigas em nome de um misterioso interesse nacional que o governo se entretém a delapidar. Por estranho que pareça, é no abismo em que caímos que o Tribunal Constitucional, segundo essas almas, se deve abster do seu papel, subordinando o Estado de direito, não ao interesse nacional, mas ao interesse de meia dúzia de lunáticos que consideram que estamos no bom caminho.

Mais uma vez, e por incompetência do governo, a Constituição é posta em causa por parte de um certo PSD que quer à viva força alterá-la, mesmo em matérias que constituem o cerne de qualquer constituição que se preze. Pode-se discutir a interpretação do princípio da igualdade: o que não se pode é pretender, como algumas luminárias pretendem no seguimento da mensagem do Presidente, expurgar o princípio da igualdade da Constituição, sob pena de Portugal deixar de ser um Estado de direito – um pormenor que, aparentemente, não incomoda essa gente. Basta ver a inaceitável pressão que se está a abater sobre o Tribunal Constitucional. Uma vergonha!

1º canal de TV indígena vai para o ar esta 6ª Feira, na Argentina


crónica do Ariel Palacios

A nova Lei de Mídia abriu brecha para a criação, na Argentina, de um canal de TV indígena. É o primeiro com estas características na história do país. O "Wall Kintun TV" - que significa "olhar circular" no idioma mapuche - começa a funcionar nesta sexta-feira, dia 07, em Bariloche.
A abertura da emissora é consequência do Artigo 37 da nova Lei de Media, que concede aos povos indígenas a autorização directa para a posse e funcionamento de canais de TV e estações de rádio. Acontece, no entanto, que o canal não é comandado pela etnia mapuche de Bariloche, mas pela "Cooperativa de Serviços Audiovisuais Mapuche", composta por 15 jovens que afirmam representar a comunidade.
O canal terá programas infantis, sendo que boa parte da programação não terá nada a ver com os mapuches que é suposto representar. A grelha retransmitirá, aliás, programas do canal estatal cultural Encuentro, entre outros.
Segundo a deputada estadual Rota Liempe, do Partido Unidade Popular, de esquerda, "os povos indígenas estão a ser usados como pretexto para fazer de conta que a lei é cumprida e que os indígenas estão totalmente integrados na sociedade". Também os líderes indígenas sustentam que os canais que o Governo está a distribuir a diversos grupos não representam as etnias existentes, já que mudanças recentes na legislação criam um cenário no qual ONGs compostas por indígenas de várias origens podem ser reconhecidas genericamente como "comunidades indígenas".
Embora seja formalmente "independente", o que é certo é que a Wall Kintun TV vai funcionar no edifício do governo provincial de Rio Negro, em Bariloche, controlado pelos kirchneristas.

"Pedro e os lobos"

por Viriato Soromenho Marques

Há dias, Jean-Claude Juncker, o primeiro--ministro luxemburguês que preside às reuniões dos ministros das Finanças da Zona Euro, afirmava que as regras mais suaves (em prazos e juros) aplicadas à Grécia se aplicariam evidentemente a Portugal. Ontem, contudo, no Parlamento Europeu, os ministros das Finanças da Alemanha e da França, numa espécie de sinistro coro, desaconselharam Portugal a solicitar mais flexibilidade. Juncker falava em nome de um princípio sagrado na construção europeia, o da igualdade de tratamento para Estados em situações idênticas. Os ministros do diretório falam em nome do interesse e da conveniência dos mais fortes. Se havia dúvidas elas ficaram dissipadas. A Grécia só recebeu mais um balão de oxigénio porque Berlim e Paris não quiserem suportar os custos para as suas economias de uma expulsão da Grécia da Zona Euro, neste momento. Contudo, o mais notável é que Schäuble e o seu colega francês usaram, para deitar por baixo as justas expectativas portuguesas, as fantasias espalhadas por Gaspar e Coelho: a) Portugal é muito diferente da Grécia; b) Portugal está à beira de voltar aos mercados financeiros. Como sempre, os mitómanos acabam tolhidos na sua própria trama.

«É preciso que se lhe diga, antes que seja tarde»

Mário Soares para Passos Coelho, hoje na sua coluna de opinião no Diário de Notícias:

O povo não existe para o primeiro-ministro e para o seu Governo. Tenha, pois, cuidado com o que lhe possa acontecer. Com o povo desesperado e, em grande parte, na miséria corre imensos riscos. É preciso e indispensável mudar de política.

"Viver entroikado, não ter o que pôr na mesa"

Posted: 29 de nov. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários

por Luciano Alvarez

Os governantes deviam andar de transportes públicos. Não só pelo que poupavam ao país. As questões de segurança e as agendas apertadas impedem que o façam com frequência. Mas, uma vez por outra, far-lhes-ia muito bem apanhar uma carreira de autocarro, um cacilheiro ou o metro.
As visitas às empresas de sucesso, as idas ao Parlamento e as vernissages com as chamadas “forças vivas” mostram-lhes uma fotografia desfocada do país. Os transportes públicos, esses sim, são o espelho de Portugal. Uma janela para a realidade.
Não falo só dos rostos que não escondem desalentos. Das empresas que, através da janela de um eléctrico, se vêem a fechar todos os dias, dos milhares de cartazes de casas à venda, como se os portugueses estivessem em massa a fugir do país.
Os governantes deviam andar de transportes públicos. Nem que fosse só de vez em quando. Iam ver que o número de pedintes cresce dia a dia. Gente que não tem outra solução a não ser vir para a rua pedir esmola.
Nesta semana, uma mulher travou-me o passo num túnel do metro. Não teria mais de 40 anos. Olhou-me nos olhos e de uma forma serena disse-me: “O senhor desculpe-me, estou desempregada, não tenho qualquer apoio, vivo sozinha com dois filhos e não tenho o que lhes pôr na mesa. Pode-me ajudar com qualquer coisa?”
Aquela mulher que nada aparentava de pedinte não podia estar a mentir. O seu olhar não mentia. Era uma mulher desesperada que não tinha como dar de comer aos filhos. Vir para a rua pedir esmola foi, provavelmente, o seu último recurso, a única possibilidade de ter algo para pôr na mesa.
“É muito difícil ver aspectos positivos naquilo que é duro e difícil”, disse o primeiro-ministro na entrevista de quarta-feira, garantindo que o seu Governo está a conseguir resultados para tirar o país da crise.
Admito que sim, mas a preocupação primeira devia ir para aqueles que, à custa dos “aspectos positivos” que o primeiro-ministro canta, são empurrados para a miséria. A “missão histórica” que Passos Coelho diz estar a cumprir devia começar por garantir que todos os portugueses tivessem o que pôr na mesa.
Até lá, o messias político que o primeiro-ministro se julga não passa aos olhos dos muitos portugueses que vivem na miséria de um fraco charlador.
Os governantes portugueses deviam andar mais de transportes públicos.

"Os imbecis que destruíram Portugal"

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por Tiago Mesquita

dívida do nosso país pode ter muitas causas. Endógenas e exógenas, micro e macroeconómicas, conjunturais ou estruturais.  Há todavia um traço comum que, a meu ver, é a principal causa do estado a que chegámos, independentemente das dificuldades que todos os países enfrentam, da crise internacional e de tudo o resto que gostam de nos vender.
A causa de que falo é simples e nada tem de rebuscada: o nosso país tem sido governado por um grupo de pacóvios com tiques de parolo. Os novo-riquismo da política portuguesa é sem duvida o maior cancro da democracia partidária.
O dinheiro público, quando gasto de forma racional, não é contabilizável. A boa utilização destes recursos traduz-se em melhorias que, direta ou indiretamente, permitem à sociedade manter níveis de desenvolvimento elevado. E só com desenvolvimento o crescimento pode ser sustentável. E o pior é que isto nunca aconteceu neste país.
De que serve construir dezenas e dezenas de autoestradas se não temos dinheiro para nelas circular, nem tão pouco para as pagar ou sustentar? O maior centro comercial da europa? A maior ponte da europa? E ter alguma coisa à nossa medida, não pode ser? É coisa de pobre? De que serve gastarmos milhões em formação se não temos empregos? E aeroportos sem aviões? E dezenas de estádios de futebol às moscas? E escolas sem alunos? Submarinos ou cortes na saúde? Tanques ou reformas? E parcerias feitas para o Estado ser prejudicado? Privatizações em cima do joelho? E os dinheiro que jorrou da UE durante décadas, em que foi investido? Snack bares atrás do sol-posto? Jipes para passear nos montes alentejanos? Não querem gastar a próxima tranche da Troika em plasticina e paus de giz? Quem gastou o que não devia? Quem gastou o que não tinha? Quem gasta o que não tem? Que futuro pensavam estas alminhas iluminadas que iriamos ter? Imbecis.
A forma abusiva, parola, irresponsável, impune, pacóvia, descontrolada, despesista, acéfala e em muitos casos socialmente 'criminosa' como sucessivas gerações de governantes têm vindo a desbaratar o património de todos, os bens e o dinheiro que deveria ser alvo de uma gestão cuidada e rigorosa, é a principal causa do estado de falência em que estamos. O novo-riquismo, a falta de visão, a falta de formação, qualidade e competência dos políticos portugueses é a principal causa desta crise. A génese desta crise é política. Mas infelizmente a irresponsabilidade destas pessoas é directamente proporcional às responsabilidades exigidas pelos mesmos aos portugueses, com as quais são permanentemente confrontados, sem terem culpa alguma. Comemos e calamos.
Gastassem menos, parolos.

"A melhor geração está de partida"

por Daniel Oliveira

Olhamos à nossa volta e vemos, todos os meses, milhares de jovens emigrar. Ouvimos amigos e filhos de amigos falar dos seus planos para partir. Não com a satisfação de quem procura novas experiências, mas com a frustração de quem sente que o País onde nasceu não lhe dá nem lhe dará no futuro qualquer oportunidade.
Comparamos muitas vezes esta emigração com a do passado. É incomparável. O que estamos a perder agora são as primeiras gerações de gente qualificada. Qualificada graças a um investimento que, no discurso dominante, é tida como um luxo incomportável.
O emigrante dos anos 60 vinha de meios rurais e era, em muitos casos, ou analfabeto ou próximo disso. O emigrante atual é jovem, qualificado e procura carreira, e não apenas dinheiro para sobreviver no estrangeiro e depois regressar. Segundo uma investigação da TL network e do Instituto de Ciências Sociais os emigrantes saem de Portugal cada vez mais jovens. Por isso, com cada vez menores laços emocionais com o País.
Esta vaga de emigração não terá apenas um efeito catastrófico no já desastroso equilíbrio demográfico do País. Terá efeitos profundos na sustentabilidade da segurança social, na competitividade da nossa economia, na capacidade de inovação e em todos os domínios do futuro de Portugal. Envelhece, desqualifica e atrasa o País.

A propósito dos ataques israelitas à Faixa de Gaza

Posted: 23 de nov. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , , 0 comentários


22 de Nov.2012

Owen Jones, jornalista do The Independent, ontem, no programa "BBC Question Time": claríssimo. 
Aliás, tão claro que até o próprio se surpreendeu com os aplausos que o seu comentário repercutiu:
Um espanto que evoca à memória uma observação mais antiga:
«During times of universal deceit, telling the truth becomes a revolutionary act.»
George Orwell

No painel de debate, além de Owen: Iain Duncan Smith MP, Yvette Cooper MP, Charles Kennedy e Deborah Meaden. Moderação de David Dimbleby. 
# Para assistir na íntegra: AQUI.

Usinas termoelétricas ficam abaixo das metas de geração de energia

Posted: 19 de nov. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , 0 comentários


Na sobra de diversos outros argumentos, a notícia no Estado de S.Paulo de hoje deveria ser suficiente para, pelo menos, fazer Dilma ponderar o ratio custo/eficácia da sua teima de assentar a exploração de energia em hidrelétricas e levar adiante, não apenas Belo Monte, como todo um gigantesco plano de construção de usinas na Amazônia. Diversificar as fontes e apostar em energias limpas alternativas é uma demanda premente, sobretudo diante das fragilidades e contingências a que, como o Brasil constata num quadro de seca, as hidrelétricas estão expostas.

Quase um mês depois de o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ser obrigado a acionar todas as térmicas existentes no País para preservar o nível dos reservatórios, algumas usinas ainda têm tido dificuldade para produzir o volume programado. Há unidades que não conseguiram produzir um único megawatt (MW) nesse período, o que fez a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) iniciar uma rígida fiscalização nas usinas.
Essas termoelétricas, movidas a óleo combustível, diesel e carvão, são contratadas para ficar em stand by para qualquer emergência no sistema elétrico, a exemplo da seca que o País vive atualmente (ler abaixo). Para ficarem paradas à espera de um chamado do ONS, elas ganham uma receita fixa mensal. Quando são acionadas, além da renda mensal, recebem também pelo custo do combustível, que é extremamente elevado - acima de R$ 500 o MW hora. Todo esse dinheiro sai do bolso dos brasileiros quando pagam a conta de luz.

Sapo mostra relações entre as pessoas mencionadas nos 2,5 milhões de artigos da Lusa

Posted: 15 de nov. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , 0 comentários


O portal Sapo vai disponibilizar uma ferramenta que mostra relações entre pessoas com base no número de vezes que estas foram mencionadas num mesmo artigo ao longo dos 25 anos de produção noticiosa da agência Lusa.
A novidade foi apresentada no arranque da sexta edição do Codebits, um evento para entusiastas da tecnologia que o Sapo organiza desde 2007 e que neste ano conta com 800 participantes reunidos no Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
A visualização interactiva das redes de relações entre pessoas (de chefes de Estado a desportistas, passando por artistas, economistas e políticos) foi criada a partir de cerca de 2,5 milhões de artigos da Lusa, correspondentes à totalidade do arquivo da agência, que foi fundada em finais de 1986 (como sucessora da ANOP) e que começou a publicar a 1 de Janeiro de 1987.

Greve Geral em Portugal: a noite de violência e o dia seguinte

Reportagem: quem é que atirou a primeira pedra?
por João Dias


Talvez estivessem demasiado exaltados para pensar nisso, mas os poucos manifestantes que permaneciam, ora de cócoras, ora de joelhos, a arrancar pedras da calçada em frente à Assembleia da República faziam-no com a ambição de um operário que gosta do seu trabalho.
A analogia não é assim tão descabida. Estabeleceu-se ali, a 15 metros do cordão policial, uma autêntica e espontânea linha de montagem, em que as pedras da calçada, prontamente arrancadas do chão, eram entregues a outros que as atiravam em direcção ao cordão policial e à Assembleia da República. Adequava-se a pergunta, com a dicção arrastada de Sérgio Godinho com José Mário Branco ao lado: “Que força é essa, que força essa, que trazes nos braços?”
Mas, talvez pela ausência de um maestro, nem todos os manifestantes cantavam a mesma canção. Alguns, primeiro de forma isolada e depois em conjunto, opuseram-se à expressão violenta adoptada por não mais do que 40 manifestantes. Um deles, subiu aos poucos degraus que o cordão policial ainda tinha poupado e gritou para os manifestantes: “Por favor, parem já com isso! Não lhes façam essa vontade!”. “Sai daí, palhaço!”, gritaram-lhe alguns dos manifestantes que tinham pedras nas mãos. “Se for preciso eu morro aqui, mas assim não!”, respondeu-lhes, sem efeito.
Nessa altura, faltavam 15 minutos para a polícia começar a carregar sobre os manifestantes. Já no dia seguinte, o subintendente da PSP de Lisboa, Luís Elias, referiu que a carga policial “foi precedida de avisos prévios aos manifestantes no sentido de repor a ordem pública e de deter os suspeitos da prática dos ilícitos criminais”. Foi também dada a ordem para os manifestantes abandonarem a zona e, não o fazendo, estariam a desobedecer a ordens da autoridade.

Ninguém ouviu o megafone a pilhas

Mas ninguém ouviu estes avisos, lançados por um polícia, um pouco abaixo do alto da escadaria da Assembleia da República, com o vão auxílio de um megafone a pilhas. Desde os poucos protestantes que atiraram pedras, aos ainda menos que os tentaram parar de forma activa, e sem esquecer a franca maioria de cerca de 5 mil manifestantes pacíficos, todos ficaram a saber destes avisos apenas quando chegaram a casa e ligaram a televisão – e não quando estavam prestes a serem sujeitos a uma carga policial que há muito tempo era coisa do estrangeiro.
Assim que a polícia avançou em força, as pessoas, que então permaneciam irredutíveis em frente à Assembleia da República, fugiram num pânico desenfreado, evacuando, em escassos segundos e num caos organizado, o largo de São Bento. As bastonadas, por norma acima da cintura, tornaram-se redundantes na tentativa de alcançar esse objectivo. Pelo caminho ficaram alguns manifestantes que a polícia já tinha identificado como violentos, recorrendo ao uso de agentes infiltrados, mas também idosos, como o Público pôde constatar. Entre estes, um homem de 70 anos foi atirado ao chão e agredido em todo o corpo por agentes policiais durante dois minutos.
A fuga continuou para as ruas que envolvem São Bento, sobretudo na Avenida D. Carlos I, que, percorrida ao longo dos seus cerca de 800 metros, leva até ao rio Tejo. Não era, porém, a altura mais indicada para o fazer. Alguns manifestantes, sempre em minoria e ao mesmo tempo em evidência, puxaram contentores e ecopontos para a estrada e atearam-lhes fogo. O lixo não tinha sido recolhido na noite anterior, e a combustão foi rápida, fácil de mais. À medida que o grupo avançava, era erguida uma barreira de contentores flamejantes, que chegaram a ser cinco.
Lá atrás, o cordão policial descia a avenida, garantindo, à medida que avançava, que não ficava ninguém para trás. À frente, sempre à frente, a maioria corria. Uma senhora com mais de 70 anos e com uma muleta a ampará-la, perguntava serenamente a um bombeiro: “Como é que eu agora faço para ir para casa?”. Não teve uma resposta concreta, o bombeiro estava atónito com o que via. Um dos seus colegas, ao volante do camião, filmava a rua com o telemóvel, com o fascínio de quem olha para os efeitos especiais de um filme e se convence de que aquilo que vê é mesmo a sério.

”Claro que tínhamos de carregar”

Pelo caminho, um polícia achou necessário justificar ao Público a carga policial que tinha acontecido há menos de uma hora. “O que é que estava à espera que nós fizéssemos? Estivemos a levar com pedras durante mais de uma hora, avisámos as pessoas de que ou paravam ou isto acontecia, e elas continuaram a destruir o imobiliário público. Claro que tínhamos de carregar. A culpa não é nossa, é de quem andou a votar sempre nos mesmos”. Perguntámos a outro agente se já estavam à espera disto. “Oh, claro!”, respondeu-nos, com um revirar de olhos de quem acha a pergunta escusada.
No largo Vitorino Nemésio, ao fundo da Avenida D. Carlos I e que dá lugar a um jardim, o cordão policial avança de forma dispersa quando repara que um dos seus estava deitado no chão, sem se conseguir mexer. Asseguraram a segurança do colega e, num grupo de cinco, talvez seis, repararam que estava um homem sentado num banco, a fumar um cigarro. Ficámos a saber, mais tarde, que era João Pires, sem-abrigo há oito anos. “Foste tu, nós sabemos que foste tu!”, gritaram-lhe os polícias, que não esperaram para ouvi-lo dizer que não tinha maneira ter deitado ao chão o polícia que, entretanto, estava a ser assistido pelo INEM. Foi agredido durante um minuto. Falámos com João Pires à saída do largo Vitorino Nemésio, quando este ainda coxeava curvado, agarrando as costelas do lado direito com uma mão e uma sandes embrulhada em celofane com a outra. “Oh, amigo, porque é que me bateram, eu não tenho nada a ver com isto”, dizia, com a voz chorosa, aos polícias por quem passava. “Eu nem sabia que havia protesto hoje, não tenho nada a ver com isto, eu estava aqui nesta zona a arrumar uns carros para ganhar uns trocos, depois sentei-me para fumar um cigarro, mais nada”, contou ao Público, que o acompanhou até ao prédio abandonado onde dorme e que agora tinha um cordão policial, mais um, junto à porta. “Oh, pá, querem ver que vou levar mais? Oh, amigos, eu não tenho nada a ver com isto, por amor de Deus”, lamentava-se.

Quem é que atirou a primeira pedra?

E, afinal, quem é que teve alguma coisa a ver com isto? Quem é que atirou a primeira pedra?
Não é fácil saber quem abriu as hostilidades entre os manifestantes e as forças policiais, mas ao longo de mais de uma hora de arremesso de objectos, sobretudo pedras, tornou-se mais claro quem os atirava.
Ainda que alguns estivessem de cara tapada e outros de mãos nos bolsos, alguns estivadores participaram na investida. Durante o desfile que os levou, juntamente com outros grupos e movimentos sociais, desde o Cais do Sodré até a São Bento, os estivadores vestiram uma camisola branca que os identificava enquanto grupo. Já em frente à Assembleia da República, e depois do discurso do secretário-geral da CGTP, o sindicalista Arménio Carlos, cada um tapou as tshirts brancas com outras camisolas, de forma a não serem facilmente identificados. Também com o rosto coberto, alguns jovens com símbolos anarquistas participaram de forma activa e ininterrupta na chuva de pedras atiradas contra a polícia.
Mas não foram os únicos. Também havia alguns homens e mulheres, cidadãos anónimos e sem qualquer aparente vínculo a movimentos sociais ou políticos, que num momento de pura catarse pegavam nas pedras que iam sendo retiradas da calçada e as mandavam contra o cordão policial, com insultos pelo meio.
A certa altura, um grupo de estivadores com pedras na mão interpela uma mulher de meia-idade, com roupas de marca passadas a ferro e um cabelo irrepreensivelmente tingido de grená. “Então, não quer atirar umas pedrinhas também?”, disseram-lhe, em tom de desafio.
“Porra, é o que mais me apetece, estes gajos não merecem outra coisa!”.

Reportagem: Um desfile de histórias enquanto se espera a decisão da juíza
por Cláudia Sobral

Era uma greve. Era uma manifestação. Acabou por ser algo completamente diferente para muitos do que na quarta-feira se juntaram à porta do Parlamento. Segundo a polícia, 21 pessoas foram detidas para identificação. Segundo os manifestantes, foram centenas. E nove delas (constituídas arguidas) passaram nesta quinta-feira pelo Campus da Justiça, em Lisboa, para serem ouvidas.
Enquanto aguardavam no tribunal, estes noves homens iam contando as suas histórias aos jornalistas. Como foram detidos, o pânico, as bastonadas, a noite que ficou por dormir.
Durante toda a manhã, um jovem de 21 anos não tirou os óculos escuros que escondiam um hematoma num olho. Foi uma bastonada que levou quando foi detido, que lhe deixou também um dente partido. Não nega que tenha atirado pedras aos polícias. Nem pode. Está tudo registado nas imagens recolhidas pela polícia durante o protesto em frente ao Parlamento.
Mas o pior não foi aí, foi na esquadra do Calvário, para onde foi levada a maior parte dos arguidos, conta. "Quando fui à casa de banho mandaram-me despir por causa de uma moeda de 20 cêntimos, eu disse que não tinha mais nada nos bolsos." Depois os agachamentos, as ordens para tossir. Ninguém estava a ver.
"Bateram-me nos rins, na nuca... Estavam furiosos comigo, apareci muito nas filmagens, a atirar pedras." O estudante conta que um dos agentes estava encapuzado - uma informação confirmada por outros jovens que estavam na mesma esquadra.
Mais nenhum foi agredido. Mas as queixas de maus tratos não acabam aqui. Um sindicalista reformado que esteve na mesma esquadra contou que foram muitas as agressões verbais aos mais novos. Um outro jovem, um artista plástico que participou na manifestação com a namorada, que não foi detida, mostrava os dedos, por onde tinha sido algemado, em vez dos pulsos: "Vou-te algemar assim que é assim que eu gosto." E apertaram tanto que deixou de sentir os dedos, que no dia seguinte continuavam roxos, marcados.
Um outro estudante de 23 anos queixava-se que tinha sido detido apenas por estar a filmar a polícia a carregar nos manifestantes. Sacudiram-lhe o braço, o telemóvel foi parar ao chão. Depois levaram-no e disseram que também ele tinha atirado pedras e garrafas aos agentes do corpo especial de intervenção da PSP, que impedia os manifestantes de avançarem escadaria acima.
Ao lado destes jovens havia também homens mais velhos, reformados. Um deles, antigo jardineiro na Câmara de Loures, tinha estado com os "camaradas" da CGTP nos piquetes de greve, horas antes de decidir atirar pedras aos polícias. E conta isto com um certo orgulho - as pedras eram "como bolas de pingue-pongue". Conta que um agente lhe disse que tinha idade para ser seu avô e que da parte dele estava perdoado.

Os noves arguidos

Durante os protestos de quarta-feira nove pessoas foram detidas e constituídas arguidas. Entre jovens estudantes e reformados sindicalistas, há os que admitem ter arremessado objectos contra a polícia, mas também quem parece ter apenas estado no lugar errado à hora errada. Um deles não quis falar. Aos outros, retiámos os nomes. Estas são as suas histórias, conforme eles as contaram.

Artista plástico, 27 anos
Nunca tinha estado numa manifestação, mas achou que não podia ficar em casa mais uma vez e foi com a namorada. Correu mal. Quando a polícia começou a carregar tentaram fugir. Já na Av. D. Carlos I pararam e entre o caos os polícias agarraram-no, deram-lhe bastonadas na cabeça. Passou horas num hospital, acompanhados de vários agentes e de um advogado.

Estudante, 23 anos
Estava só a filmar. O protesto, a polícia a carregar nos manifestantes. Um agente sacudiu-lhe o braço, o telemóvel foi parar ao chão. Na esquadra voltaram-lhe a pôr a máscara dos Anonymous que tinha na manifestação. Só para a fotografia, algemado.

Desempregado, 32 anos
Está sempre em todas as manifestações. E há-de estar "até que este Governo caia". Conta que ao ver os agentes prepararem-se para agredir um conjunto de "miúdos da universidade" estendeu as mãos: "Levem-me a mim". Foi parar ao chão, à bastonada. Ligaram-lhe a cabeça ainda junto a São Bento e levaram-no para uma esquadra.

Estudante e trabalhador, 21 anos
Atirou pedras aos polícias. Não tem como negá-lo: sabe que lhe conhecem a cara e está bem identificado nos vídeos. Quando tentava fugir dali apanharam-no e uma bastonada na cara deixou-o com um hematoma num olho e partiu-lhe um dente.

Jardineiro reformado, 64 anos
Sindicalista, esteve na manifestação com a CGTP. Também atirou pedras e di-lo a toda a gente. Sem medo, com um certo orgulho até. Prenderam-lhe mas não lhe bateram. Um agente disse-lhe que tinha idade para ser avô dele.

Informático, 31 anos
É o único estrangeiro entre os detidos. "Não sou violento, sou um verdadeiro budista", repete ainda perturbado com o que aconteceu. Foi à manifestaçao como faria no seu país, Itália, ou em qualquer lugar onde haja um protesto.

Desempregado, 28 anos
Não participou na manifestação. Conta que descia uma rua em direcção a São Bento justamente quando tudo aconteceu. "Vi um polícia com uma arma apontada em direcção a mim, entrei em pânico e reagi. Nem sei o que atirei: se uma pedra, uma garrafa ou uma banana." Foi detido muito depois, já junto ao Cais do Sodré.

Reformado da marinha mercante, 65 anos
Durante a noite esteve com a CGTP nos piquetes de greve. Conta que foi detido depois de ter atirado uma garrafa de cerveja de litro para o lado quando se preparava para fugir da confusão, perto da Fundação Mário Soares.

Cf.