O ‘último show’ e os planos de Chico Buarque
O lançamento do DVD “Na carreira” (Biscoito Fino), mais que uma oportunidade de ter o registro da recente turnê de Chico Buarque, é uma lembrança de que ela chegou ao fim. E, como o próprio compositor brinca num dos depoimentos que vem postando diariamente no site www.chicobastidores.com.br, fica sempre no ar o temor de que esse seja o último show:
“Teve um show assim, acho que foi em Goiânia, que eu estava no quarto do hotel e liguei a televisão para ver o noticiário. Tinha havido um problema com o teatro, não sei se a prefeitura não estava querendo ceder o teatro, um problema de ordem burocrática. Talvez não houvesse o show. Lembro do comentarista: ‘Chico Buarque está com mais de 50 anos, talvez ele nunca mais venha à Goiânia, vamos liberar esse teatro’. Eu com 52, 53 anos e eles achando que eu nunca ia voltar mais”. Em Portugal, perguntado sobre a grande procura de ingressos para vê-lo, ele conta ter respondido que “as pessoas querem ver antes que acabe”: “Tem aquela coisa de tirar fotografia, ‘não posso morrer sem tirar uma foto com você’. O que eles querem dizer é: ‘não posso você morrer sem eu tirar uma foto com você’ (risos)”.
A música de Pierre Aderne ao serviço da lusofonia
Um brasileiro nascido em França fez um documentário e um disco para que o Brasil nos entenda melhor. "Bem me Quer, Mar me Quer" mostra que há águas que unem sem afogar
Há quase uma década, quando cantou em Portugal pela primeira vez, tinha apenas um disco em seu nome. Nascido em França (Toulouse) de mãe brasileira e pai português (de Ourém), mas com a infância passada entre Brasília e o Rio de Janeiro, Pierre Aderne não tardou a ir ficando por cá uns tempos, até arranjar mesmo uma casa. Nestes anos lançou uma trilogia dedicada às águas: Casa de Praia (2005), Alto Mar (2007) e Água Doce (2010), participando pelo meio em vários projectos entre os quais o do grupo brasileiro Doces Cariocas, que lançou (também em Portugal) um CD homónimo em 2008.
Agora, em 2012, mesmo finda a trilogia, a inspiração marítima serviu-lhe para um novo projecto: o disco Bem me Quer, Mar me Quer. Que por sua vez nasceu de um documentário, feito entre Portugal e Brasil: Música Portuguesa Brasileira, uma forma de dar a volta à velha sigla MPB (Música Popular Brasileira) mas procurando pontos de ligação entre culturas e géneros musicais. O filme estreou-se no Canal Brasil no dia 15, passou ontem à noite no Douro Film Harvest, em Favaios, e terá estreia lisboeta em Novembro, no São Jorge.
Pierre Aderne folheia o livrinho do CD como quem mostra um álbum de fotografias. Uma foto tirada num festival na Galiza, uma casa na Zambujeira do Mar, músicos, flores, azulejos, texturas. E, fotografados no chão, os despojos arroxeados de uma árvore que todos os anos embeleza Lisboa. "Jacarandás, que a gente já não tem lá no Brasil". O disco, diz ele, acabou por ser "um subproduto do documentário", mas contraria o que essa ideia possa trazer de pejorativo.
Com o documentário, Pierre quis "mostrar onde é que a música brasileira se encontrava com a portuguesa, sem que o Brasil soubesse disso." E diz que "alguns portugueses também não sabiam até onde é que essa mistura se deu." O fio condutor da história foi "a tertúlia musical, os saraus que eu já fazia na minha casa em Ipanema há oito anos. No decorrer das filmagens, vi que estávamos falando mais num novo sotaque da música portuguesa do que qualquer outra coisa. Quando eu vim para cá fazer o primeiro show no B.Leza, em 2003 ou 2004, vi que havia uma africanidade que já era lisboeta, alfacinha. Depois, conversando com o Tito [Paris], a Sara [Tavares] e o Luís Caracol, que é filho de retornados angolanos e que nasceu no sub-guetto africano, pensei: engraçado, a música do Tito já não é mais só de Cabo Verde, a da Sara tão-pouco, e senti que, mesmo na nova cena do fado sente-se a influência que a música brasileira e a africana têm: a malemolência no jeito de cantar, um swing que há muitos anos não havia".
Shows de Chico Buarque em Portugal ameaçados por razões económicas
O Nuno Pacheco tem más notícias:
Os cinco concertos de Chico Buarque anunciados para Portugal estão ameaçados por razões económicas. A sobrevalorização do real face ao euro obrigou os representantes do cantor brasileiro a procurar eventuais patrocínios junto de empresas portuguesas, para viabilizar os concertos, mas esses contactos, iniciados há cerca de três meses, não deram qualquer resultado. A notícia foi confirmada pelo junto do assessor de imprensa do artista, Mário Canivello, que adiantou que “se até ao início de Maio” não houver qualquer evolução, os concertos em Portugal serão cancelados. Portugal seria o único destino internacional da tournée do espectáculo onde o cantor tem vindo a apresentar o seu mais recente disco, “Chico”, lançado em 2011. O espectáculo, que já foi visto no Brasil por cerca de 200 mil pessoas, em seis cidades, terá ainda mais quatro apresentações: Recife, Fortaleza, Natal e Brasília. Este último seria em Agosto, pouco antes dos cinco concertos em Portugal, planeados para a primeira quinzena de Setembro nos coliseus de Lisboa e Porto. Mas se estes acabarem por ser cancelados, o concerto de Brasília será antecipado para Junho e fechará definitivamente a tournée.
Chico Buarque de Hollanda, um dos maiores compositores da história da música brasileira, apresentou-se pela última vez em Portugal em 2006, no casino de Espinho e nos coliseus de Lisboa e Porto. Um total de nove concertos com lotações esgotadas onde, após 13 anos de ausência dos palco portugueses, apresentou o disco “Carioca”.
Um dó se Portugal ficar privado da oportunidade de ver esse show, sobretudo porque Chico não é de andar muito pelos palcos!...
Sugestão de leitura: "Dorival Caymmi: o mar e o tempo" de Stella Caymmi
Resultado de dez anos de minuciosa pesquisa, fica a biografia de Dorival Caymmi (publicada em 2001, via Editora 34) por Stella Caymmi: quase 700 páginas, com cerca de 300 imagens, que atravessam a trajectória completa de um brasileiro exemplar, «homem simples e sensível», que dedicou sua toda a sua vida a duas artes maiores, a música e a felicidade.
Entrevista a António Zambujo: «Minha aproximação com o Brasil é cada vez maior»
António Zambujo: "70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada"
O cantor António Zambujo chega ao disco "Quinto", a ser lançado em abril, em Portugal, não apenas com a guitarra de renovador do fado - na mesma intensidade, notabiliza-se como um aproximador dessa tradição com o repertório da música popular brasileira. Nascido em Beja, no Alentejo, em 1975, Zambujo imprime um cool fado desde o álbum "Outro sentido", o início de sua transição musical. Influenciado por Chet Baker e João Gilberto, ele faz uma arriscada e até há pouco improvável ponte entre a Bossa Nova e um gênero historicamente marcado por suas cantoras viscerais, como Amália Rodrigues.
Nesta entrevista a Terra Magazine, António Zambujo recompõe sua trajetória profissional - estudou clarinete a partir dos 8 anos - e relata seus diálogos com músicos brasileiros, de Rodrigo Maranhão a Ivan Lins, de Moreno Veloso a Marcelo Camelo. Com este último já engatilhou uma parceria e pretende desenvolver um projeto de disco, que reunirá ainda Miguel Araújo Jorge.
- Apaixonei-me pela música brasileira a primeira vez que ouvi o João Gilberto. Quando ouvi João Gilberto, tive vontade de conhecer toda a origem, até um pouco antes da Bossa Nova, os movimentos que a sucederam, a música que vinha lá atrás, com Orlando Silva, Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa - Zambujo relata.
Admirador de Vinicius de Moraes, ele já gravou "Apelo", "Quanto tu passas por mim" e "Poema dos olhos da amada". E aprecia imenso uma mensagem do poeta aos portugueses, gravada no disco "Amália/Vinicius", no qual o visitante confessa sua "impressão de tristeza em ver esse povo tão formalizado". "Eu tenho a impressão de que o povo português precisava se desengravatar", declarou o bardo. Quarenta anos depois, Zambujo vibra com esse conselho:
- Eu adoro isso! Eu adoro ele dizer isso! Ele disse em 1969. Nós estamos em 2012 e, não digo todos, mas 70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada!
No começo de sua carreira em Lisboa, o fadista integrou por quatro anos o elenco do musical "Amália", interpretando o papel de Francisco Cruz, o primeiro marido da cantora. Pertencente a uma geração que procura modernizar o fado, António Zambujo reconhece a grandeza da artista:
- A Amália funcionava um pouco como eucalipto. Ela estava lá enquanto tudo à volta secava. Acho que não é propositado. Acho que isso, de fato, aconteceu, mas só aconteceu porque Amália tinha uma dimensão fora do comum. Nem sei se existe alguma coisa que se possa comparar no mundo. Porque ela tinha uma qualidade artística. Ela cantava e escrevia os poemas, fazias músicas, fazia tudo.
Provocado sobre os impactos da internet na indústria fonográfica, principalmente após o alastramento do download de músicas, Zambujo defende o conceito de álbum e acredita que ele não será alterado, na essência, pelas novidades tecnológicas.
- Ah, eu acho que nunca vai acabar. Nesse aspecto, é como eu te digo: como ouvinte, gosto de ouvir o disco, não gosto de uma música como nas tais coletâneas. E, como músico, gosto de imaginar um disco como um todo. Não gosto de imaginar faixa a faixa. Uma disco é um conjunto de músicas. Faz sentido naquela ordem, existe uma razão para isso - expõe.
A entrevista ocorreu no apartamento do fadista no Chiado, em Lisboa, a poucos metros da praça Luis de Camões, no final de janeiro. Risonho e provocador, ele não se esquiva de criticar os "ortodoxos" do fado. "A ideia que eu tenho é que talvez tivessem pensado que a minha ideia era desvirtuar o que já tinha sido feito há 50, 60 anos atrás em Portugal".
Terra Magazine - Nos seus últimos discos, você tem dialogado com a música brasileira, trazendo-a, incorporando-a à tradição do fado...
António Zambujo - Mais ou menos as duas coisas. Para lá e para cá.
Como surgiu essa ideia de aproximar as duas tradições?
Sempre fui muito influenciado pela música brasileira. Aliás, se vocês forem ver os meus discos e os meus filmes, tem muitas coisas. O documentário do Vinicius, um monte de DVDs do Chico (Buarque), concertos do (Gilberto) Gil... Apaixonei-me pela música brasileira a primeira vez que ouvi o João Gilberto. Quando ouvi João Gilberto, tive vontade de conhecer toda a origem, até um pouco antes da Bossa Nova, os movimentos que a sucederam, a música que vinha lá atrás, com Orlando Silva, Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa. Uma série de compositores que eu tive curiosidade de conhecer. A partir daí, fui descobrindo. E tem muitos discos de músicos atuais, que fizeram uma série de discos retrospectivos, com novas orquestrações. Me lembro de um disco que eu gostei imenso, de Zé Renato, com orquestrações do Wagner Tiso, que se chamava "Memorial". Tocaram muitas músicas antigas...
Zé Renato se vinculou também ao repertório de Cartola.
Sim, e tinha Cândido das Neves, do princípio do choro, Pixinguinha... A partir daí fui me interessando. E descobri uma coisa. O português, hoje em dia, se nós ouvirmos um disco brasileiro, percebe-se que existe uma diferença maior entre as línguas. Ou seja, para cantar uma coisa de um compositor com que tenho compartilhado coisas, ultimamente - o Ivan Lins, o Rodrigo Maranhão, o Marcelo Camelo, o Pedro Luis - algumas letras que eles me mandam têm que ser feitas algumas retificações, para que seja possível serem cantadas em português de Portugal.
Como assim?
Vocês dizem: "Me leve". Nós dizemos: "Leve-me". Alguns acertos gramaticais, que no vosso caso ficam corretos, mas em Portugal ficam um pouco estranho, pois não temos o hábito de dizer. Em algumas frases fará sentido, mas em geral não dizemos. São pequenas alterações que precisam ser feitas. Mas, as músicas dessa altura (de décadas atrás), serem cantadas no português do Brasil ou português de Portugal, ficam exatamente iguais. Utilizam um português mais arcaico, mais obsoleto, que não se diz mais nem lá nem cá, mas que fazem sentido na música. Daí eu comecei a ter vontade de recriar algumas dessas coisas.
Você se aproximou muito de Vinicius de Moraes. Ele tem algo em comum com a cultura portuguesa, que é uma alma lírica mais aguçada. O Brasil teve um movimento modernista que praticamente reprimiu o lirismo.
Mas tem outros artistas que, ao menos, tentam aproximar-se dessa forma de escrita. O Vinicius é assumidamente influenciado pelo Fernando Pessoa, por Camões, ou seja, fica mais fácil. Há uma música que eu toquei no último disco, o "Apelo". Se calhar, ele conseguiu fazer um fado tradicional, porque depois tirei a música original do Baden Powell daquela letra e colocamos na estrutura de um fado tradicional. Musicamos e encaixa à perfeição. Portanto, ele conseguiu fazer coisas inacreditáveis, com quase tudo que fez. Era inevitável para mim aproximar-me do Vinicius. Aproximar-me da música brasileira e não me aproximar de Vinicius seria impossível.
Sua relação com a Bossa Nova é bastante destacada quando avaliam seus discos...
O João Gilberto... Nem é preciso explicar mais. Eu tento seguir uma estética musical que vem desde o tempo do Chet Baker, desde aqueles cantores...
Do cool.
O cool jazz. A Bossa Nova acaba sendo um cool choro... O que eu faço, eventualmente, será um cool fado. Sempre foi essa linha que me influenciou enquanto cantor. Depois do Chet Baker, veio o João Gilberto, o Caetano Veloso, mais tarde comecei a me interessar mais por jazz e pela música anglo-saxônica. A época dos crooners, o Frank Sinatra, o Tony Benett, Bing Crosby, Nat King Cole. Tudo isso acaba por influenciar muito a música que eu faço, mas interesso-me muito mais pela música cantada em português no Brasil e na África. Sou apaixonado pelas mornas de Cabo Verde.
Em Portugal, como seus discos foram recebidos? Porque você faz um fado muito diferente do que é feito. Houve resistência?
No princípio houve um pouco. Eu acho que houve uma certa resistência porque os ortodoxos do fado devem ter julgado... Não sei o que eles pensaram. Porque eu fiz o meu primeiro disco com fados tradicionais. Ou seja, ainda sem essas influências. Foi um disco bem aceito aqui no mercado interno, mas é um disco que nem sequer foi vendido para fora de Portugal. Internamente, foi muito bem aceito. As críticas foram muito boas e a expectativa para o segundo disco era alta. Só que na altura eu conheci o Chet Baker e conheci o João Gilberto, e o disco já nasceu completamente diferente do que as pessoas esperavam. Foi um choque porque foi um corte radical. O primeiro disco saiu em 2002 e o segundo disco em 2004, já completamente diferente. A ideia que eu tenho é que talvez tivessem pensado que a minha ideia era desvirtuar o que já tinha sido feito há 50, 60 anos atrás em Portugal. E no Brasil acontece muito isso. Vocês falam que são um país muito moderno, mas eu sei o que às vezes acontece quando alguém quer fazer alguma coisa diferente.
João Gilberto mesmo. Até hoje é atacado.
Como acontece com Caetano Veloso, com os últimos discos. Caetano fez o "Cê"... É por isso que o admiro. Caetano sabe que as pessoas gostam de ver um show voz e violão, aquelas coisas, mas eu acho que o artista tem que se autodesafiar de vez em quando, tem que fazer coisas novas.
Em Lisboa, o circuito do fado é purista?
Existe um circuito do fado ortodoxo e existe um circuito do fado, como poderíamos chamar?, pós-modernista. Não sei se será a palavra certa, mas vanguardista sim. Nesse circuito existe uma cantora muito interessante, que se chama Cristina Branco. Não sei se vocês conhecem...
Já se apresentou no Teatro Castro Alves, em Salvador, anos atrás. Fez um show excelente.
Ela faz umas coisas diferentes, com outras influências. Tem muita influência do Brasil, mas também da música do centro da Europa.
E da Amália Rodrigues, no início, não?
Um pouco também. A própria Amália, nos anos 70... Veja o ridículo do país que nós vivíamos na altura, durante a ditadura. Veio um compositor francês para fazer músicas para Amália e que foi determinante para a carreira dela, Alain Oulmain. Influenciou. O fado, inicialmente, é escrito por poetas populares. Não é nada de erudito. É feito por poetas populares que falam da realidade exclusiva de Lisboa, falam da realidade dos bairros típicos, dos personagens como a mulher que vendia o peixe, o ardina que vendia jornais na rua, o cauteleiro que vendia cautela (bilhete de loteria). Era isso. Então, Amália aparece cantando poetas eruditos.
Alexandre O'Neill...
Camões, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Melo, a vossa Cecília Meireles...
E fez um disco com Vinicius.
Com Vinicius. Nessa altura, foi um escândalo em Portugal, porque diziam que cantar Camões, Fernando Pessoa e outros poetas eruditos, era um atentado à cultura de um País.
Um atentado a essa tradição literária ou ao fado?
À tradição literária. Para os poetas eruditos, o fado era considerado uma música inferior, onde era impensável e impossível pôr esses poetas eruditos numa música tão reles.
E foi também o caso de Vinicius de Moraes, que, aos olhos de muitos, se apequenou porque foi para a música popular.
Exato. Quando ele começou, era considerado um poeta erudito de grande potencial, e depois não. A história do Vinicius está no documentário. Ele recebe influência erudita do pai e popular da mãe. Então, ele sempre andou ali meio no limbo. Optou pelo que gostaria de fazer. Aqui em Portugal é assim também. E é cíclico. Sempre que alguém tenta mexer em alguma coisa que está bem aceita, há sempre reação.
Sugestão de TV | "Choro é Samba!"
Quarta-feira de Cinzas: para desabrandar do ritmo frenético da Avenida, proponho puxar uma cadeira, sentar na mesa do botequim e continuar no samba, mas com mais calma. Ficar no choro – porque choro é samba! –, na inspiração de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, alguns dos grandes representantes desse género, criado no Brasil há mais de 130 anos. Ao contrário do que o nome sugere, o choro é alegre. Mais do que ritmo, é musica popular, instrumental, sofisticada e, acima de tudo, abusada de improvisos.
No vídeo, as honras da casa ficam por conta do francês de nascimento e carioca por convicção, Nicolas Krassik, e de Amélia Rabello, que carrega um sobrenome que é sinónimo de craques da música brasileira. Os dois cantam (e como!) e falam sobre o tema, no programa Samba na Garoa da TV Brasil. Delicioso!
No Rio e em Salvador, o Carnaval não esquece centenário de Jorge Amado
Este ano, a decoração do Carnaval no Pelourinho vai homenagear os 100 anos do escritor baiano Jorge Amado (que se celebra a 10 de Agosto), com particular realce para o seu primeiro romance, O país do Carnaval. Cerca de 200 peças, criadas pelo artista plástico Euro Pires, já começaram a colorir as ruas, palcos, praças e largos do mais antigo Centro Histórico do Brasil.
De acordo com o artista, a decoração foi elaborada procurando mostrar o lirismo criativo dos habitantes do País do Carnaval, através de personagens como mascarados, pierrots e travestidos. «Além de uma homenagem a Jorge Amado, essa decoração vem homenagear também aqueles importantes personagens que fazem a quadra e que são os foliões» explicou Euro Pires. «Buscaremos também traduzir essa alegria do povo baiano, principalmente durante o carnaval, em cores e formas».
Este ano, não haverão tapumes a encobrir a fachada da Casa Jorge Amado, localizada no Largo do Pelourinho, junto da qual foi montado o palco principal destinado a abrigar os grandes shows temáticos que se realizarão diariamente. A iniciativa faz parte da programação do Carnaval do Pelourinho, realizado pelo Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura (SecultBa) e do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI).
Desfile da Imperatriz Leopoldinense leva Jorge Amado à Sapucaí
A escola de samba Imperatriz Leopoldinense, do Grupo Especial do Rio de Janeiro, pede passagem e mergulha no universo do escritor baiano Jorge Amado. Personagens como Gabriela, Perpétua e Dona Flor vão sair das páginas dos livros e ganhar vida na Marquês de Sapucaí, no Centro. A agremiação promete contar a vida de Jorge Amado em 82 minutos de desfile.
Do Pelourinho à lavagem do Bonfim. A verde e branca de Ramos vai levar para a Avenida alguns traços da Bahia, que o autor tanto cita em suas obras, no enredo "Jorge, Amado Jorge", do carnavalesco Max Lopes. Com oito títulos, o último conquistado em 2001 com o enredo "Cana-caiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, pernambuco… Quero vê descê o suco na pancada do ganzá!", a Imperatriz vai apostar em alegorias luxuosas e fantasias coloridas para chegar ao lugar mais alto do pódio.
Pelo terceiro ano seguido na verde e branca, o carnavalesco Max Lopes disse que o foco do desfile será a vida de Jorge Amado, desde a sua infância até a chegada dele ao Rio de Janeiro. Sem perder o luxo, uma de suas marcas no carnaval carioca, o carnavalesco afirmou que fará um desfile colorido, com enfoque na religiosidade e festas populares da Bahia.
“Há várias coisinhas que vão acontecer, essa parte do luxo realmente vai ter, mas o principal de tudo é o colorido que é exacerbado. Eu extrapolei um pouco na minha condição de mago das cores e venho com um desfile muito colorido, a alegria da comunidade, e o samba, que é muito carnavalizado e forte. Eu acho que são os requisitos principais”, disse o carnavalesco.
Terceira escola a desfilar no domingo (19), com previsão de entrada na Sapucaí entre 23h10 e 23h44, a Imperatriz vai levar sete carros alegóricos, 30 alas e 3,5 mil componentes para a Avenida. Sinônimo de beleza, glamour e classe do carnaval carioca, a rainha Luiza Brunet virá de baiana à frente da bateria comandada pelo mestre Márcio (Noca). A musa completará neste ano 17 anos de reinado na verde e branco.
Símbolo da escola virá no abre-alas
A coroa, símbolo da agremiação, virá prateada no abre-alas da escola, que vai falar sobre a religiosidade. De acordo com Max Lopes, o primeiro setor fará uma alusão aos orixás. A alegoria será acoplada e vai trazer uma grande escultura de Iemanjá, a rainha do mar, puxando a coroa de Oxalá, que, segundo o carnavalesco, é considerado o pai da Bahia.
“A gente começa o nosso desfile com a coroa de Oxalá, que é o símbolo da escola, no mar de Iemanjá. Então, já começamos com o branco total. Teremos ainda a parte religiosa de Jorge Amado, aonde ele foi eleito um dos Obás de Xangô. Então a gente faz uma homenagem a Obá, que ele era de Xangô, e à Mãe Menininha do Gantois”, explicou Max Lopes.
Uma das alegorias que prometem chamar a atenção é a que vai representar a lavagem do Bonfim. De acordo com o carnavalesco, o carro vai trazer uma réplica da igreja baiana e suas famosas escadarias. De alfazema e vassouras na mãos, componentes vão representar a tradicional festa. Max explicou que, desde pequeno, Jorge Amado participava da lavagem. A escola dará também destaque ao mercado da Bahia, que o escritor tanto citou em suas obras. “Ele se referia às frutas, às flores, ao que se vendia no mercado. E as baianas mexendo seus acarajés, suas comidas”, lembrou o carnavalesco. Em suma, o enredo vai servir para a escola vai levar para a Avenida vários ícones da Bahia, que o autor tanto cita em suas obras
Mistura de carnavais
O enredo também fará referência ao carnaval baiano e outros eventos populares no estado. A literatura estará representada em uma das alegorias. Segundo o carnavalesco Max Lopes, o carro vai trazer uma grande cama com as esculturas de Dona Flor e seus dois maridos, em menção à obra, e no alto, será possível ver a famosa cena de Gabriela subindo num telhado.
O papel de Gabriela ficará sob a responsabilidade da atriz Desirée Oliveira.
“A Desirré é perfeita para reviver memorável cena de Sônia Braga subindo de vestido em um telhado. Eu tento reunir neste carro as principais obras de Jorge Amada. Quincas Berro d’água, Capitães da Areia, Dona Flor, Gabriela, Tieta, entre outros, sem deixar de fora suas histórias infantis. Muita pouca gente sabe que Jorge Amado escreveu também sobre criança. Tenho certeza que vai emocionar”, contou Max Lopes.
Para encerrar o desfile, nada melhor do que um dos maiores símbolos baianos, o Pelourinho. A alegoria vai trazer as ladeiras e casarões num clima de comemoração. “Na Bahia tudo acaba em festa. Como um carnaval que fala da Bahia tudo acaba em festa. Então, grupos como o Ilê Aiyê, Oludum e Filhos de Gandhi, estarão na parte final desse desfile”, adiantou Max Lopes.
Max Lopes não quis dar detalhes sobre as fantasias do casal de mestre-sala e porta-bandeira Phelipe Lemos e Rafaela Teodoro. O samba-enredo "Jorge, Amado Jorge", de autoria de Jeferson Lima, Ribamar, Alexandre D'Mendes, Cristovão Luiz e Tuninho Professor, será mais uma vez interpretado por Dominguinhos do Estácio.
«Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti.»
– Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)
Sinopse
Ave Bahia! Bahia sagrada!
1912. A lua prateada banha o céu de axé...
Eis a coroa de Oxalá, o Senhor da Bahia!
Venha nos proteger, meu Senhor do Bonfim!
Vem do mar a esperança... Litoral de magia... Iemanjá! Oferendas à rainha do mar!
“Ela é sereia, é a mãe-d’água, a dona do mar, Iemanjá”
Velas bailam ao som do vento baiano. Veleiros, canoinhas e jangadas, deixem-se levar.
“...cerca o peixe, bate o remo, puxa corda, colhe a rede
Canoeiro puxa rede do mar...”
Jorge, Amado Jorge... Eis aqui sua história, vida e memória!
Vai, criança baiana; descubra os segredos dessa terra.
Jorge conheceu fazendas, ruas, vielas,
Becos e guetos, tipos e jeitos.
- Quem quer flores? Frutas? – grita o vendedor.
- Olha o acarajé! – oferece a velha baiana.
Águas de Oxalá! Venha ver a Lavagem do Bonfim!
As letras lhe chegam num sopro. Um vento de liberdade em defesa do povo.
Ah... O Rio de Janeiro... Nova casa do rapaz escritor.
Graduado na vida e na universidade.
Na política, com o “coração vermelho”, se engajou.
É a vida na capital. Amigos, papos e mulheres...
Ah... As mulheres... Vida perfumada e sensual...
Bares e cabarés... Eis a malandragem, o primeiro livro: o “país do carnaval”.
Primeiros romances. Romances da guerreira e apimentada Bahia, sua eterna paixão.
O ciclo do cacau, grande inspiração.
Viver nas areias da história e sonhar em ser capitão.
Um ideal. O valor do homem. O reconhecimento da valente alma do povo.
Vivência e personagens se confundem. Verdadeiros baianos traduzidos nos folhetins.
Onde está a liberdade?
Essa é a “Bahia de todos os santos”, de toda gente! Gente brasileira.
Doce amor, doce flor. Amiga, companheira, parceira de letras e caminhadas
Que o segue fielmente pelo “sem fim” do mundo.
Retornar a sua origem... Os passos rumo à alvorada da literatura.
Rumo à consagração: premiado e Amado. De farda e fardão.
Busca no tempero de Gabriela os sabores da vida. O aroma da crônica do interior.
A brisa que balança as madeixas da morena embala palavras ao encontro de Dona Flor.
Tieta do “chão dos prazeres”, do agreste. Tereza Batista, “fonte de mel”.
Mulheres e “milagres” do Nordeste.
Jogue a rede, pescador! Traga do mar de memórias as palavras inspiradoras.
Hoje o capitão é Jorge Amado. Capitão de sua navegação. “Navegação de Cabotagem”.
Misticismo e miscigenação, a alma desse chão.
Que Exu nos permita caminhar! “Se for de paz, pode entrar.”
Okê Arô Oxossi! Salve todos os Orixás! Joga búzios, canta a reza!
Kaô kabesilê! Kaô meu pai Xangô! Jorge é obá no Ilê Axé Opô Afonjá!
Ora iê iê Oxum! Mãe de Mãe Menininha do Gantois, amiga na fé, axé!
É festa na ladeira do Pelô! É festa na Bahia! Fervilha a mestiça terra de Jorge!
A Magia dos Filhos de Ghandi... É energia do sangue nordestino...
Tocam atabaques e alabês. O Pelourinho estremece! Vem descendo o Ilê Aiyê!
É o tambor! É a força do ritmo! É o som do Olodum!
Venham, amigos queridos! Amada família do escritor, venha conosco cantar!
100 anos do nascimento de Jorge Amado... Comemora a Imperatriz Leopoldinense!
De alma e coração, vamos todos brindar ao mestre das letras!
Sentadas sob a sombra da copa de uma grande árvore, suas palavras vão para sempre descansar...
Jorge, Amado Jorge...
Muito obrigado!
Hoje, a ti canto e me declaro:
sou mais um gresilense apaixonado!
Carnavalesco: Max LopesDireção de Carnaval: Wagner AraújoTexto e desenvolvimento: Max Lopes e Gabriel Haddad
Samba-enredo "Jorge, Amado Jorge"
Sou Imperatriz! Sou emoção!
Meu coração quer festejar!
Ao mestre escritor, um canto de amor
Jorge Amado, saravá!
Ave, Bahia sagrada!
Abençoada por Oxalá!
O mar, beijando a esperança,
Descansa nos braços de Iemanjá.
Menino Amado...
Destino bordado de inspiração.
Iluminado...
Vestiu palavras de fascinação.
Olha o acarajé! Quem vai querer?
Temperado no axé e dendê
Quem tem fé vai a pé... Vai, sim!
Abrir caminhos na lavagem do Bonfim
O vento soprou
As letras em liberdade.
Joga a rede, pescador!
O povo tem sede de felicidade.
A brisa a embalar
Histórias que falam de amor.
Memórias sob o lume do luar.
O doce perfume da flor.
Ê Bahia! Ê Bahia!
Dos santos, encantos, magia.
Kaô kabesilê! Ora iê iê Oxum!
Tem festa no Pelô.
Na ladeira, capoeira mata um.
# Para OUVIR AQUI
Eta, que vai ser bonito!...: "casal da Mangueira vai entrar no meio da bateria"
Este ano, a bateria da Mangueira promete surpreender novamente. Depois de levantar a Sapucaí no desfile de 2011 com uma superparadinha, os ritmistas da verde e rosa querem mais: eles vão parar de tocar durante uma passada inteira do samba-enredo. Mas a grande surpresa vem depois. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael e Marcella, vai entrar no meio da bateria, comandada pelo segundo ano por Mestre Aílton.
A ideia da direção da escola é transformar a Marquês de Sapucaí em um grande bloco de carnaval: tudo para homenagear os 50 anos de fundação do Cacique de Ramos, enredo da verde e rosa para 2012.
Para nada sair errado no dia do desfile, a fantasia da porta-bandeira Marcella foi feita com bastante antecedência. Tudo para a ser testada diversas vezes.
via Roda de Samba
Da série: 'Hoje tem show!' | Show colectivo da Virada 2012
... Para quem perdeu e não assistiu: ainda vai em tempo de entrar Janeiro dançando ao som de Michel Teló, Fernando e Sorocaba, Daniel, Chitãozinho e Xororó, Cesar Menotti e Fabiano, Jorge e Mateus, Zezé di Camargo e Luciano, Revelação, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Zeca e Sombrinha, Asa de Águia, Claudia Leitte, Margareth Menezes, Tuca Fernandes, Preta Gil e Naldo, Wanessa, Capital Inicial, NX Zero e J Quest. Com a devida vénia à TV Globo, bem entendido!
Da série: 'Hoje tem show!' | Ivete Sangalo, Caetano Veloso & Gilberto Gil
Para ver na íntegra: o especial Ivete, Gil & Caetano, exibido nesta sexta-feira, 23 de Dezembro, pela Rede Globo. Com direcção de núcleo de Roberto Talma e roteiro de Rafael Dragaud, os três cantaram músicas que falavam do corpo, da alma, do amor e das dores da separação do universo feminino que inspirou Gil, Caetano, Chico Buarque e Herbert Vianna. Entre uma música e outra, cada um foi aproveitando para revelar curiosidades sobre a composição das canções.
Chico Buarque ao vivo, depois de cinco anos sem subir ao palco
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| Durante gravação do disco "Chico" (2011) |
Sugestão de palco: Gilberto Gil, hoje à noite no 'CCB Fora de Si'
O xote, o maxixe e o baião, ritmos do nordeste brasileiro, são recuperados hoje pelo cantor Gilberto Gil num concerto no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no âmbito do evento CCB Fora de Si.
O músico e ex-ministro da Cultura do Brasil regressa a Lisboa com o espetáculo "Fé na Festa", que adota o nome do álbum que editou em 2010 inspirado nos ritmos nordestinos e nas Festas Joaninas.
Com mais de meia centena de álbuns editados e oito prémios Grammy, Gilberto Gil junta-se ao cartaz do "CCB Fora de Si", que tem estado a decorrer nos espaços do Centro Cultural de Belém em julho e agosto.
Parabéns, Ney Matogrosso!
via TV IG - 29/07/2011
Ney Matogrosso está fazendo hoje (uns inacreditáveis) 70 anos. A festa vai fazer-se nesta sexta-feira, na sua cobertura no Leblon.
15 mil pessoas viram ao vivo Chico Buarque a cantar na Internet
por Isabel Coutinho
Na imagem, antes das oito da noite em Portugal aparecia um relógio a marcar o tempo de espera. Ao lado, num chat ao vivo os internautas iam mandando mensagens. Pouco depois Chico apareceu, sentado numa cadeira e com o violão nas mãos agradeceu aos produtores, ao João Bosco e aos internautas que ao longo deste mês compraram o disco na pré-venda no site Chico: Bastidores e ganharam uma senha para assistir ao que se passou na gravação do disco. "Já estou começando a ficar esperto nisto, mas se vocês não me perguntarem coisas eu não vou saber o que falar", disse. "É legal isso das músicas terem ido pingando através da Internet" e isso "favorece o entendimento das canções".
Nessa altura, a imagem estava boa mas o som estava aos soluços. Chamou depois João Bosco ("João, vamos trabalhar!") e como o som continuava a dar problemas Bruno Natal, um dos responsáveis pelo site e realizador e produtor do documentário sobre as gravações, explicou que iam sair do ar para que fosse possível resolver o problema do som. Foi necessário desligar o chat e isso fez com que os problemas de som ficassem resolvidos. "Já entrei ou preciso de entrar de novo?", perguntava baralhado João Bosco. E começaram a assobiar os dois. Os músicos cantaram ao vivo "Sinhá", que faz parte do disco e que foi feita em parceria pelos dois, e conversaram sobre diversos assuntos.
Falaram de futebol, de amigos da praia (do cantor Mário Sérgio), das pesquisas que fizeram na Internet nomeadamente para a letra desta canção. Chico explicou a João Bosco o que é um "meme" ("os caras pegam uma frase sua e aplicam isso a um filminho") e outras coisas da Internet como os comentários que as pessoas fazem. "Eu sei que não sou amado há muito tempo, desde o começo. Há gente que entra nesse site, paga, só para detestar, 'Ah deixa eu detestar mais um bocadinho'. Mas o que é que eu estava dizendo mesmo?", diz Chico. Quase no final a produção pediu ao cantor que repetisse aquilo que tinha dito no início para aqueles que não tinham conseguido apanhar por causa dos problemas de som. “Vão pensar... O velho está com problemas, repetindo as falas todas (risos)", brincou o músico.
A determinada altura avisaram o músico que as quinze mil pessoas que estavam a assistir à transmissão ao vivo estavam a enviar mensagens a pedir "bis". Foi então que Chico optou por cantar mais uma canção, "Nina", e explicou que a sua amiga portuguesa, a cineasta Teresa Villaverde lhe tinha pedido uma canção para o seu próximo filme, "Cisne", a estrear em Setembro, e ele deu-lhe mesmo com medo de ficar com menos uma inédita do seu disco. Mas como o filme atrasou, a canção será lançada no disco como inédita.
NOTA do Conexão: se perdeu na hora, vá até lá agora. Chico e a Biscoito Fino têm um entendimento generoso da liberdade no ciberespaço e o registo em vídeo do momento está online: acessível a todos. O endereço segue em baixo.
# Site oficial: AQUI.
Instituto Tom Jobim lança acervo de Chico Buarque on-line
Enquanto aguardam o novo disco de Chico Buarque - cuja pré-venda começa na segunda-feira -, seus fãs ganham amplo acesso ao passado do cantor e compositor com o lançamento de seu acervo digital no site do Instituto Antonio Carlos Jobim (www.jobim.org).
A obra digitalizada do artista será lançada oficialmente na rede nesta sexta-feira, e seus números dão uma dimensão do volume acessível: são 1.044 imagens, 7.916 letras e partituras e 26.152 textos, entre cadernos, documentos pessoais, reportagens de imprensa, roteiros para cinema e teatro, correspondências.
O filé, no entanto, são as gravações de áudio e vídeo, que somam cerca de 600 arquivos e incluem toda a discografia de Chico, com cada uma de suas canções --algo que nem mesmo o site oficial do artista disponibiliza.
A única vez que vi João Gilberto
por Arnaldo Jabor
João Gilberto fez 80 anos na sexta-feira passada, mas eu só o vi pessoalmente uma vez. Foi 17 anos atrás, no ensaio de um show no Ibirapuera (acho que era aniversário de São Paulo). Eu tinha virado jornalista, depois que o Collor acabou com o cinema em 1991, e me mandaram fazer uma reportagem sobre a preparação do show. E lá fui eu, na noite fria do parque, esperar João Gilberto chegar, enquanto o palco era montado. Já contei isso, na época, mas "vale a pena ler de novo".
Vinte e três horas. Começa um boato de que João não virá para o ensaio nesta noite ventosa, angustiando tietes e organizadores que esperam ver/ouvir aquele "homem-suspense", com seu jeito eclesiástico, seu ar de professor de ética, que, aliás, sempre me provocou uma sensação de culpa: "Estarei errado, comparado ao rigor artístico de João?" De certa forma, todos estamos.
Aí, chega a terrível notícia: João não virá! Mas, mesmo assim, ninguém arreda o pé. João provoca uma espécie de fé nas pessoas, que o esperam ali, entre carpinteiros malhando o cenário e uivos das caixas de som. Espera-se esse homem com a fome de alguma revelação.
Eis que, à meia-noite em ponto, faz-se um grande silêncio no parque: João Gilberto materializa-se no palco! Surgiu do nada. Ao seu lado, o irmão Vavá e o amigo do peito Krikor Tcherkessian, armênio delirante que tem arranques de paixão com a música brasileira.
E aí, percebo que o ensaio e o show do dia seguinte são partes de um fio só, não interrompido. Ninguém fala mais; um carpinteiro sussurra ao diretor Fernando Faro: "Posso bater este prego?" "Pode..." As marteladas vêm aveludadas, tímidas, respeitosas e param. João lança a voz pela noite como os primeiros traços de um quadro numa tela negra. Sua música é a pura modulação do silêncio que se instalou. Ele começa Canta Brasil. Todos se imobilizam - Daniela Thomas, emocionada, pinta cores de Matisse no cenário; a equipe de Walter Salles Jr., que filma o evento, comunica-se por telepatia e as câmeras flutuam como "ETs" mudos. Eu olho João mais de perto e vejo que ele veste calças jeans, paletó marrom e tênis branco marca Pé de Atleta e vejo intrigado que seu irmão Vavá, calvo e ungido como um frade, também usa tênis Pé de Atleta. Sinto que ali estava um indício precioso para desvelar um pouco do seu cotidiano tão misterioso. Por que Pé de Atleta? Terão os irmãos comprado tênis brancos, em doce fraternidade do dia a dia? O tênis branco fazia João mais real.
Subitamente, ele se levanta e, pisando macio no tênis, mergulha na escuridão do parque, para ouvir o teste de som, do outro lado da praça, a mais de cem metros. Corro atrás, como bom repórter principiante.
E aí, começa o mágico momento do encontro: eu, trêmulo, no meio das folhagens do parque, descubro deslumbrado que ele me conhece: "Oh... Arnaldo... Arnaldo... vejo você na televisão..." Só minha mãe me chamava de Arnaldo e, agora, seu filho, mamãe, estava ao lado do mito. Os testes do som vinham do palco e João me pergunta: "Arnaldo... (ele parecia ter prazer em escandir as sílabas meio humorísticas de meu nome), Arnaldo, que você está achando do som?"
Eu arrisco: "Os graves estão reverberando e há um vazio..." João concorda, de estalo: "É isso! Tem um vazio... Falta qualquer coisa! Tens razão, Arnaldo; a frase tem início e fim, mas não tem meio! O som não tem meio. Ouve: "Essa mulata quando dança é luxo só" - a gente ouve "mulata e só"..."
João se vira para os técnicos: "Falta o meio do som..." O chefe arrisca uma explicação tecnopoética de que o vento esgarça o som e que, no dia seguinte, no calor dos corpos da praça cheia, o som ficará denso.
Súbito, João já está no microfone (a memória me vem por cortes bruscos) e começa a cantar Ronda, de Paulo Vanzolini, que vira um gemido clássico sobre a solidão absoluta e eis que surge Rita Lee no escuro da noite ("O que vou cantar não sei... quebrei o braço; foi o tombamento do Ibirapuera... ah ah...") e senta num canto do palco enquanto Krikor soluça em meu ouvido: "Ele é o Pelé da música... o mundo o ouve de joelhos!" Aí, chega o Caetano de um show no Anhangabaú e se junta discretamente a todos que ali se movem, ciciando, com passos camuflados. Tenho vontade de perguntar: "Há perigo?.." Há, sim, há o perigo de se quebrar a fina lâmina do silêncio, de desagradar a João.
Mas, ele está agora eufórico, cantando em falsete caricato o Dobrado de Amor a São Paulo, de Vinicius e Haroldo Tapajós, com o conjunto Quatro por Quatro. Depois, quando João canta Lua Cheia, todos já estão imóveis, como se o João fosse um passarinho que pudesse voar. Alguém me segreda: "Acho que o show já é só isso; amanhã ele nem vem..."
Mas, logo depois Caetano, meio tímido, passa Coração Vagabundo, que João repassa mais lento e mais baixo e Coração Vagabundo vira um réquiem e Rita Lee canta "cola teu rosto no meu rosto" e João emenda com Nada Além e o "além" soa como se João conhecesse o "país não descoberto" que vem depois da morte.
Enquanto isso, eu penso, aflito: "Perguntar o que, ao João?" Mas, só me ocorrem banalidades, toda ideia me parece rasteira, vulgar. Nervoso, decido perguntar algo que me revele mais segredos do cantor misterioso, algo "essencial", de que os tênis brancos Pé de Atleta talvez já fossem uma pista.
De repente, vejo que João está indo embora. Apavorado, corro atrás dele, sem saber o que lhe perguntar: música, vida pessoal, política? Paro ao seu lado: "E aí, João?" Ele sorri, esperando. Atrapalhado, me sai pela boca a tal "pergunta essencial": "E aí, João... ah... ah... para onde vai o Brasil?" Ele faz uma pausa, me olha fundo e diz: "Você sabe, Arnaaaaldo...." e some na noite.
João sabia o rumo do País e, bom sinal, não parecia preocupado.
Quando ele se foi, rompeu-se o silêncio, restaurou-se a realidade e alguém berrou aliviado: "Vamos comer num japonês!?"
Foi a única vez que estive com João Gilberto, em 80 anos.
Maria Bethânia, esta noite, em Portugal
No momento sem tempo algum para a escrita de palcos, deixo o texto que o Nuno Pacheco escreveu hoje para O Público. Talvez dizer apenas que, mesmo visto dos bastidores, nesta passagem pelo Coliseu, Bethânia trouxe quase tudo: os músicos virtuosos, a voz, as canções, a poesia, os poetas... só ficou mesmo a faltar-lhe ter trazido a alma junto.
Bethânia é Bethânia, concordo. Ainda está para vir ou o acaso, ou o milagre, que faça perigar-lhe a qualidade. De qualquer modo, o que sobrou foi uma vaga impressão de que, apesar do furor que o rodeou, talvez esse show nem fosse para acontecer. Ou antes, que talvez tivesse sido preferível não ter forçado a que acontecesse. Pela tarde, durante a recepção na Câmara Municipal que a Autarquia de Lisboa preparou em sua homenagem, a própria ia comentando o nada que havia para comentar e conversar, já que dessa vez «não trouxe nenhum disco novo para oferecer a Portugal». Ocorreu-me sorrir e responder lembrando o óbvio: que 46 anos de discos e palcos me pareciam bagagem bastante para prescindirmos facilmente de uma 'caixinha' nova que garantisse porquê 'à coisa'. Fiquei-me pelo sorriso e guardei as palavras para depois. Mais tarde, quando a cortina do Coliseu baixou, fiquei aliviada por me ter limitado a sorrir, sem nada dizer. É que, em pouco mais de hora e meia, percebi que o que me ocorreu, a ser verdade, não era - como ficou provado - uma verdade necessária e muito menos universal. Repertório e genialidade seguem precisando de intencionalidade e química para confirmar a mística. Não foi o caso, numa noite em que, mesmo nos bastidores, a emoção nunca chegou. Donde esta sensação de que talvez Bethânia devesse ter deixado por isso mesmo: vir para receber e agradecer a condecoração que o presidente da Câmara de Lisboa lhe atribuiu e pronto. Continuaríamos a gostar dela igual, mesmo sem show. Tal e qual continuaremos a gostar: depois do show. Apesar do show. Desse show. O de ontem.
Para quem perdeu o Coliseu, fica então o texto do Nuno: ajuda, pelo menos, a ter um 'contorno' da noite.
Cantora Maysa completaria hoje 75 anos
Para uns foi a 'Raínha da Fossa'. Eu prefiro a 'definição' que dela fez certa vez o poeta Manuel Bandeira: «a mulher que trazia dois oceanos não-pacíficos nos olhos».
Sugestão:
Veja ou reveja a premiada série autobiográfica da Globo, Maysa: quando fala o coração, sobre a vida da cantora: todos os VÍDEOS AQUI.
Hoje é 'Dia de Reflexão' pré-eleitoral em Portugal
Estamos trancados no paiol de pólvora
Paralisados no paiol de pólvora
Olhos vedados no paiol de pólvora
Dentes cerrados no paiol de pólvora
Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora
Mulher e homem no paiol de pólvora
Ninguém tem nome no paiol de pólvora
O azar é sorte no paiol de pólvora
A vida é morte no paiol de pólvora
São tudo flores no paiol de pólvora
TV a cores no paiol de pólvora
Tomem lugares no paiol de pólvora
Vai pelos ares o paiol de pólvora
Elba Ramalho festeja 30 anos de carreira com CD e DVD novos
via Estúdio i
A grandiosa 'Rainha do Forró' que a Ópera do Malandro revelou relembra momentos da vida e de uma carreira que soma 30 discos e mais de 300 shows. Para assinalar os 30 anos de estrada que entretanto se passaram, Elba Ramalho acrescenta ao acervo um novo CD e DVD gravado ao vivo no recife: Marco Zero.
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