Espumas . Notas . Pasquim . Focus . Sons . Web TV . FB
Mostrando postagens com marcador podcasts. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador podcasts. Mostrar todas as postagens
Posted: 24 de mar. de 2014 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , 0 comentários


Os 50 anos do poema “Estatutos do Homem” e aniversário do poeta Thiago de Mello serão comemorados nesta quarta-feira (26) a partir das 17h, no espaço Cultural da Livraria Valer, na Avenida Ramos Ferreira, no centro. Na solenidade será dada abertura a semana de comemoração e exposição “Thiago de Mello/ 50 anos – Estatutos do homem”.

A exposição faz parte de uma programação e vai reunir dezenas de peças do arquivo pessoal do poeta amazonense. A mostra ficará aberta para visitação pública até o dia 29 de março, quando acontecerá o Café da Manhã comemorativo. No programa, consta a execução do poema musicado pelo maestro AdroaldoCauduro, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA); leituras poéticas; e mesa redonda sobre Thiago e sua obra, com participação dos escritores Zemaria Pinto, Elson Farias e Tenório Telles.


Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 


Artigo III  
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança. 


Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu. 


        Parágrafo único:  
        O homem, confiará no homem
        como um menino confia em outro menino. 


Artigo V  
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa. 


Artigo VI  
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 


Artigo VII  
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo. 


Artigo VIII   
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor. 


Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura. 


Artigo X  
Fica permitido a qualquer  pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco. 


Artigo XI 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã. 


Artigo XII   
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela. 


        Parágrafo único:
        Só uma coisa fica proibida:
        amar sem amor. 


Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou. 


Artigo Final.   
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

O Poema

“Estatutos do homem” foi escrito em Santiago do Chile, em abril de 1964, na efervescência do regime militar, logo após Thiago ler o primeiro ato institucional da revolução de 1964. O poema ocupa na obra poética de Thiago de Mello um lugar de destaque. O texto é tratado como se fosse um título independente, um livro. Assumiu vida própria em relação ao livro de que faz parte ˗˗ Faz escuro, mas eu canto. Isso se deve ao seu conteúdo profundamente humano, evocativo do sonho mais caro ao homem: a construção de um mundo justo, fraterno e igualitário. É a representação poética do projeto utópico de redenção e civilização. O oema foi publicado em mais de 30 idiomas e serviu de fonte de inspiração para diversos artistas: o maestro Claudio Santoro o transformou em peça musical; o “Ballet Stagium” em espetáculo de dança. Diversos pintores o retrataram, como a chilena AgnaAguadé.


* Thiago de Mello declamando, acompanhado ao piano pelo Duo GisBranco (Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco), no Circo Voador, Rio de Janeiro, na abertura do Poesia Voa 2.0 que integrou o Festival Poesia Direitos Humanos em 10.Dez.2006.

O Poeta

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha-AM, 1926) é um dos maiores poetas brasileiros vivos. Dono de um estilo forte, simples e lírico, Thiago tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Sua poesia ficou muito conhecida pelo seu engajamento no período da ditadura com os livros “A Canção do Amor Armado”, “Faz escuro mais eu canto” e “Poesia comprometida com a minha e tua vida”. “Faz Escuro, mas eu Canto” foi transformado em show e tornou-se um libelo da luta pela liberdade naqueles anos escuros. Preso durante a ditadura, exilou-se no Chile, e se tornou bom amigo de Pablo Neruda. Com o fim do regime militar voltou a sua pequena cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje. Thiago traduziu para o português obras de Neruda, Cesar Vallejo, Ernesto Cardenal.
“Sempre, desde o meu primeiro livro, fui um poeta comprometido com vida do homem (a minha de permeio). Escrevo sobre o que me comove, o que instiga a minha sensibilidade ou a minha inteligência. O que me alegra ou me dói. Quando a ditadura militar, com o seu terror cultural e a indignidade da tortura, feriu a própria dignidade da condição humana, os meus versos se ergueram em defesa do homem. Nunca fui panfletário (nada tenho contra o panfleto bem sucedido) nem populista. Não há porque negar que os meus livros Faz Escuro Mas Eu Canto e A Canção do Amor Armado me fizeram popular. O Faz Escuro vai hoje na sua vigésima edição. Não tenho culpa. “Escrevo sobre o silêncio sonoro da floresta ou sobre a menina que dorme com fome. Sobre as ancas da moça que passa ou sobre o milagre do telescópio que fotografou a luz fossilizada dos primeiros estilhaços do big-bang. Sobre a dor dos deserdados e a esperança de quem tem fé.”

Thiago de Mello
#

Evento: Abertura da semana comemorativa aos 50 anos do poema Estatutos do homem e aniversário do poeta Thiago de Mello
Data: 26 de março de 2014 (quarta-feira)
Horário: 17h
Local: Espaço Cultural da Livraria Valer ─ Avenida Ramos Ferreira, 1195 ─ Centro

Pelo menos 300 mil desempregados inscritos no IEFP sem nenhum subsídio, mas BCE segue elogiando

Posted: 8 de out. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , 0 comentários

Leio no Público:
Cerca de 300 mil portugueses dos mais de 640 mil inscritos nos centros de emprego do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) não beneficiam do subsídio de emprego nem do Rendimento Social de Inserção (RSI), também conhecido como “rendimento mínimo”. As pessoas nesta situação representam 46% das que procuram trabalho através do IEFP, segundo a rádio TSF, que avançou hoje a notícia.
Os últimos números que tinham vindo a público indicavam que estavam nestas circunstâncias cerca de 170 mil portugueses, mas este universo – só nos números relativos ao IEFP – é bem maior, sendo que há ainda que contar com as pessoas que, não tendo emprego, não estão inscritas nos centros do IEFP.
No IEFP contavam-se, em Agosto, 640 mil desempregados registados nos seus centros de emprego. Em Junho, o número de portugueses desempregados e inactivos que desistiram de procurar trabalho ultrapassou o valor histórico de um milhão de pessoas.
O subsídio de desemprego, normal ou social, apenas chega a 360 mil, lembra ainda a TSF. Na prática, dois terços dos portugueses sem qualquer actividade remunerada não recebem subsídio de desemprego e apenas uma minoria está a receber o RSI – cerca de 200 mil.

Poucas horas depois, leio no Expresso:

O Banco Central Europeu (BCE) elogiou hoje as reformas laborais ocorridas em Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha e Itália, por conterem "medidas importantes para aumentar a flexibilidade nas negociações laborais e reduzir a excessiva proteção do emprego".
De acordo com o estudo, Os mercados laborais da zona euro e a crise publicado hoje, o BCE considerou que o mercado laboral na zona euro respondeu de uma forma heterogénea à crise. Ainda assim, a instituição liderada por Mario Draghi considera que as reformas realizadas em Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha e Itália constituem os primeiros passos para melhorar a competitividade destes países e do conjunto da zona euro.

Por conta destas políticas, as pessoas perdem os seus empregos. Com a contracção do mercado de trabalho nunca mais conseguem encontrar nenhum, como o prova o aumento sem precedentes da taxa de desemprego de longa duração. Com o tempo estas pessoas perdem direito a todo e qualquer subsídio ou apoio social. Ficam sozinhas e entregues a si próprias porque o Estado lava daí as suas mãos. É-lhes pedido que sobrevivam sem um único cêntimo de rendimento. O desafio que têm pela frente passa a ser comer sem terem dinheiro, sustentar um tecto, educar os filhos, cuidar dos seus velhos e da sua própria saúde sem terem dinheiro. Porque tudo tem um prazo, a começar pelos subsídios e apoios sociais, e quem o define é o Estado. Independentemente de descontarem toda a vida laboral para  terem direito a protecção social, é-lhes ditado um prazo limite para dela usufruírem. E quando o prazo acaba, o Estado está-se nas tintas para indagar das razões pelas quais as pessoas continuam desempregadas. Está-se nas tintas para os milhares de postos de trabalho que entretanto as suas políticas exterminaram, para os milhares de outros desempregados que entretanto produziram, para o facto de serem milhares atrás do mesmo: daquilo que já não existe - um emprego. Nessa altura, o Estado não quer saber das dificuldades crescentes que fazem com que encontrar trabalho seja pior do que achar uma agulha num palheiro. Decide que se acabou o tempo e pronto: cada um que se amanhe. Sozinho, seguramente. Sem o Estado, como ponto assente. Trabalharam a vida inteira? Descontaram para a Segurança Social? Paciência! Agora vivam do ar porque o tempo esgotou-se.

Ao mesmo tempo que colocam no acordo de empréstimo financeiro medidas que promovem a «flexibilidade nas negociações laborais» e permitem «reduzir a excessiva protecção do emprego» (que aumentam o desemprego, leia-se), UE, FMI e BCE exigem uma redução drástica nas despesas sociais (apoios a quem é lançado no desemprego, leia-se). O resultado está à vista: em Portugal, na Espanha, na Grécia, na Irlanda, na Itália. Por todo o Velho Continente, aliás, que mesmo não se encontrando formalmente sob 'resgate', se rege pela mesma lógica de austeridade cega.
O elogio do BCE traduz o supremo desplante de aplaudir aos Estados uma actuação que está a conduzir ao sofrimento galopante dos seus povos. Flexibilizadas as negociações laborais, os números do desemprego dispararam. Reduzida a protecção do emprego ao mínimo, as carências humanas e sociais multiplicaram-se e gritam fome e desespero nas ruas das principais capitais europeias. Espantosamente, e ao contrário dos seus planos, nem por isso a produtividade aumenta, nem por isso a economia cresce e a crise se esbate.
Nestes termos, o elogio do BCE está longe de constituir motivo de jubilo. Primeiro porque aplaudindo a  ineficácia apenas vem incentivar a mais da mesma incompetência. Depois porque se congratula pelo sucesso conseguido na redução de emprego e protecção social.
Aquilo que impressiona é que o BCE não se dê conta do tremendo insulto que, por via de um tal elogio aos Governos, dirige às populações.
Esta Europa só pode estar louca, olhando para cada indivíduo como um amontoado de custos e uma fonte interminável de receitas. Estes dirigentes europeus só podem estar loucos, convencidos que estão que a União Europeia se faz arregimentando Governos e exterminando os seus povos.

Esta Europa e estes dirigentes europeus só podem estar loucos!


Cf. também:


# Fórum TSF - "Desemprego e pobreza": OUVIR AQUI.

D. Januário Torgal Ferreira: o Governo «monta os burros da feira e depois diz que são bestiais»

Posted: 5 de out. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários


Oiço na TSF:

O bispo das Forças Armadas considerou que o ministro das Finanças usou de «linguagem salazarista» ao se referir aos portugueses como o «melhor povo do mundo».
Em declarações à TSF, D. Januário Torgal Ferreira considerou que o Governo usa de «linguagem prudencial» e que «monta os burros da feira e depois diz que são bestiais».
«Nem andam a zurrar, nem levantam as patas. Fazem para aí uns barulhos de vez em quando, mas aceitam tudo. São o melhor do mundo», acrescentou.
Para Torgal Ferreira, este tipo de linguagem vem na linha da do primeiro-ministro quando este «agradeceu a resignação dos pobres, humildes e ofendidos». [OUVIR AQUI]

Ikea 'apaga' mulheres nos catálogos para a Arábia Saudita

Posted: 3 de out. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários

Leio no Expresso:

Gigante sueco do mobiliário está debaixo de fogo porque na edição 2013 do seu catálogo para a Arábia Saudita foram retiradas as imagens com mulheres.

A propósito do assunto, fica a crónica genial do Bruno Nogueira, "Mobiliário só para homens",
no Tubo de Ensaio de hoje: OUVIR AQUI.

Assistindo na TV | A semana portuguesa em revista

Posted: 30 de set. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , 0 comentários


Governo Sombra (TSF / TVI24) - emissão de 28.09.2012


O Eixo do Mal (SIC Notícias) - emissão de 30.09.2012

Vale a pena conferir também:
Bloco Central (TSF) - OUVIR

A música de Pierre Aderne ao serviço da lusofonia

Posted: 28 de set. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários


Um brasileiro nascido em França fez um documentário e um disco para que o Brasil nos entenda melhor. "Bem me Quer, Mar me Quer" mostra que há águas que unem sem afogar

Há quase uma década, quando cantou em Portugal pela primeira vez, tinha apenas um disco em seu nome. Nascido em França (Toulouse) de mãe brasileira e pai português (de Ourém), mas com a infância passada entre Brasília e o Rio de Janeiro, Pierre Aderne não tardou a ir ficando por cá uns tempos, até arranjar mesmo uma casa. Nestes anos lançou uma trilogia dedicada às águas: Casa de Praia (2005), Alto Mar (2007) e Água Doce (2010), participando pelo meio em vários projectos entre os quais o do grupo brasileiro Doces Cariocas, que lançou (também em Portugal) um CD homónimo em 2008.
Agora, em 2012, mesmo finda a trilogia, a inspiração marítima serviu-lhe para um novo projecto: o disco Bem me Quer, Mar me Quer. Que por sua vez nasceu de um documentário, feito entre Portugal e Brasil: Música Portuguesa Brasileira, uma forma de dar a volta à velha sigla MPB (Música Popular Brasileira) mas procurando pontos de ligação entre culturas e géneros musicais. O filme estreou-se no Canal Brasil no dia 15, passou ontem à noite no Douro Film Harvest, em Favaios, e terá estreia lisboeta em Novembro, no São Jorge.


Pierre Aderne folheia o livrinho do CD como quem mostra um álbum de fotografias. Uma foto tirada num festival na Galiza, uma casa na Zambujeira do Mar, músicos, flores, azulejos, texturas. E, fotografados no chão, os despojos arroxeados de uma árvore que todos os anos embeleza Lisboa. "Jacarandás, que a gente já não tem lá no Brasil". O disco, diz ele, acabou por ser "um subproduto do documentário", mas contraria o que essa ideia possa trazer de pejorativo.
Com o documentário, Pierre quis "mostrar onde é que a música brasileira se encontrava com a portuguesa, sem que o Brasil soubesse disso." E diz que "alguns portugueses também não sabiam até onde é que essa mistura se deu." O fio condutor da história foi "a tertúlia musical, os saraus que eu já fazia na minha casa em Ipanema há oito anos. No decorrer das filmagens, vi que estávamos falando mais num novo sotaque da música portuguesa do que qualquer outra coisa. Quando eu vim para cá fazer o primeiro show no B.Leza, em 2003 ou 2004, vi que havia uma africanidade que já era lisboeta, alfacinha. Depois, conversando com o Tito [Paris], a Sara [Tavares] e o Luís Caracol, que é filho de retornados angolanos e que nasceu no sub-guetto africano, pensei: engraçado, a música do Tito já não é mais só de Cabo Verde, a da Sara tão-pouco, e senti que, mesmo na nova cena do fado sente-se a influência que a música brasileira e a africana têm: a malemolência no jeito de cantar, um swing que há muitos anos não havia".

Fernando Lopes (1935 - 2012)

Posted: 2 de mai. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , 0 comentários


"Notas de um 25 de abril com chuva"

por Fernando Alves

foto de Manuel Almeida
Ontem li no Express (um portal belga de negócios) uma ideia perturbadora colhida de um jornal de Frankfurt por Mylène Vandecasteele. Para lá da crise económica e dos perigos que cercam o euro, "a Europa começa a enfrentar uma outra ameaça, ainda discreta: o fim da democracia".
Tinha acabado de escutar, da boca do presidente, a longa lista de sucessos portugueses de uma década (que não o impediu de um diagnóstico cáustico, há um ano). Cavaco enalteceu, desta vez, o cartão pré-pago e a via verde do orgulho nacional mas não retomou a reflexão quantos aos limites para o sacrifício. Mais razoável se afigura que o lider da bancada maior da oposição tenha referido os limites do consenso. Não vale tudo, não pode valer tudo.
Um deputado da maioria exibiu, entretanto, o "certificado" que o povo lhe dera para estar ali e, do mesmo passo, sustentou que "o 25 de Abril tem autores mas não tem donos". Um dos "autores" respondeu-lhe que o povo não passou certificado para a "entrega de soberania". O "autor" recusou a pretensão de ser dono daquilo que, desde o próprio dia inaugural, "pertence ao povo".
E uma mulher antiga disse, na Avenida: "aquilo por que lutámos não existe agora". Afinal, talvez o deputado da maioria devesse ter referido, em vez de certificado, senhas de racionamento. E não penso em pão para a fome do estômago, o pão que começa a faltar nos bancos alimentares.
Outras notas alinhadas por Mylène Vandecasteele, num 25 de Abril à chuva: As regras da democracia supõem que os cidadãos possam dar com frequência uma palavra sobre a política, também sobre a política económica e sobre as medidas que estão a ser tomadas. Mas, cada vez mais, essa liberdade de expressão "é vista como um factor de instabilidade pelos mercados financeiros". Mylène lembra o facto de, em França, os mercados terem já começado a sancionar a popularidade de Hollande. Por isso ela escreve, em título: "Democracia na U.E: o povo é um elemento perturbador". Entretanto cita Joseph Vogel, um professor de literatura, que a propósito das decisões tomadas quase exclusivamente em resultado da negociação entre governos, banqueiros e banca central, fala em "sovietes da finança".
Ontem não vimos, ainda não vimos, banqueiros de cravo na lapela. Mas foi estranho vermos cravos na lapela de alguns que Joseph Vogel talvez incluisse num qualquer "soviete das finanças".
foto de Manuel Almeida
NOTA: A leitura não dispensa OUVIR AQUI.

Entrevista a Manuel Alegre: um novo livro, a poesia em tempo de crise e as críticas à destruição do Estado Social

Posted: 19 de abr. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , , , 0 comentários


via SIC Notícias - 18.04.2012

Nada está escrito, o novo livro de poesia de Manuel Alegre foi apresentado, esta segunda-feira, na Livraria Leya na Buchholz, em Lisboa. Ao longo de 88 páginas, o poeta e político escreveu, com ritmo - como gosta de frisar -, 55 poemas, divididos em sete capítulos. Trata-se do regresso do ex-candidato à presidência da República à poesia, depois de ter escrito Nambuangongo Meu Amor, publicado em 2008.
Na entrevista, além de declamar um dos novos poemas e falar sobre o livro e a poesia como arma de combate político, reflecte sobre a situação do país e a política do Governo, a crise mundial e o ataque generalizado ao Estado Social.

De quebra, fica outra conversa, ontem, na Antena 1, um dia depois do lançamento do novo livro. Apesar de mais breve, Alegre ganha mais lastro quando fala «do país de bandeira esfarrapada» e termina a declamar "A balada dos aflitos", poema dedicado à troika que abre Nada está Escrito.

# Para ouvir AQUI.

Entrevista de Carvalho da Silva : sobre a crise em Portugal e no Mundo

Posted: 17 de abr. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , , 0 comentários


via SIC Notícias - 18.04.2012

Ex-secretário geral da CGTP começou por ser chamado a comentar as propostas do dia do PS e as últimas previsões do FMI, mas foi muito além do repto. Como geralmente, aliás. Vale a pena assistir e equacionar com tempo os vectores de compreensão da crise que inteligentemente aponta. Vale a pena ponderar as «onze crises» que defende estarem entre-cruzadas no actual cenário de recessão. Vale a pena ver como quem sabe daquilo que fala, como quem fala com o fundamento que só a combinação da experiência/observação/estudo permite, esmaga em absoluto e sem nenhum esforço a prosápia superficial e pela rama de quem apenas gosta de se ouvir, enquanto vai alinhavando chavões repescados aqui e ali. Não fosse o habitual ruído causado por Mário Crespo e o tempo que consumiu ao entrevistado – que, delicadamente, lá se viu na obrigação de tentar corrigir erros de compreensão graves, imprecisões de terminologia várias, uso erróneo e sistemático de conceitos e outros inaceitáveis iguais, para evitar que o entrevistador se afundasse ainda mais na exposição grosseira da sua altaneira ignorância – e a conversa com Carvalho da Silva poderia ter sido ainda mais rica e proveitosa para quem assistia de casa.

Para compensar o ruído, fica esta outra entrevista (mais limpa!), ao programa "Gente que Conta", do último Domingo, conduzida por Paulo Baldaia para a TSF e João Marcelino, para o Diário de Noticias.

via TSF - 15.04.2012

# Para ouvir na íntegra: AQUI.

NOTA: A propósito do novo 'Observatório sobre Crises e Alternativas', referido nas entrevistas, conferir aqui e aqui.

Criticas e sugestões deste Governo para baixar o preço dos combustíveis... quando estava na oposição!

Posted: 7 de abr. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , 0 comentários

Antes da semana começar, uma coisa já é certa: os combustíveis voltam a aumentar 2ª feira. O preço da gasolina deverá atingir novos máximos históricos, subindo 1,5 cêntimos, enquanto o gasóleo passa a custar mais 0,5 cêntimos. Para situar: na 5ª feira, o preço médio da gasolina 95 já estava em 1,724 euros e o gasóleo chegava aos 1,478 euros.
O Governo insiste em «sacudir a água do capote» (para usar as palavras do próprio primeiro-ministro) e em não fazer nada. É certo que os valores internacionais do crude ditam as regras, mas existem medidas internas que podem ser tomadas para atenuar o efeito destes movimentos. Tanto Passos Coelho como Paulo Portas sabem disso. Ambos têm, aliás, várias propostas mas só quando estão... na oposição:


via SIC Notícias - 07.04.2012

Para espevitar uma resposta, podiam evocar-se alguns exemplos da gravidade da situação:


Mas como Passos Coelho não aprecia gente «piegas», pode ser que a coisa lá vá se for noutro tom. Quem sabe seguindo o exemplo do Ricardo Araújo Pereira e começando a gritar: "... Vão roubar, gatunos!!... Gatunos! Gatunagem!!":

"O preço da gasolina" - rúbrica 'Mixórdia de Temáticas" da Rádio Comercial (05.04.2012)

Em Portugal, nenhum médico respondeu a apelo para voluntariado a doentes oncológicos

Posted: 5 de abr. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários

Leio no Público:

Durante o mês de Março, a União Humanitária dos Doentes com Cancro (UHDC) promoveu uma campanha de admissão de médicos voluntários para ajudarem nas valências gratuitas do Núcleo de Apoio ao Doente Oncológico e na Linha Contra o Cancro. Nenhum médico respondeu ao apelo, lamenta a associação. (...) Actualmente são mais de dez as chamadas diárias para pedir apoio médico. “Cada vez aumentam mais as doenças oncológicas, cada vez há mais procura”, acrescenta.
A UHDC, que assinala no próximo sábado, Dia Mundial da Saúde, o seu 13º aniversário, criou a primeira linha telefónica do país de apoio a doentes com cancro, disponibilizou 9000 consultas de apoio psicológico, recebeu 20 mil chamadas para apoio a doentes com cancro e presta 14 valências gratuitas de apoio a doentes e familiares.
Só no último ano, a UHDC, que sobrevive exclusivamente de donativos e do trabalho dos voluntários, realizou 968 consultas de apoio psicológico, 1200 consultas de apoio hospitalar, 160 consultas de apoio médico, 44 consultas de apoio domiciliário e 44 consultas de apoio multidisciplinar a crianças com cancro, tendo ainda recebido 1936 chamadas de doentes oncológicos.

Vale escutar o Fórum TSF, do último dia 2 de Abril., e o debate aberto conduzido pelo Manuel Acácio sobre Política de saúde para a área oncológica, que teve como ponto de partida estudo elaborado por vários especialistas oncológicos.Testemunhos essenciais, de doentes, familiares, ouvintes em geral, bem como médicos, técnicos hospitalares e responsáveis do Governo. Essencial!
Sinopse: Queremos saber se o Estado está a cumprir o seu dever no tratamento e apoio aos doentes com cancro. Os principais especialistas médicos nesta área apontam falhas no sistema e defendem reformas urgentes para que todos os doentes sejam tratados de forma eficiente [parte 1 e parte 2].

# Para OUVIR AQUI.

Para ajudar a enquadrar um pouco a gravidade da situação:


De quebra vale assistir ao debate da última Segunda-feira no programa Prós e Contras, da RTP, sobre a actual política de saúde e a reforma hospitalar em curso.

# Para VER AQUI: 1ª parte | 2ª parte ou AQUI: 1ª parte | 2ª parte

    Entrevista a Lula, 24h após notícia de remissão do tumor: «Sem voz estaria morto!»

    Posted: 30 de mar. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , , 0 comentários

    A Mônica Bergamo obteve um furo e tanto: conseguiu que as portas do quarto de Lula no hospital Sírio Libanês se abrissem e conversou com o ex-presidente em exclusivo. Recordando: Lula não concedia entrevistas a ninguém desde o início dos tratamentos, sendo que esta é a primeira e acontece 24h após o anúncio público da remissão do tumor. Esta manhã, a Mônica contou a Boechat, na antena da Band News FM, como foi o encontro e partilhou as suas impressões sobre o Lula que a recebeu: OUVIR AQUI.
    Segue a entrevista na íntegra.

    Lula depois da última sessão de radioterapia, em 17 de Fev. foto de Ricardo Stuckert
    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que teve mais medo de perder a voz do que de morrer, após a descoberta do câncer na laringe. "Se eu perdesse a voz, estaria morto."
    Um dia depois da notícia de que o tumor desapareceu, ele recebeu a Folha de S.Paulo para uma entrevista exclusiva num quarto do hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde faz sessões de fonoaudiologia.
    Lula comparou a uma "bomba de Hiroshima" o tratamento que fez, com sessões de químio e radioterapia. Ele emocionou-se ao lembrar da luta do vice-presidente José Alencar (1931-2011), que morreu de câncer há exatamente um ano. "Hoje é que eu tenho noção do que o Zé Alencar passou."
    Quase 16 quilos mais magro e com a voz um pouco mais rouca que o normal, o ex-presidente ainda sente dor na garganta e diz que sonha com o dia em que poderá comer pão "com a casca dura".
    A entrevista foi acompanhada por Roberto Kalil, seu médico pessoal e "guru", pelo fotógrafo Ricardo Stuckert e pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto.

    [ENTREVISTA]

    Como o sr. está?
    O câncer está resolvido porque não existe mais aqui [aponta para a garganta]. Mas eu tenho que fazer tratamento por um tempo ainda. Tenho que manter a disciplina para evitar que aconteça alguma coisa. Aprendi que tanto quanto os médicos, tanto quanto as injeções, tanto quanto a quimioterapia, tanto quanto a radioterapia, a disciplina no tratamento, cumprir as normas que tem que cumprir, fazer as coisas corretamente, são condições básicas para a gente poder curar o câncer.

    Foi difícil abrir mão...
    Hoje é que eu tenho noção do que o Zé Alencar passou. [Fica com a voz embargada e os olhos marejados]. Eu, que convivi com ele tanto tempo, não tinha noção do que ele passou. A gente não sabe o que é pior, se a quimioterapia ou a radioterapia. Uns dizem que é a químio, outros que é a rádio. Para mim, os dois são um desastre. Um é uma bomba de Hiroshima e, o outro, eu nem sei que bomba é. Os dois são arrasadores.

    O sr. teve medo?
    A palavra correta não é medo. É um processo difícil de evitar, não tem uma única causa. As pessoas falam que é o cigarro [que causa a doença], falam que é um monte de coisa que dá, mas tá cheio de criancinha que nasce com câncer e não fuma.

    Qual é a palavra correta?
    A palavra correta... É uma doença que eu acho que é a mais delicada de todas. É avassaladora. Eu vim aqui com um tumor de 3 cm e de repente estava recebendo uma Hiroshima dentro de mim. [Em alguns momentos] Eu preferiria entrar em coma.

    Kalil [interrompendo] - Pelo amor de Deus, presidente!

    Em coma?
    Eu falei para o Kalil: eu preferiria me trancar num freezer como um carpaccio. Sabe como se faz carpaccio? Você pega o contrafilé, tira a gordura, enrola a carne, amarra o barbante e coloca o contrafilé no freezer e, quando ele está congelado, você corta e faz o carpaccio. A minha vontade era me trancar no freezer e ficar congelado até...

    Sentia dor?
    Náusea, náusea. A boca não suporta nada, nada, nada, nada. A gente ouvindo as pessoas [que passam por um tratamento contra o câncer] falarem não tem dimensão do que estão sentindo.

    Teve medo de morrer?
    Eu tinha mais preocupação de perder a voz do que de morrer. Se eu perdesse a voz, estaria morto. Tem gente que fala que não tem medo de morrer, mas eu tenho. Se eu souber que a morte está na China, eu vou para a Bolívia.

    O sr. acredita que existe alguma coisa depois da morte?
    Eu acredito. Eu acredito que entre a vida que a gente conhece [e a morte] há muita coisa que ainda não compreendemos. Sou um homem que acredita que existam outras coisas que determinam a passagem nossa pela Terra. Sou um homem que acredita, que tem muita fé.

    Mesmo assim, teve um medo grande?
    Medo, medo, eu vivo com medo. Eu sou um medroso. Não venha me dizer: 'Não tenha medo da morte'. Porque eu me quero vivo. Uma vez ouvi meu amigo [o escritor] Ariano Suassuna dizer que ele chama a morte de Caetana e que, quando vê a Caetana, ele corre dela. Eu não quero ver a Caetana nem...

    Qual foi o pior momento neste processo?
    Foi quando eu soube. Vim trazer a minha mulher para um exame e a Marisa e o Kalil armaram uma arapuca e me colocaram no tal de PET [aparelho que rastreia tumores]. Eu tinha passado pelo otorrino, o otorrino tinha visto a minha garganta inflamada.
    Eu já estava há 40 dias com a garganta inflamada e cada pessoa que eu encontrava me dava uma pastilha No Brasil, as pessoas têm o hábito de dar pastilha para a gente. Não tinha uma pessoa que eu encontrasse que não me desse uma pastilha: 'Essa aqui é boa, maravilhosa, essa é melhor'. Eu já tava cansado de chupar pastilha.
    No dia do meu aniversário, eu disse: 'Kalil, vou levar a Marisa para fazer uns exames'. E viemos para cá. O rapaz fez o exame, fez a endoscopia, disse que estava muito inflamada a minha garganta. Aí inventaram essa história de eu fazer o PET. Eu não queria fazer, eu não tinha nada, pô. Aí eu fui fazer depois de xingar muito o Kalil.
    Depois, fui para uma sala onde estava o Kalil e mais uns dez médicos. Eu senti um clima meio estranho. O Kalil estava com uma cara meio de chorar. Aí eu falei: 'Sabe de uma coisa? Vocês já foram na casa de alguém para comunicar a morte? Eu já fui. Então falem o que aconteceu, digam!' Aí me contaram que eu tinha um tumor. E eu disse: 'Então vamos tratar'.

    Existia a possibilidade de operar o tumor, em vez de fazer o tratamento que o senhor fez.
    Na realidade, isso nem foi discutido. Eles chegaram à conclusão de que tinha que fazer o que tinha que fazer para destruir o bicho [quimioterapia seguida de radioterapia], que era o mais certo. Eu disse: 'Vamos fazer'.
    O meu papel, então, a partir dessa decisão, era cumprir, era obedecer, me submeter a todos os caprichos que a medicina exigia. Porque eu sabia que era assim. Não pode vacilar. Você não pode [dizer]: 'Hoje eu não quero, não tô com vontade'.

    O senhor rezava, buscou ajuda espiritual?
    Eu rezo muito, eu rezo muito, independentemente de estar doente.

    Fez alguma promessa?
    Não.

    Existia também uma informação de que o senhor procurou ajuda do médium João de Deus.
    Eu não procurei porque não conhecia as pessoas, mas várias pessoas me procuraram e eu sou muito agradecido. Várias pessoas vieram aqui, ainda hoje há várias pessoas me procurando. E todas as que me procurarem eu vou atender, conversar, porque eu acho que isso ajuda.

    E como será a vida do sr. a partir de agora? Vai seguir com suas palestras?
    Eu não quero tomar nenhuma decisão maluca. Eu ainda estou com a garganta muito dolorida, não posso dizer que estou normal porque, para comer, ainda dói.
    Mas acho que entramos na fase em que, daqui a alguns dias, eu vou acordar e vou poder comer pão, sem fazer sopinha. Vou poder comer pão com aquela casca dura. Vai ser o dia!
    Eu vou tomando as decisões com o tempo. Uma coisa eu tenho a certeza: eu não farei a agenda que já fiz. Nunca mais eu irei fazer a agenda alucinante e maluca que eu fiz nesses dez meses desde que eu deixei o governo. O que eu trabalhei entre março e outubro de 2011... Nós visitamos 30 e poucos países.
    Eu não tenho mais vontade para isso, eu não vou fazer isso. Vou fazer menos coisas, com mais qualidade, participar das eleições de forma mais seletiva, ajudar a minha companheira Dilma [Rousseff] de forma mais seletiva, naquilo que ela entender que eu possa ajudar. Vou voltar mais tranquilo. O mundo não acaba na semana que vem.

    Quando é que o senhor começa a participar da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo?
    Eu acho o Fernando Haddad o melhor candidato. São Paulo não pode continuar na mesmice de tantas e tantas décadas. Eu acho que ele vai surpreender muita gente. E desse negócio de surpreender muita gente eu sei. Muita gente dizia que a Dilma era um poste, que eu estava louco, que eu não entendia de política. Com o Fernando Haddad será a mesma coisa.

    O senhor vai pedir à senadora Marta Suplicy para entrar na campanha dele também?
    Eu acho que a Marta é uma militante política, ela está na campanha.

    Tem falado com ela?
    Falei com ela faz uns 15 dias. Ela me ligou para saber da saúde. Eu disse que, quando eu sarar, a gente vai conversar um monte.

    E em 2014? O senhor volta a disputar a Presidência?
    Para mim não tem 2014, 2018, 2022. Deixa eu contar uma coisa para vocês: eu acabei de deixar a Presidência da República, tem apenas um ano e quatro meses que eu deixei a Presidência.
    Poucos brasileiros tiveram a sorte de passar pela Presidência da forma exitosa com que eu passei. E repetir o que eu fiz não será tarefa fácil. Eu sempre terei como adversário eu mesmo. Para que é que eu vou procurar sarna para me coçar se eu posso ajudar outras pessoas, posso trabalhar para outras pessoas? E depois é o seguinte: você precisa esperar o tempo passar. Essas coisas você não decide agora. Um belo dia você não quer uma coisa, de repente se apresenta uma chance, você participa.
    Mas a minha vontade agora é ajudar a minha companheira a ser a melhor presidenta, a trabalhar a reeleição dela. Eu digo sempre o seguinte: a Dilma só não será candidata à reeleição se ela não quiser. É direito dela, constitucional, de ser candidata a presidente da República. E eu terei imenso prazer de ser cabo eleitoral.

    publicado na Folha de S. Paulo em 30/03/2012

    Cf. também:

    Reportagem: Amazônia:'Labirinto Infinito'

    Posted: 22 de mar. de 2012 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , 0 comentários

    "Labirinto Infinito" é uma grande reportagem de Vanessa Rodrigues,com sonoplastia de Joaquim Dias, para a TSF. Quatro meses a percorrer uma selva ameaçada pelo homem, carregada de mitos e de desafios para os exploradores, no âmbito da nomeação da Floresta Amazónica para a eleição das sete maravilhas naturais do mundo, que decorrerá no próximo mês de Setembro.

    Passou este final de tarde na TSF. Repete no Domingo ao meio-dia.

    # Para OUVIR AQUI.

    Jornalista Leonardo Sakamoto é indicado para prémio da 'Repórteres Sem Fronteiras'

    Esta segunda-feira celebra-se o Dia Mundial contra a Censura na Internet. A data foi instituída em 2008 pela ONG Repórteres Sem Fronteiras com o objectivo de alertar para os casos de cerceamento da liberdade de expressão ao redor do mundo e distinguir blogueiros, jornalistas ou ciberdissidentes que furam cortinas de silêncio nos seus países com o prémio Netizen (Net-Cidadão).

    Este ano, o jornalista brasileiro Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto, está entre os seis indicados ao prémio internacional Netizen.
    Amigo de longa data do Conexão, Leo acompanha faz tempo problemas como o desmatamento, as desigualdades sociais, a exploração laboral e os conflitos de terra com palco no Brasil. A Repórteres Sem Fronteiras apresenta-o destacando que: «em seu blog, Sakamoto escreve sobre conflitos sociais e ambientais, tendo um interesse particular pelas minorias indígenas do Brasil e o trabalho escravo».

    Concorrem com Sakamoto, na edição deste ano, os habitantes da vila de Wukan, na China, que se organizaram para protestar contra o confisco de terras e obrigaram o governo a negociar; o blogueiro Maikel Nabil Sanad, do Egipto, que chegou a ser preso pelo envolvimento nos protestos no Egipto e que, após ser solto, em Janeiro de 2012, não hesitou em voltar a criticar as Forças Armadas; Grigory Melkonyants e membros do NGO Golos, da Rússia, que criaram um mapa para os internautas postarem informações sobre fraudes eleitorais nas eleições presidenciais; os centros de media do Comitê de Coordenação Local, na Síria, que colectam e publicam informações sobre a situação do país; e o blogueiro Paulus Lê Van Son, do Vietnã, que escreve sobre política, sociedade, religião e direitos humanos. 
    O resultado será conhecido na segunda-feira (12) às 18h numa cerimónia que terá em Paris. O vencedor irá receber 2.500 euros (aproximadamente R$ 5,9 mil).

    # Entrevista a Leonnardo Sakamoto para OUVIR AQUI


    # Lista dos países "Inimigos da Internet 2012" (documento em pdf)

    [ACTUALIZAÇÃO]

    Saiu o resultado: o prémio Netizen 2012 foi para os cidadãos, activistas e jornalistas sírios do centro de media do Comité de Coordenação Local.

    Povos indígenas receiam «cowboys do carbono«

    Posted: 12 de dez. de 2011 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários

    Os representantes dos povos que habitam áreas de grande floresta temem que os seus interesses passem a não ser respeitados isto após ter passado a ser mais barato para países e empresas pagar para travar a desflorestação do que tornar mais amigas do ambiente as tecnologias que utilizam.
    Em noime da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana, Roberto Espinoza pediu a mudança do mecanismo das Reduções das Emissões de Carbono devido à Desflorestação e Degradação da Floresta (REDD) para que se evitem a proliferação dos chamados «comboys do carbono».
    «O tema do REDD tem de ser um processo transparente, o que não acontece quando se fala dos operadores privados. Os comboys do carbono estão a corromper o processo do REDD a nível mundial», acrescentou.
    Roberto Espinoza defendeu mesmo que o Peru está a ser vítima desta situação, a par de países como a Papua Nova Guiné e a Indonésia.
    Os representantes dos povos indígenas estão preocupados com o mecanismo das Reduções das Emissões de Carbono devido à Desflorestação e Degradação da Floresta, que passou a permitir que as empresas poluidoras negociem directamente com as comunidades locais. 
    Por seu lado, Sónia Guajajara, da coordenadora das associações indígenas da Amazónia, pediu a inclusão dos direitos neste novo mecanismo, que «não pode ser visto somente como uma questão de mercado».
    «Tem de ser visto como um fortalecimento das culturas, como valorização do modo de vida dos povos indígenas», acrescentou.
    À margem da Cimeira do Clima que decorreu em Durban, na África do Sul, este mecanismo passou a estar disponível para empresas poluidoras que queiram negociar directamente com as comunidades locais.
    Os povos da floresta pretendem a redução das emissões por desflorestação, contudo, querem que isto não esteja misturado com o mercado de carbono, uma situação que está a levar que alguns chefes índios estejam a assinar papéis que não sabem ler.

    # Trabalho de José Milheiro sobre o mecanismo de Redução de Emissões de Carbono devido à Degradação da Floresta, que passou na TSF: para OUVIR AQUI.

    Cf. também:

    Dilma Rousseff força demissão de Nelson Jobim: Celso Amorim é o novo ministro da Defesa

    Posted: 4 de ago. de 2011 | Publicada por por AMC | Etiquetas: , , , 0 comentários

    A Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, pediu nesta quinta-feira ao ministro da Defesa que se demita, devido a declarações que este terá prestado à revista Piauí. Nelson Jobim terá dito que a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, é “muito fraquinha” e que a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, “nem sequer conhece Brasília”, adiantou o jornal O Globo.
    A confirmar-se a demissão, que já terá sido decidida por Rousseff e que deverá ser formalizada quando Jobim regressar de uma viagem oficial a Tabatinga, na fronteira do Amazonas com a Colômbia, esta será a terceira baixa no Governo brasileiro desde que tomou posse, a 1 de Janeiro deste ano.
    O antigo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, renunciou ao cargo no início de Julho, depois de ter sido envolvido num escândalo de fraudes em concursos públicos para obras supervisionadas pelo seu ministério. Ocupava a pasta desde 2003, no Governo de Lula da Silva. Um mês antes da sua demissão já tinha sido destituído o então ministro da Casa Civil, António Palocci, que se viu envolvido num escândalo de enriquecimento ilícito.
    Dilma Rousseff conversou com Nelson Jobim ao telefone e disse-lhe que, perante a polémica causada pelas suas declarações sobre os outros membros do Governo, ele deveria pedir a demissão. Caso contrário, não lhe restaria outra opção senão demiti-lo, noticiou o Folha de São Paulo.
    Jobim nega que se tenha referido de forma pejorativa ao trabalho de Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann, ao contrário do que é referido em excertos da entrevista à revista Piauí, que só chega amanhã às bancas, publicados pelo Folha de São Paulo.
    O ministro já tinha causado polémica quando tornou público, durante uma entrevista a uma estação de televisão, que votou em José Serra, candidato que Dilma Rousseff venceu na segunda volta das presidenciais disputadas no ano passado.
    Dilma Rousseff convocou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, para uma reunião de emergência que deverá decorrer hoje, noticiou O Globo. Ele e o senador Aldo Rebelo são apontados como prováveis sucessores de Jobim.

    publicado em O Público

    Leia abaixo trecho da reportagem da revista: 
    "Ao fim da cerimônia, à uma da tarde, Jobim foi para o gabinete do senador Fernando Collor, onde ficou por mais de uma hora conversando sobre a questão da liberação dos documentos sigilosos, projeto do qual o ex-presidente discorda. No amplo gabinete de Collor, enquanto o chefe falava com o senador de Alagoas, seus assessores recordavam episódios do tempo de caserna. Seu assessor parlamentar, o coronel Gonçalves, explicava porque, no meio militar, é mais difícil haver corrupção. "O cara que rouba é desprezado pelos outros", sustentou. E contou o seguinte caso da sua época de cavalaria.
    (....) Jobim deixou a sala de Collor e foi para o Ministério, onde almoçou rapidamente. Enquanto comia uma salada, comentou a discussão da liberação de documentos sigilosos do Estado. "É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília", falou, referindo-se à ministra das Relações Institucionais e à da Casa Civil.
    Disse que o Collor não criaria empecilhos, mas que estava chateado porque, enquanto ele discutia o projeto, foi atropelado por um pedido de urgência na votação, feito pelo senador Romero Jucá, da base governista. "Ele se sentiu desrespeitado, não havia razão para o pedido de urgência", afirmou Jobim. Na conversa, Collor lhe contou que faria um discurso contra o projeto e Jobim lhe pediu que não o fizesse, no que foi atendido. "Eu disse a ele que havia muito espaço para negociação e que, se ele fizesse o discurso atacando o governo, estreitaria essa possibilidade." Perguntado sobre por que havia tantas idas e vindas no governo na relação com o Congresso, Jobim não teve dúvidas: "Falta um Genoíno para ir lá negociar."

    via Folha de S. Paulo

    Jobim diz que suas declarações foram tiradas do contexto

    Sob risco de deixar o governo, o ministro Nelson Jobim (Defesa) negou na tarde desta quinta-feira que tenha se referido de forma pejorativa ao trabalho das ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil).
    Após constranger o governo declarando ter votado em José Serra nas eleições de 2010, o peemedebista afirmou à revista "Piauí", cujos trechos foram antecipados pela colunista Mônica Bergamo na edição de hoje da Folha, que Ideli "é muito fraquinha" e que Gleisi "sequer conhece Brasília". A presidente Dilma Rousseff espera que o ministro antecipe-se e peça demissão do cargo.
    "Isso faz parte do jogo da intriga, da tentativa de desestabilizações. Ou seja, daquilo que passa pela cabeça de quem não percebe as necessidades do país", afirmou Jobim após cerimônia de assinatura de acordo entre Brasil e Colômbia para aumento da fiscalização na fronteira entre os dois países.
    De acordo com o ministro, suas declarações se referiam exclusivamente à discussão sobre a Lei de Acesso à Informações, em discussão no Senado, e foram tiradas do contexto. A edição da revista começa a circular amanhã.
    "Absolutamente [fez as críticas]. O que nós comentávamos, o que nós nos referíamos, era o projeto de lei sobre informações sigilosas. Em momento nenhum fiz referências dessa natureza. Aliás, reconheço em Ideli a capacidade e uma tenacidade importantíssimas na condução dos assuntos do governo", afirmou Jobim, também negando ter dito que o governo faz trapalhada.
    O vice-presidente Michel Temer, também presente à solenidade, defendeu o ministro, que integra o seu partido, o PMDB.
    "O ministro Jobim declarou que o contexto era a lei de informações públicas. A ministra Ideli e a ministra Gleisi têm um apreço pelo ministro Jobim, que se apoia em incentivo e práticas de elogio", disse o vice-presidente, completando: "Não haverá problema de nenhuma natureza. Reitero que o ministro Jobim não fez referência à pessoa ou à atuação da ministra A ou B, só em relação à aprovação do projeto de lei".
    O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), outro dos que foram a Tabatinga, comentou os rumores de que poderia substituir Jobim. "Há muita especulação. Meu trabalho é muito integrado ao do ministro Jobim. Qualquer coisa que se diga nesse momento é absolutamente especulação".
    Jobim ainda tem previsão de visitar um batalhão de fronteira, durante a tarde, na fronteira com a Colômbia.

    publicado na Folha de S.Paulo - 04/08/2011 

    Presidente constrange Jobim e cogita substituição

    A presidente Dilma Rousseff constrangeu ontem o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao tratá-lo de forma protocolar durante evento oficial no Palácio do Planalto.
    Ela avalia a possibilidade de demiti-lo da pasta após Jobim declarar publicamente à Folha e ao UOL ter votado no tucano José Serra na eleição presidencial de 2010.
    Dilma ficou irritada com a declaração. Cogitou demitir Jobim, mas preferiu não fazer isso já. No governo avalia-se que, se o ministro tivesse pedido demissão, ela teria aceito na hora.
    Ontem, em um evento no Planalto, Dilma tratou o auxiliar com frieza ostensiva. Não o citou no discurso, como é praxe. O cumprimento entre ambos foi protocolar.
    Dilma já sabia da opção eleitoral do ministro por Serra desde o ano passado. Ainda assim, decidiu reconduzi-lo ao cargo por influência de Lula. Pesou a favor de Jobim seu reconhecimento no meio militar e seu trabalho para institucionalizar o Ministério da Defesa, criado há 12 anos.
    Ministro de Lula e Fernando Henrique, Jobim perdeu espaço sob Dilma. Deixou de ser mediador em negociações com o mundo jurídico e não conseguiu concluir a compra dos caças Rafale.
    O próprio Jobim confidenciou a amigos que não ficará por muito tempo no posto. A recente polêmica, porém, pode precipitar sua saída.
    Além de revelar o voto em Serra, o ministro afirmou que o tucano teria tomado as mesmas atitudes de Dilma se tivesse vencido a eleição.
    Essa foi a segunda controvérsia a incomodar o Planalto. Em junho, numa homenagem a FHC, o ministro havia dado declaração ambígua: "Os idiotas perderam a modéstia". Isso foi interpretado como uma referência à atual gestão. Ele negou.
    O Planalto registrou que Jobim revelou o voto em Serra na terça de manhã mas não antecipou a declaração, que seria publicada no dia seguinte, na reunião que teve com Dilma naquele dia. Ontem, integrantes do alto escalão tratavam da demissão sem cerimônia. Dilma chegou a ouvir de diversos interlocutores que o melhor seria demiti-lo de imediato.
    Na segunda, o ministro dará entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura.

    publicado na Folha de S.Paulo - 30/07/2011  

    Ministro de Dilma, Jobim diz que votou em Serra em 2010

    O ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB), disse nesta terça-feira (26) ter votado em José Serra (PSDB) na eleição de 2010. Segundo ele, a então candidata Dilma Rousseff (PT) sabia de sua preferência pelo tucano. Depois de se eleger e de convidá-lo para o ministério, a petista não teria mais tocado no assunto.
    O ministro participou da estreia do programa "Poder e Política - Entrevista", conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues no estúdio do Grupo Folha em Brasília. O projeto é uma parceria do UOL e da Folha.
    Além de revelar o voto em Serra, Jobim disse que o tucano teria tomado as mesmas atitudes de Dilma se tivesse vencido a eleição e fosse confrontado com escândalos como os que derrubaram os ministros Antonio Palocci (Casa Civil) e Alfredo Nascimento (Transportes).
    Na entrevista, Jobim respondeu a perguntas sobre vários temas. Falou, por exemplo, sobre sigilo eterno de dados públicos, documentos da ditadura militar que foram destruídos, relação de dissidentes do PMDB com o governo Dilma e a perda de poder do Ministério da Defesa sobre a Aviação Civil.


    publicado na Folha de S.Paulo - 27/07/2011 

    Nelson Jobim ataca Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann e deve ser demitido nesta quinta-feira

    A presidente Dilma Rousseff deve demitir o ministro da Defesa, Nelson Jobim, nesta quinta-feira, segundo informou o colunista do GLOBO, Jorge Bastos Moreno, pelo Twitter . "Dilma, que havia adiado a saída de Jobim, não vai esperar mais ministro pedir demissão. Deve demiti-lo até o fim do dia", postou ele no microblog.
    Nelson Jobim teria dito à revista "Piauí" que a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, é "muito fraquinha" e que a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, "nem sequer conhece Brasília". A revista chega às bancas na sexta-feira e, segundo a "Folha de S. Paulo" , traz outra crítica de Jobim ao governo Dilma. Sobre a discussão do "sigilo eterno" de documentos, o ministro da Defesa ataca os governistas: "É muito trapalhada".
    Na semana passada, o ministro da defesa também provocou polêmica após dizer, em entrevista a Folha de S. Paulo , que tinha votado em Serra em 2010. A declaração provocou reação dos petistas e desconforto com a presidente Dilma. O ex-presidente Lula ainda defendeu Jobim , mas as novas declarações dadas à revista Piauí complicam ainda mais a situação do ministro

    publicado em O Globo - 04/08/2011

    Cf. também:


    Dilma aceita pedido de demissão de Jobim e Celso Amorim é o novo ministro da Defesa

    O novo ministro da Defesa, Celso Amorim , em foto de Gustavo Miranda

    Em sete meses de governo, a presidente Dilma Rousseff demitiu nesta quinta-feira o terceiro ministro, todos indicados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foram três demissões em apenas dois meses. Depois de Antonio Palocci (Casa Civil) e Alfredo Nascimento (Transportes), foi a vez de Nelson Jobim deixar o Ministério da Defesa. O PMDB, partido de Jobim, tentou ficar com o posto, mas Dilma escolheu outro ex-ministro de Lula, o embaixador aposentado Celso Amorim, que foi chanceler de 2003 a 2010.
    Jobim perdeu o cargo depois de várias provocações à presidente, com quem nunca teve uma relação próxima. Sua saída foi decidida por Dilma ainda na noite de quarta-feira, quando ela soube do teor das declarações de Jobim à revista "Piauí" .
    Nos últimos dez dias, o ministro provocou polêmicas no governo, culminando com a revelação, à "Piauí", de um diálogo com a presidente sobre a contratação do ex-deputado petista José Genoino para a assessoria do Ministério da Defesa e também do que pensa sobre as ministras Ideli Salvatti - "bem fraquinha" - e Gleisi Hoffmann - "nem conhece Brasília". No caso de Genoino, Jobim contou à revista que, quando Dilma lhe perguntou se ele seria útil como assessor na Defesa, teria respondido: "Presidente, quem sabe se ele pode ser útil ou não sou eu". Para Dilma, isso foi a gota d'água.
    Jobim entregou a carta de demissão à presidente pouco depois das 20h, 15 minutos após desembarcar na Base Aérea de Brasília, num encontro rápido e frio no Palácio do Planalto que durou cerca de cinco minutos. Ele estava em Tabatinga (AM) quando recebeu um telefonema de Dilma, depois do almoço. Ele só voltaria a Brasília no fim da noite, mas ela pediu que ele antecipasse o retorno, pois não queria protelar a exoneração.

    Para militares, insubordinação

    O anúncio oficial da demissão de Jobim foi feito pela ministra da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas, por volta de 20h15m. Ela também disse que Dilma havia convidado Amorim para o cargo. Amorim é o segundo diplomata a ocupar o Ministério da Defesa e chegou a ser citado para o cargo em outras crises na pasta. O embaixador José Viegas foi o primeiro ministro da Defesa de Lula, depois substituído pelo então vice José Alencar.
    Da área militar, a presidente Dilma recebeu sinalizações, logo cedo, de que, apesar da atuação de Jobim no Ministério da Defesa, os comandantes não concordavam com o "comportamento de insubordinação" do ministro em relação à comandante-em-chefe das Forças Armadas.
    A presidente foi rápida na substituição de Jobim porque já tinha tomado a decisão de tirá-lo do posto desde que ele explicitou, em entrevista ao portal UOL, que tinha votado no tucano José Serra, no ano passado. Dilma tinha conhecimento disso, mas considerou deselegante e inoportuno ele confessar publicamente o voto em Serra. E ainda acrescentar que, se o tucano fosse o presidente, faria a mesma faxina que Dilma fez nos Transportes.
    A saída de Jobim já era dada como certa pela classe política desde as primeiras horas do dia. Tanto adversários como amigos do peemedebista diziam que ele havia extrapolado e perdido as condições de continuar no cargo. Já a escolha de Celso Amorim para a Defesa dividiu opiniões entre políticos governistas e de oposição.
    - Achei a escolha brilhante. Um nome muito preparado, uma solução muito boa. É um diplomata com grande experiência governamental, ficou oito anos no Ministério de Relações Exteriores e tem grande afinidade com Lula - disse Paulo Teixeira (SP), líder do PT na Câmara.
    O líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), também elogiou a escolha de Amorim:
    - É uma bela escolha da presidente Dilma. Ótima escolha.
    Já o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), avaliou como temerária a ida de Amorim para um cargo estratégico como a Defesa, por seu viés esquerdista e sua política de aproximação com ditaduras, como a do Irã. Disse que Jobim era de competência incontestável e disciplinou as Forças Armadas.
    - Jobim foi trocado por um fanático esquerdista. Isso é um perigo na Defesa pelo seu passado de aproximação com ditaduras e suas ligações com Cuba e Venezuela. Muito mais que uma crítica, vejo a solução como extremamente temerária para um cargo estratégico de defesa nacional. Só falta o Amorim levar o Marco Aurélio Garcia e o Samuel Pinheiro Guimarães. Acho que será um desastre! - comentou Demóstenes.
    Mesma preocupação foi manifestada pelo líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP):
    - Espero que ele (Celso Amorim) não deixe se contaminar com o viés político-ideológico, o que muita vezes ocorreu no Ministério das Relações Exteriores. Gostaria de lamentar a saída de Jobim, com um currículo extremamente qualificado.
    - Essa é uma colocação totalmente descabida! Qualquer que fosse o ministro iria executar a política da presidente Dilma. A política externa implementada por Amorim não tinha viés ideológico. É um nome muito adequado para o cargo - retrucou o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE).
    Antes mesmo da oficialização da demissão de Jobim, já havia se estabelecido uma acirrada disputa entre petistas e peemedebistas pelo comando do Ministério da Defesa - nenhuma das partes ganhou. A lista de candidatos citados ao longo do dia tinha quase uma dezena de nomes: o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo; o vice-presidente Michel Temer; o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP); o ministro Moreira Franco, que o PMDB tentou emplacar; e até o ex-ministro do Supremo Sepúlveda Pertence, que era visto como uma solução institucional. O nome de Celso Amorim também entrou nessa lista, mas com algumas ressalvas de que ele teria resistência junto às Forças Armadas.


    publicado em O Globo - 04/08/2011

    Cf. também:

    via CBN:


    Declarações de Nelson Jobim criaram polêmicas no governo Dilma
    Declarações de Nelson Jobim criaram polêmicas no governo Dilma

    Quem morre pela boca é peixe, não pavão

    por Lucia Hippolito
    Alguém realmente acredita que o ministro Jobim disse o que disse sem pensar, inadvertidamente?
    Só quem não o conhece.
    Jobim e Dilma Rousseff nunca se bicaram. Nunca se entenderam. Não se suportam.
    Mas Lula, sempre ele, pediu a Dilma que mantivesse Jobim no Ministério da Defesa, alegando que ele se dá bem com os militares, que o plano nacional de defesa estava bem encaminhado, que isso, que aquilo. Resultado: Jobim ficou no ministério.
    Mas o ministro não queria ficar.
    Comprou apartamento em São Paulo, queria sair do governo para, quem sabe, candidatar-se a um cargo no ano que vem, ou mesmo trabalhar com o amigo José Serra numa eventual prefeitura do amigo e padrinho — isso se Serra decidir ser candidato a prefeito em 2012.
    Talvez candidato a vice de Serra em 2014.
    O fato é que Jobim decidiu sair do governo. Mas não queria pedir demissão.
    Se pedisse, Dilma se sentiria livre para nomear quem quisesse. E Aldo Rebelo (PCdoB)  já se assanhava para assumir a pasta.
    Mas o PMDB considera que a pasta da Defesa é do partido. Para isso, Jobim precisava ser demitido por Dilma.
    Daí a sequência infindável de grosserias, manifestações de falta de educação, descortesia, arrogância, pavonice.
    Tudo de caso pensado. Tudo de lingua trançada com a cúpula do PMDB.
    Por trás das cortinas, movimentava-se Wellington Moreira Franco, atual secretário de Assuntos Estratégicos, cargo decorativo, que significa praticamente coisa nenhuma.
    Moreira está há semanas articulando para credenciar-se junto às Forças Armadas como sucessor de Jobim.
    Moreira é ligadíssimo ao vice-presidente Michel Temer. Bingo!
    Ali não tem nenhum bobo.
    Jobim é um pavão, não é um parvo. Jamais faria um papelão desses se não houvesse um projeto que o justificasse.
    Peixes morrem pela boca. Pavões abrem o leque e cumprem missões.
    Mas… Como ensinava o dr. Tancredo Neves, esperteza quando é muita, cresce e come o dono.
    De nada adiantou a armação de Jobim, Moreira e Temer.
    O escolhido de Dilma foi o ex-chanceler Celso Amorim.
    Que Deus se apiede das Forças Armadas!